A complicada arte de ver

Olá pessoal, hoje gostaria de mostrar para vocês um pequeno texto que serve para refletirmos um pouco, ele mostra bem como um artista pode e deve enxergar as coisas de maneiras diferentes.

A complicada arte de ver

Por: Rubem Alves

Ela entrou, deitou-se no divã e disse: “Acho que estou ficando louca“. Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. “Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões e é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões… Agora, tudo o que vejo me causa espanto.

Fotografia de Eduardo Guilhon A complicada arte de ver

Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as “Odes Elementales”, de Pablo Neruda. Procurei a “Ode à Cebola” e lhe disse: “Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: ‘Rosa de água com escamas de cristal’. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta… Os poetas ensinam a ver“.

Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.

William Blake sabia disso e afirmou: A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê“. Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.

Adélia Prado disse:Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra“. Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.

Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. “Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios“, escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada “satori“, a abertura do “terceiro olho“. Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: “Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram“.

Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, “seus olhos se abriram“. Vinícius de Moraes adota o mesmo mote em “Operário em Construção“: “De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa (garrafa, prato, facão) era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção“.

A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam… Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.

Fotografia de Guilhon A complicada arte de ver

Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras. Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: “A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as tem na mão e olha devagar para elas“.

Por isso (porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver) eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar “olhos vagabundos“…

Texto de Rubem Alves, educador, escritor. Livros novos para crianças e adultos-crianças: “Os Três Reis” (Loyola) e “Caindo na Real: Cinderela e Chapeuzinho Vermelho para o Tempo Atual” (Papirus). Pode aceder ao seu site em www.rubemalves.com.br

Conclusão

O texto mostra o que nós artistas temos em comum, o poder do olhar, da curiosidade, da fome de quero mais. Por isso cada dia que passa temos que treinar o nosso olhar para que nos mostre o diferente, para que possamos ver o que os outros não conseguem, a nossa diferença é baseada na maneira que vimos cada click antecipadamente.

E vocês, o que acharam do texto?

Obs.: Acho que nunca chorei tanto para fazer uma foto, cebola maldita!!

Obrigado a todos

Eduardo Guilhon
WWW.GUILHONFOTOGRAFIA.COM.BR
eduardo@guilhonfotografia.com.br
Skype: eduguilhon

 

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Cada autor é responsável pelo conteúdo do seu artigo".

16 Comentários

01.05.11

valeu cada lagrima, por que a foto ficou maravilhosa, o texto revelou toda a magia da fotografia, deixou ela muito mais perfeita, muito bom seu texto e enfim entendi que tirar fotos de " coisas nada ve" faz o MAIOR sentido, segue uma foto que usei esse seu mesmo olhar, só que sem lagrimas RSRSR foi com sal. http://www.flickr.com/photos/felipeburgues/529779

01.05.11

Parabéns pelo texto, muito bom!

Muitas vezes devido a rotina que temos, que é uma tremenda correria, não paramos para realmente enxergarmos os verdadeiros detalhes de tudo, e isso vale até mesmo para o que desenvolvemos, independe da área que atuamos.

01.05.11

Adorei essa reflexão e as referências. Também acho que aprendi a "ver" depois que tive minha primeira filha.

Hoje passei por louca pra tirar essa foto http://www.panoramio.com/photo/46138095
Foi muito demorada porque o local é cheio, arrisquei perder minha compacta, perdi o almoço e depois me disseram "tudo isso pra fotografar um mindingo!"

Mas sou uma louca muito feliz :)

01.05.11

Muito obrigado a todos… esse texto já conheço a alguns anos e sempre me faz pensar muito.

Felipe Burgues: Belíssimo trabalho… gostei muito de como juntou os temas e trabalhou com o sal de uma maneira que eu pelo menos nunca tinha visto e nem imaginado.

Cleyton: Sempre começamos assim… depois que comecei a trabalhar com fotografia mudou tudo… claro levou mais de ano e ainda estou em adaptação. Mas temos que treinar, caso contrario volta tudo ao "normal"

Vanessa: Bela foto, não sei se foi o seu caso, mas eu particularmente não sou muito a favor de fotografar moradores de rua sem a permissão deles. Apesar disso gostei muito da "pegadinha", muito bem pensada.

E quanto ao tempo… somos assim mesmo. As vezes temos que esperar dias, meses para foto que queremos. Bem vinda a vida de fotógrafa!!! Rs

01.05.11

Oi Eduardo,

Gostei bastante do texto. Me fez lembrar dos meus estudos sobre "paisagem". Afinal, o que é paisagem? É um tema polêmico nas artes plásticas, que rende grandes debates com as mais diversas opiniões.

