Home » Cursos » Admirando a Paisagem » Admirando a Paisagem: Equipar-se a Rigor – O Essencial Parte 1

Admirando a Paisagem: Equipar-se a Rigor – O Essencial Parte 1 5/5 (1)

- Última Atualização a: 20/10/2010

Admirando a Paisagem

Capítulo I: Equipar-se a Rigor

1. O Essencial

“A câmara é um instrumento que ensina as pessoas a ver sem uma câmara”.

Dorothea Lange

O mundo do equipamento fotográfico é tão apaixonante como o próprio universo da fotografia. Prova disso é a existência de um sem número de publicações e websites dedicados a máquinas, lentes e demais gadgets e de seres humanos que gastam fortunas em equipamento topo de gama que nunca chega a ver – e a registar – a luz do dia…

A verdade é que todas as fotografias existem diante de nós, no cenário natural ou urbano que nos abraça, mas também é certo que sem uma máquina que as registe nunca as poderemos fazer perdurar no tempo, criando memória e gravando evidência para partilha com as gerações futuras. Como é esse o principal fundamento da fotografia, decidi começar esta minha série de artigos com um ensaio sobre o equipamento fundamental a qualquer aspirante a fotógrafo de paisagem natural.

Canon EOS 5D Mark II * Canon EF 17-40 L USM

Câmara

A primeira peça de equipamento fotográfico a ser geralmente adquirido é a câmara fotográfica. Esta personifica o coração de todo o equipamento e sem uma câmara adequada, o resto do material pode tornar-se inútil. Mas com tantas marcas, formatos e modelos disponíveis, qual a que devemos escolher então?

Para a prática deste estilo de fotografia, é essencial que a câmara tenha algumas características fundamentais:

  • Modo manual para controlo da exposição (abertura e tempo de exposição);
  • Modo bulb, ou seja, capacidade para deixar aberto o obturador sem limite de tempo;
  • Capacidade de usar vários tipos de lentes;
  • Possibilidade de olhar através da lente;
  • Possuir um medidor de exposição incorporado;
  • Apresentação do histograma no LCD da câmara para verificação no terreno da exposição;
  • Ligação para cabo disparador;
  • Encaixe para tripé.

Tendo em conta a lista apresentada, é fácil concluir que a opção que melhor se ajusta aos requisitos de uma câmara adequada à fotografia de paisagem natural é uma dSLR (SLR Digital)¹. Isto não quer dizer que não existam compactas que poderão ser utilizadas com sucesso neste estilo fotográfico. Aliás, há quem recomende a existência das duas lado a lado no equipamento do fotógrafo, pois uma compacta pode chegar onde muitas vezes uma SLR “grande e pesada” não consegue ser levada. Mas, para este artigo, vou deixar de lado as compactas, prometendo voltar a elas num espaço próprio.

E agora? Qual a dSLR mais adequada? Não pretendendo entrar na batalha das marcas, queria apenas apontar os dois formatos digitais mais utilizados hoje em dia pelos fotógrafos de paisagem natural: o formato full-frame (equivalente ao 35mm do filme) e o formato APS-C² que implica uma redução no tamanho do sensor digital e que introduz uma componente de ampliação focal na ordem dos 1.6x (dependendo do fabricante).

A imagem acima foi realizada com uma 17-40mm a 17mm. Apenas pode ser usada nesta amplitude em full-frame. Numa APS-C a secção utilizável é menor, pois o sensor está mais perto da lente e o espaço fora da janela indicada na imagem é descartado (não consegue ser visto pelo sensor APS-C). A lente continua a ser uma 17mm, apenas o campo de visão equivalente (EFOV) foi alterado. Num sensor APS-C o EFOV é de 17mm x 1.6 o que equivale a 27,2mm. Uma lente ultra grande angular que deixa de o ser quando montada numa máquina APS-C.

[1] Deixo de fora deste artigo sistemas analógicos e formatos superiores a 35mm (incluindo digitais), visto estarem um pouco fora das opções usualmente disponíveis no mercado actual.

[2] Entre os formatos de sensores dSLR existem ainda vários outros, entre os quais está o Four-Thirds. Este formato implica um factor de ampliação de 2x e é por isso também um cropped-sensor. Juntamente com o full-frame e o APS-C, o Four-Thirds faz parte do grupo dos sensores mais usados no mercado. Foi deixado de lado nesta análise pelas suas semelhanças com o APS-C, embora possibilite um grau de miniaturização mais elevado, o que permite a produção de corpos e lentes ainda mais pequenos e leves.

