A preguiça como fator destrutivo das melhores imagens5/5(1)

 

Depois de me aventurar algumas vezes na arte de escrever e de me aventurar umas poucas na arte de fotografar, decidi pela primeira vez me aventurar na arte de escrever sobre a arte de fotografar. Com receio de falar bobagem, considerando minha irrisória experiência de fotógrafo amador, aventuro-me a explorar um assunto que muito me aborrece quando vejo que o advento das câmeras digitais point and shot mudou a relação das pessoas com a fotografia: a preguiça.

O fato de uma câmera digital ter configurações automáticas acomodou as pessoas e a praticidade de ver a foto logo após o disparo, apagá-la e refazê-la retirou a cautela que tínhamos quando limitávamos os cliques à quantidade restrita e preciosa de quadros de um filme analógico.

Não pretendo aqui explorar as superficiais comodidades de ser um “mero disparador de botão”, tampouco pretendo abordar a aparente (e equivocada) praticidade de fazer fotos de qualquer jeito pelo simples fato de que tudo poderá ser refeito e/ou retocado em programas de edição, assuntos estes que já foram ampla e magistralmente discutidos em artigos sobre o tema.

Sem adentrar em configurações técnicas de ISO, abertura, velocidade, compensação de exposição e outros termos técnicos que desassossegam principiantes como este que vos fala, o presente artigo visa a abordar um assunto que talvez interesse o leigo, aquele que, munido de uma point and shot ou mesmo de um simples celular, pretende tão somente registrar sua passagem por determinados lugares, inserindo-se no cenário visitado e fotografado.

Fato é que muitas pessoas que visitam determinados lugares não desejam apenas fotografar o lugar em si, mas querem se fotografar no local, como uma espécie de comprovação de que estiveram realmente lá. Quem não subiu o Corcovado e não tirou uma foto de braços abertos com a estátua do Cristo Redentor de fundo que atire a primeira pedra!

Acontece que muitas vezes os monumentos são muito grandes para caberem numa foto e some-se a isto o fato de que a pessoa fotografada quer sempre ficar bonita no registro da viagem inesquecível e ainda quer ficar perto ou dentro do cenário para realmente sentirem que passaram por ali.

Temos aqui alguns conflitos que precisam ser solucionados para um melhor resultado:

  • Cenários/monumentos muito grandes – grandes planos – exigem que o fotógrafo se posicione a uma grande distância ou tenha uma lente grande angular poderosíssima para poder enquadrá-lo em sua totalidade;
  • Lentes grande angulares (lentes de pequena distância focal, que permitem uma visão mais aberta) causam distorções nas extremidades das imagens, não sendo, portanto as mais indicadas para fotografar pessoas (que querem ficar sempre lindas, lembremos disso!);
  • Em razão da diferença de proporções entre a pessoa e o cenário a serem fotografados, quando o fotógrafo se afasta deste último para conseguir enquadrá-lo inteiro, aquela poderá ficar tão pequena que mal poderá ser identificável.

Parque Lage 1 A preguiça como fator destrutivo das melhores imagens

Se aqui o panorama já se afigura desfavorável, acreditem, sempre é possível piorar. E é aqui que entra a preguiça, como elemento do contra que contribuirá muito para que os registros dos passeios inesquecíveis se tornem frustrantes.

Por conta da minha timidez sempre preferi estar por trás das câmeras à frente das lentes. Isso me conferia certo status com algumas amigas aspirantes à modelo que me obrigavam a fotografá-las por horas a fio em diversos locais e nas mais variadas poses. Algumas vezes, no entanto, cheguei a ouvir frases deselegantes insinuando que eu demorava demais para bater uma simples fotografia porque eu era cheio de manias desnecessárias e sem sentido. Uma destas minhas manias era ficar de joelhos ou sentar-me ao chão para tirar determinadas fotos. Quando os papeis se invertiam no usual “agora tira você a minha foto”, em muitas ocasiões eu mal me posicionava e meu amigo fotógrafo me entregava a câmera dizendo que estava tudo pronto. Serei injusto se disser que todos os meus amigos faziam isso, mas cada um se reconhecerá aqui.

E é a estes comportamentos de questionar as “manias” e de disparar um botão sem sequer olhar o que se está enquadrando é que atribuo, neste texto, a qualificação de preguiça fotográfica.

Deixando de lado, por enquanto, aqueles conflitos acima citados, sobre os quais falarei mais adiante, vejamos as possibilidades que ocorrem nesta situação que acabei de descrever. Supondo que atrás dos meus amigos haja um monumento, uma estátua, uma construção histórica, o meu interesse enquanto fotógrafo era enquadrá-los de tal modo que o cenário inteiro fosse registrado e as pessoas também.