Nós, indivíduos contemporâneos, necessitamos cada vez mais desse instate de "arrebatamento", que provoca nosso olhar e atenta nossa percepção. Conhece Milton Santos? Ele tem um livro com um estudo belíssimo sobre o tema (consegui achar aqui: http://www.scribd.com/doc/16391201/Santos-Milton-…. Esse "arrebatamento" é definido por ele como "descoberta", o momento em que os olhos dos nossos olhos se abrem para o corriqueiro. Abraço!

01.05.11

Acho duas coisas:

Gostei muito do texto, muito bem escrito e o tema muito bem explorado

(e eu amei as fotos, Eduardo!).

Sobre esse suposto professor, em vida chama-se Claudio Feijó em seu workshop Descondicionamento do Olhar 9recomendo muito, ele trabalha esse olhar com os ouvidos, mãos e principalmente com o cérebro).

Mas, não acho interessante quando envolvem Cristo, principalmente quando não trazem a visão bíblica sobre ele (falam do menino, criança,… uma visão não bíblica tira toda a autoridade que essa pessoa traria).

Eduardo, seu texto tem a qualidade de um conto ou poesia. De maneira agradável e poética ele vai ensinando o leitor contemplar aquilo que ele olha e não vê em seu cotidiano. Obrigado por tão agradável forma de ensinar a ver. Tenho certeza que após ler esta "poesia", fiquei um tanto emocionado com tão belas palavras e assim aprender um pouco mais a olhar e enxergar com arte aquilo que fotografo. Cordiais saudações – Nivaldo

01.05.11

sou amador em foto – arte mas estou apaixonado apesar de ser pintor de telas, mas a fotografia é agora a minha mante.

pesquiso tudo o que posso, e assim te achei e amei o seu comentario sobre o olhar de fotografo, o engraçado é que o olhar te transforma em um

" caçador " inveterado, com operigo de ser atropelado pois eu fico dando zoom em tudo que há na rua, mas é apaixonante !

um fotografo famoso ( frances ) chamado Bresson disse:

- EU Ñ FOTOGRAFO PESSOAS MAS SIM O SEU SILENCIO !!!

Ooutra muito bôa:

- UMA GENIAL FOTO COMEÇA NO CEREBRO PASSA PELO OLHO E FINDA NO CORAÇÃO !

Obrigado futuro colega de fotografia.

ps: VIVA AS CEBOLAS QUE { DESPERTAM } O OLHAR DO ARTISTA !

01.05.11

A foto "roubada" foi um dos fatores sim Eduardo. Você é de São Paulo? Costuma-se pedir autorização mesmo que a foto não seja um retrato? Penso que essa abordagem é perigosa e/ou estraga o momento espontâneo de se fotografar, mas vou tentar :)

01.05.11

Novamente Obrigado a todos os comentários…

Vanessa:

Eu evito fotografar pessoas na rua, mas quando se trata multidões e o seu foco é outro, eu considero como passível de fotografar sem problemas, mas quando o seu foco é uma pessoa em si o ideal é pedir permissão, mesmo que seja depois da foto feita (assim evita a perda do momento).

Pense na inversão de papeis, imagina um fotógrafo que você nunca viu na vida, do outro lado da rua apontando a câmera pra você, esperando o momento perfeito pra fazer a foto, como você se sentiria… é nisso que penso quando fotografo pessoas na rua, normalmente só o faço quando não será possível de reconhecer.

01.05.11

Tem toda a razão Eduardo, obrigada por compartilhar!

Sucesso pra você em 2011!

01.05.11

Sou estudante do segundo ano de Design na FAAC UNESP – Bauru e logo nas primeiras aulas tivemos de aprender a ver. Lembro de meu professor de Plástica dizendo que somos analfabetos visuais quando saímos do Ensino Médio. Ver foi e é uma tarefa árdua, tem exigido empenho e paciência de todos nós. Seu texto coloca de forma bela e simplificada "o ver" imagens. Gostei bastante e estou recomendando este post aos meus colegas e amigo.

Abraços.

01.05.11

esse texto abril meu olhos e me emocionou, fui correndo para a minha cozinha
e olhei frutas e legumes e chorei com tamanha beleza no que vi.

01.05.11

muito bom este texto, parabens!!!
certamente aprendi a olhar diferente!

01.05.11

Nossa Eduardo, até eu quase chorei. Texto lindo e verdadeiro. Sempre achei isso. Os olhos do fotógrafo são o primordial para um trabalho. O que vemos, ninguém mais vê. Na minha opnião esse é o diferencial entre os profissionais. A visão, o enxergar. É magnífico.
Parabéns.

01.05.11

Tem gente que além de não saber ver não sabe ler.
O texto é de Rubem Alves, como mencionado antes da conclusão.
Eduardo, parabéns pela escolha.

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