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Crítica ao Ensaio Newborn

Escrevo esse artigo não só para fotógrafos, como para os pais também.

Quando comecei na fotografia profissional, foi bem no final da minha gravidez. Eu via fotos de recém nascidos naquelas posições e achava lindo demais.

Quando minha filha nasceu eu não tinha uma câmera profissional, e quando ela estava com alguns dias eu tentei fazer umas fotos dela deitadinha peladinha no cobertor e não consegui nada parecido (apenas alguns clicks com uma câmera superzoom da Panasonic que eu tinha). As fotos ficaram boas, mas nada parecido com aquelas fotos da Anne Guedes.

A propósito, a Anne Guedes não faz fotos para os pais, ela não vende ensaios. Aquelas fotos são usadas em cartões de crédito, de natal, enfim, uso comercial.

Fotografia de Anne Guedes

Fotografia de Anne Guedes 2

Quando minha filha estava com dois meses eu comprei minha primeira câmera profisional. E então me interessei em fazer muitos cursos na área de fotografia de recém nascidos para aprender a fazer aquelas fotos e claro, me tornar fotógrafa de família.

Fiz uns 5 cursos só de fotografia de recém nascidos, até mesmo com uma fotógrafa internacional. Comecei a me desenvolver na área e a trabalhar com ensaios.

Devo ter feito uns 20 ensaios de recém nascidos num período de 2 anos, e esse tempo foi suficiente pra eu refletir sobre essas fotos e também toda experiência que tive com esses ensaios. No mesmo período também comecei a fazer faculdade de Artes Visuais.

Decidi dar uma pausa (não divulgar) os ensaios newborn e a me concentrar em outros tipos de fotografia (retratos, pets, viagens, natureza) e com isso veio a minha reflexão.

E é disso que quero falar agora.

A fotografia de newborn virou um boom! Muitas e muitas pessoas fazendo workshops na área, até faltam bebês pra fotografar porque muitos já estão sendo modelos em tantos workshops que tem por aí. “Precisamos de um bebê com ate 15 dias. Os pais ganham as fotos”. Mais de 1000 dessas chamadas por ai.

Mais e mais pessoas fazendo ensaio newborn. Umas fazem bem, cheias de técnicas e estúdios altamente preparados. Outras tentam alguma coisa parecida e o resultado mais parece aquele que eu disse no começo q eu mesma fiz com minha filha. Algo que “lembra” alguma coisa semelhante.

Tudo ficou tão igual, uma verdadeira febre de foto igual! Tudo parece a mesma coisa. Os acessórios, as poses, as cores, as mãos, os pés, fantasias, flores (alguns até parecem um velório, que Deus me perdoe). O bebê deitado de barriga pra cima com as mãos no peito e flores ao redor nos dá uma sensação ruim – até mesmo porque ele está dormindo.

O estresse de fazer uma sessão newborn também conta. Para se ter aquelas poses é necessário que o bebê esteja dormindo e para isso ele precisa estar alimentado, relaxado, sem cólicas, e dai vem aquela limitação de fazer o ensaio com até 15 dias de vida.

Já passei por casos que tive que voltar à casa do cliente (4 casos), pois não conseguíamos as poses, o bebê não dormia, já tinha cólica e etc, ou seja, é algo estressante para os pais e para o fotógrafo, que coloca toda uma expectativa em cima daquilo e não acontece como o esperado. E também já passei por casos em que as mães queriam o ensaio, mas o bebê estava com mais de 1 mês, até 2 meses.

Além disso, ter essa limitação de dias para se fazer o ensaio o torna muito limitado, não é mesmo? Não dá pra fazer aquelas poses com um bebê de dois meses, salvo raras exceções que eu desconheço.

Junto também veio um boom de acessórios (os famosos “props”) dos mais variados estilos, fantasia de batman, tocas, wraps, cestos, caminhas, cinderela, balde, tudo do mais variado e na verdade tudo igual. As fotos começaram a ficar todas iguais, todas muito parecidas em si, não tinha mais arte, realidade e naturalidade.

Tudo está formatado e escrito que deve ser daquele jeito. Tudo é imitado. Copiado. O bebê pelado com poses prontas, cores e toucas da moda, acessórios iguais.

Cansativo pro fotógrafo, cansativo pro cliente que espera uma coisa que ele está vendo o tempo inteiro em mais de 1000 páginas e sites.

Não vemos mais a naturalidade, o jeito próprio de cada bebê, os detalhes, as coisas do bebê. Isso praticamente não tem! É tudo já pré formatado.
Cadê o jeito próprio do fotógrafo, sua marca, seu olhar, suas ideias? Também não vemos. Vemos um jogo de imitação. Deixou de ser uma arte e passou a ser uma técnica, como a técnica de fazer chocolate. Houve uma mãe que chegou a me dizer “Eu já sei todas as poses que eu quero, só preciso que você venha com sua câmera”.

Lembro que quando comecei eu comprei wraps, dois cestos e ficava fotografando e consultando meu celular para não esquecer as poses e muitas vezes, não conseguimos fazer nem metade delas, pois o bebê acorda, tem cólica, não dorme mais, e aí fica todo mundo chateado, na expectativa, como se fosse uma flecha que só deve ser atirada no meio, ou seja: “vamos depender da sorte para fazer as poses e se não fizer as poses não tem valor, não tem graça, não presta”.

Mas cadê a arte? Cadê o meu toque especial? Parece que todo mundo copia todo mundo. Cadê o toque de arte do fotógrafo? Cade os detalhes do bebê na sua casa, seu mundo real? É tudo copiado e estabelecido.

Não, eu não quero mais isso. Eu quero mostrar a beleza real de cada um, a verdade, a naturalidade, a pureza. Eu quero que a família tenha pra sempre uma lembrança de um momento da vida que nunca mais voltará.

Então por que não podemos fazer fotos orgânicas e reais daquela vida que nasceu, do dia a dia, com os acessórios do próprio bebê, em sua própria casa, sem limite de idade, sem precisar fazer determinada pose. Esse pensamento é para você fotógrafo e para vocês, mamães e papais.

Por que não mudar, fazer diferente?

E vocês? Qual a opinião de vocês sobre isso?

Termino o meu texto com uma frase do Oscar Wilde: “A arte começa quando a imitação termina”.

Claudia Tavares

Claudia Tavares, formada em Artes Visuais e Fotografia, dedica-se à fotografia de animais, viagens e famílias.

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