Parque Lage 2 A preguiça como fator destrutivo das melhores imagens

Enquanto fotografado, o mínimo que eu esperava era o mesmo esmero. No entanto, não raras são as vezes em que vemos uma estátua cortada da cintura para baixo, uma pessoa de corpo inteiro e muito chão. Por outro lado, ainda seguindo o exemplo da estátua, muitas vezes a vemos inteira com a cabeça da pessoa na linha inferior da foto, transmitindo uma péssima impressão de decapitação.

Isto acontece porque existe um aparente desnível quando enxergamos alguma coisa tridimensionalmente em diversos planos e tentamos visualizar apenas duas dimensões. Como assim? Ora, ao posicionarmos o indivíduo à frente e a estátua ao fundo, temos que considerar que existe uma distância horizontal entre ambas as figuras que vai da frente (primeiro plano) ao fundo (segundo plano).

Parque Lage 3 A preguiça como fator destrutivo das melhores imagens

Como a fotografia tem apenas duas dimensões, ou seja, largura e altura, a profundidade acaba se revelando ilusoriamente como item constitutivo desta última. É o que acontece nos exemplos ilustrados. Do ponto de vista da fotografia, os pés da estátua se encontram em uma determina altura, próxima da qual também se encontra a cabeça do indivíduo. O mesmo acontece em relação ao Solar Henrique Lage, que ilustra o artigo: o alicerce do casarão se encontra no nivel da cabeça do fotografado. E é justamente esta percepção que o fotógrafo precisa ter para compensá-la – o que falta no preguiçoso.

Quando seguramos uma câmera, normalmente não temos o mesmo campo de visão que temos quando olhamos apenas com nossos olhos e precisamos posicioná-la, adequando sua angulação em relação ao objeto da foto, bem como sua altura, de acordo com o que pretendemos fotografar. Assim, quando tentamos enquadrar um indivíduo de corpo inteiro, tendemos a manter a câmera à altura de nossos olhos e incliná-la para baixo. Por outro lado, para enquadrar toda a estátua, costumamos simplesmente levantar a câmera para abarcá-la.

Ocorre que, quando permanecemos com a câmera à altura dos olhos e a inclinamos para baixo, estamos direcionando sua lente para o chão, desprezando todos os elementos que estiverem no alto. Deste modo, a ilusória diferença de nível entre os objetos e a pessoa fará com que a câmera priorize os elementos baixos, ou seja, a pessoa e seu corpo inteiro e, claro, o chão. Da mesma maneira, quando elevamos a câmera, estamos afastando o chão do campo de visão, apontando-a para o céu. Com isto, qualquer coisa que esteja num nível relativamente próximo ao chão também será desconsiderada no enquadramento.

Nestes casos, fará uma enorme diferença se, em vez de simplesmente manter a câmera à altura confortável de seus olhos, inclinando-a para cima ou para baixo de acordo com a necessidade, o fotógrafo tentar mantê-la sempre reta, apontada diretamente para frente, regulando apenas sua altura em relação ao chão. Obviamente isto irá alterar a percepção das proporções e se fotografamos qualquer coisa de baixo pra cima, teremos a impressão de que sua base será maior que seu topo. O mesmo acontecerá quando fotografamos alguém de cima para baixo, dando a impressão de que sua cabeça é enorme e seus pés se afunilam. Mas, este é assunto que poderá ser discutido em outro texto.

Assim, quando eu começava com minhas estranhas manias de sentar ao chão para fotografar meus amigos em frente a monumentos que eu julgava que deveriam sair na foto, a minha intenção era justamente corrigir o desnivelamento entre a pessoa e o objeto fotografados, aproximando-os verticalmente e tentando deixá-los em uma altura aproximada dentro do campo de visão da câmera, permitindo enquadrar ambos os elementos na mesma foto.

Parque Lage 4 A preguiça como fator destrutivo das melhores imagens

Evidentemente, na prática, diversos outros fatores deverão ser levados em consideração e é claro que, em determinadas situações é perfeitamente possível que haja algum tipo prejuízo à melhor composição, seja pela distância entre os objetos, seja pela altura do monumento, seja pela regularidade do terreno… Cabe ao fotógrafo deixar a preguiça de escanteio e fazer os melhores ajustes que permitam obter os melhores resultados, ajoelhando-se, sentando-se ou subindo em pedras, bancos, etc.

Quanto aos problemas relatados no início, é fácil perceber que precisamos descobrir um meio termo já que estamos lidando com extremos. Desta forma, sabendo-se que obteremos os melhores resultados da fotografia da paisagem com uma grande angular e obteremos os melhores resultados da fotografia das pessoas com uma objetiva média de 55 mm, o ideal é alcançar equilíbrio, evitando-se distâncias focais inferiores a 24 mm e superiores a 55 mm.

Por fim, reiterando que assuntos de grandes dimensões podem ocupar facilmente toda a extensão da fotografia, exigindo que o fotógrafo se distancie, não é preciso que as pessoas que pretendem ser clicadas estejam próximas ao objeto, sob pena de ficarem tão distantes da câmera que desaparecerão em meio à paisagem.

Assim, deixo a última dica para quem pretende guardar os melhores registros do Cristo Redentor, da Torre Eiffel, do Big Ben ou da Torre de Belém: enquadre primeiro o cenário que você deseja ao fundo e somente depois disso, peça para a pessoa se aproximar de você, o suficiente para registrar suas melhores expressões, lembrando sempre que preguiça não combina com fotografia.

... e agora ajude-nos e compartilhe com os seus amigos.


     

 

Sobre Guto Carneiro

Advogado e Fotógrafo

25 comentários

  1. Ótimo artigo. Extremamente útil e bem ilustrado! Você escreve de maneira muito clara e despretenciosa. Dá gosto de ler!
    Parabéns.

    • Olá, Caio!

      Muito obrigado pelo comentário! Fico imensamente lisonjeado com os elogios, especialmente pelo fato de, tendo sido meu primeiro artigo sobre o tema, eu estava apreensivo para saber como seria a receptividade… Se escrevi com clareza e didatismo suficientes para me fazer entender. Este feedback é bacana para que eu possa avaliar como poderei me sair nos próximos artigos, que com certeza virão!

      Grande abraço!

  2. Otimo texto e otimo site. Primoroso conteudo para os que amam fotografia.

    • Obrigado, André! Espero continuar atendendendo aos anseios da galera que curte fotografia. E que venham mais novidades no Fotografia-DG! ;)

  3. Parabéns, meu velho. O melhor artigo que li por aqui, sem futriques e alfineta os preguiçosos de plantão. Lembrando que existem profissionais preguiçosos também, não somente os amadores.

    • Caramba, Alexandre!

      Nem de longe pensei em receber tamanha honra como este "o melhor artigo que li por aqui", risos. Tem uma equipe de feras que manda muito melhor e com quem espero continuar aprendendo muito! De qualquer forma, agradeço imensamente o reconhecimento!

      Grande abraço!

  4. Guga, tá de parabéns, meu caro! Escreveu bem, claro e bastante acessível – deu seu recado magistralmente!

    Este é um artigo para se guardar nos favoritos e ser indicado de tempos em tempos a todos que apreciam a arte de tirar fotos, especialmente os novatos que buscam novos equipamentos como solução pronta para melhores fotos – vá por mim! ;D

    • Alexandre, fico muito honrado com suas palavras. Dizem que elogios são sempre vindos. Até concordo. Mas, admito que quando recebemos uma palavra lisonjeira de alguém com quem aprendemos o conhecimento que agora estamos transmitindo, isto tem um peso maior. Sem menosprezar os demais comentaristas, que são chave fundamental para meu crescimento, receber um elogio de qualquer fotógrafo articulista deste site tem um acréscimo à sensação de dever cumprido, porque sei que consegui me colocar à altura daqueles cujo trabalho admiro. Muito obrigado! Espero continuar no caminho, evoluindo sempre.

  5. Grande Guca! Parabéns pelo artigo cara!! E dizer que estava aí no mesmo parque um dia antes de você né?? kkkk. Da próxima combinamos melhor isso! Ahh, fui no MAC no horário que tu falou, tinhas razão: luz incrível! Abraço!

    • Salve, salve, Diogo! Espero que tenha aproveitado o máximo possível sua estada no Rio. Infelizmente, não conseguimos organizar melhor os horários. Eu estava enfurnado no escritório esse tempo todo, risos… Valeu pelo comentário! Repito para você as mesmas palavras que falei para o Alexandre Maia! Quando o aluno ganha o reconhecimento do mestre, não há preço!

      Fico feliz que tenha gostado da indicação do MAC! Quem sabe na próxima vez não possamos montar um “roteiro fotográfico”? Ainda tenho muito o que aprender com o pessoal aqui!

  6. Suellen Sara Lacarte

    Estou começando a me interessar por fotografia agora, lendo muito, pesquisando tudo. Ainda não comprei a minha câmera, mas assim que eu a tiver em mãos o primeiro lugar que eu quero fotografar é o Parque Lage, que por coincidência é o lugar desse artigo. rsrs Muito obrigada pela dica. Gostei muito. Pode ter certeza que quando estiver lá no Parque Lage lembrarei da dica e tirarei belíssimas fotos :)

    • Valeu, Suellen! Só não esqueça de ir ao Parque Lage pela manhã, que é o melhor horário de luz por lá! À tarde tende a ser meio escuro por causa das árvores e da posição do Corcovado, que acaba fazendo sombra! Obrigado pelo comentário!

      • Suellen Sara Lacarte

        Sim, quando pensei em ir lá pensei nisso, em ir cedinho e aproveitar bastante a luz. Porém, queria tirar fotos do fim do dia quando o céu fica com aquela cor de pôr do sol :) Acho lindo! Mas, não sei se conseguirei tirar por esses motivos que você falou, mas vou tentar rsrsrs

  7. Excelente artigo!
    Explicou, com ótimas palavras, tudo o que penso sobre aqueles que reclamam quando "demoro". E sobre o que acontece quando peço para que tirem uma foto minha. hahaha… Sempre acontece como você citou nos exemplos!
    Adorei o texto!

  8. Parabéns e obrigado pelas dicas. Os dois últimos parágrafos resumiram o texto de uma forma magistral.!

  9. Gostei do enquadramento da primeira foto (tirando a parte do sujeito despreparado, logicamente). O que vocês acham?

    • Oi, Marcelo. Obrigado por comentar. A proposta no primeiro quadro é justamente revelar a distância que o fotografado ficou para permitir que todo o cenário ficasse no quadro.

  10. Muito bom, e a da "mão no saco" é de matar…

  11. Você escreve muito bem, pena que saiba tão pouco de fotografia.
    As fotos de exemplo são bem deficientes. Sua dica de manter a distancia focal entre 24-55mm é completamente inválida. Estás esquecendo questões como distorções e achatamentos da perspectiva, muito úteis para fotografar pessoas em paisagens.
    Enfim vai a dica: fotografar mais, ler mais sobre fotografia (pela sua escrita é óbvio que és letrado) e diminuir o ego.

    • Olá, João! Obrigado pelo comentário e pela dica. Redução de ego e aprendizado são realmente fundamentais, independentemente do fato de sermos ou não articulistas. Mas, apenas para fazer um esclarecimento, o artigo se propõe a dar dicas superficiais a pessoas que estão fazendo turismo, não a aprofundar conhecimentos fotográficos e técnicos em excesso, que muitas vezes tornam produzem fotos tecnicamente perfeitas, mas frias de conteúdo. Por tais razões, as fotos que ilustram o artigo foram propositalmente escolhidas dentre minhas fotos desprovidas de grandes técnicas, feitas de qualquer jeito durante um passeio no parque, em um dia no qual fotografar não era a principal atividade. A ideia foi justamente mostrar a diferença que o posicionamento do fotógrafo faz em relação ao quadro, não demonstrar relações entre aberturas, ISOs e velocidades.
      A dica sobre manter distâncias entre 24 e 55mm, relembre, está relacionada à versatilidade desejada entre embelezamento pessoal e angulação adequada ao tamanho do cenário. Como disse no artigo – e você deverá se lembrar – estamos diante de uma situação em que a pessoa fotografada quer ficar bonita e a paisagem ao redor deve ser enquadrada. E nestes casos, como você mesmo frisou, os extremos causam DISTORÇÃO, o que nem sempre é bem vindo, e achatamento de planos. De fato, o achatamento, PARA A PROPOSTA DO ARTIGO, pode soar interessante. Mas, nas condições que propositalmente abordei, estamos falando de grandes planos, e nestes casos, a angulação reduzida de grandes distâncias focais não parece uma boa ideia. Ao contrário do que escreveu, eu não esqueci tais questões. Mas, deliberadamente as desconsiderei, haja vista que não me proponho em meu artigo a fornecer um curso de fotografia, tão somente a procurar soluções de posicionamento durante uma situação em que se quer conciliar pessoas e cenários.
      Novamente, agradeço sua dica. Em contrapartida, deixo aqui a minha: não se prenda tanto a conceitos técnicos. Algumas vezes, deixa-se de viver porque se quer fazer a imagem tecnicamente perfeita. Grande abraço.

  12. Eu iria ate ler….mas o texto eh muito grande e ai deu preguiça!

  13. Olá!
    Adorei o seu texto!! Muito útil, e principalmente para quem não sabe fotografar, e não entende que queremos gravar e poder relembrar os nossos momentos de forma agradável!!
    Apenas acho que poderia ser mais resumido, chegando mais rápido ao objetivo, pois quando compartilhamos esses artigos A PREGUIÇA das pessoas que mais queremos que leiam, acabam por nem começar… :/
    Mas está de parabéns!!
    Continue postando que lerei com grande prazer e obrigada por compartilhar seu conhecimento!!!

  14. Se reclamar que estou lento ao fotografar, mando se danar e sair a imagem. Não tenho mais idade para discutir com ignorantes.

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