 

Alguns aspectos importantes a ter em conta na escolha:

  • O formato APS-C, ao aplicar um factor de ampliação quando comparado com o 35 mm, é adequado para quem procura distâncias focais grandes, tal como as usadas na fotografia de vida selvagem;

 

  • O formato APS-C está normalmente associado a lentes mais pequenas e leves (para ângulos de visão, intervalo de distâncias, qualidade de construção e intervalo de aberturas semelhantes às do 35mm) o que pode ser importante para quem pretende levar o equipamento consigo para todo o lado;

 

  • Como o formato APS-C descarta a parte da imagem junto às margens (habitualmente a que tem menos qualidade nas lentes mais baratas) é mais adequada para aqueles fotógrafos com orçamento mais limitado, uma vez que lentes mais baratas normalmente sofrem de perda de qualidade principalmente nestas áreas. Este formato produz também imagens com menos vinhetagem devido à quantidade do cenário que enquadra. Pelo contrário, o formato full-frame, ao utilizar todo o espectro focal disponível implica a utilização de lentes com maior qualidade de modo a que a imagem não sofra qualquer degradação em todas as secções do enquadramento, encarecendo assim o equipamento e forçando à utilização de acessórios (sistemas de filtros, por exemplo) que tenham em atenção a tendência para a vinhetagem nas lentes grande angular;

 

  • O formato APS-C requer distâncias focais menores para apresentar a mesma visão do que o 35mm. Na fotografia de paisagem natural é essencial usar lentes grande angular e, no formato APS-C, para conseguir, por exemplo, uma distância focal de 16mm é necessário ter uma lente que consiga apresentar 10mm. Como, normalmente, quanto mais baixa é a distância focal pior é a qualidade da imagem produzida, o formato full-frame é o de eleição para quem pretende tirar o máximo partido de lentes grandes angular;

 

  • Sensores maiores têm normalmente pixéis maiores o que possibilita a produção de imagens com menor nível de ruído e maior gama dinâmica. Além disso, pixéis de maior densidade podem receber um fluxo superior de fotões durante o mesmo tempo de exposição (utilizando uma mesma abertura) o que permite receber um sinal de luz mais forte e produzir imagens mais suaves, com qualidade de impressão superior. É também por esta razão que o formato full-frame é o mais apetecível quando se pretende conseguir imagens de qualidade superior.

Dito isto, é importante não esquecer que nem sempre a ferramenta mais adequada é a mais cara. Deverá ter em conta a utilização que pretende dar ao seu sistema e escolher a solução mais vantajosa e económica para o seu caso particular, tendo sempre em conta que, se um dia pretender migrar do sistema APS-C para o full-frame, as lentes poderão não ser compatíveis entre sistemas.

Canon EOS 5D Mark II * Canon EF17-40mm f/4L USM

Partilhando um pouco da minha experiência pessoal, actualmente utilizo uma Canon EOS 5D Mark II que utiliza o formato full-frame. Antes disso, utilizei várias máquinas da mesma marca no formato APS-C, com lentes apenas compatíveis para esse formato. Quando migrei de formato, fui obrigado a deixar de lado a minha lente grande angular que apenas funcionava em APS-C, o que implicou um acréscimo de custo na escolha do novo sensor. E quais foram os ganhos conseguidos? Em primeiro lugar, a nova lente que estou a usar (uma 17mm da Canon em comparação com a 10mm da Sigma) é de uma qualidade muito superior e isto falando no mesmo patamar de preços. Para além disso, a gama dinâmica e o nível de ruído das imagens teve um grande acréscimo no sentido da maior qualidade. O par “full-frame/lente de qualidade” é, a meu ver, imbatível em termos de qualidade no resultado final da imagem, em especial, para quem pretende imprimir ou publicar as suas fotografias.

A minha recomendação é a seguinte:

  • Cropped Sensor: se pretende um sistema (corpo e lentes) mais barato, mais pequeno e leve e se pretende utilizar, no futuro, lentes com menor qualidade. Um sistema deste tipo produzirá imagens de qualidade mantendo um rácio preço/qualidade muito aceitável. Se a sua fotografia se baseia em distância focais grandes, este sistema pode ser também uma boa aposta, pois permitirá com menor custos conseguir adquirir tele-zooms que, em combinação com o factor de ampliação do sensor, conseguem atingir uma maior distância focal. Em resumo, se o seu foco está no preço, este será o sistema de eleição. Máquinas recomendadas: Canon EOS 60D, Canon EOS 7D, Nikon D300s, Nikon D7000, Olympus E-5, Pentax K-7.

 

  • Full Frame: se pretende um sistema que lhe dê o máximo de qualidade, ou se está a migrar do sistema analógico de 35mm e possui uma série de lentes de alta qualidade, este é o único sistema que lhe permite tirar o máximo partido das suas lentes, mantendo o leque de visão do sistema analógico. Se o seu estilo de fotografia se baseia na utilização de lentes de grande angular, se pretende fotografar com pouca luz ou em alturas do dia em que a luz disponível é escassa e possui uma grande amplitude dinâmica, se pretende obter os melhores resultados na impressão a grande formato, então o sistema full-frame deve ser o escolhido. É preciso ter em atenção que este sistema implica um grande investimento financeiro, pois tanto as lentes (que terão de ser de qualidade profissional), como os acessórios, tendem a ser consideravelmente mais caros. Em resumo, se o seu foco está na qualidade, este é o sistema de eleição. Máquinas recomendadas (a preços “acessíveis”): Canon EOS 5D Mark II, Nikon D700, Sony Alpha 850.

Na parte 2 deste artigo serão apresentadas os dois elementos em falta deste trio de essenciais, sem os quais nem valerá a pena sair de casa para vislumbrar a magia da Natureza. Fique sintonizado para saber quais.

Ajude-nos, avalie este artigo:

Aproveite este desconto na nossa lojaAdquira o Photoshop e o Lightroom por apenas R$35,00/mês

Luis Afonso

Luís Afonso nasceu em 1972 e reside actualmente em Lisboa. Comprou a sua primeira SLR em Janeiro de 1997, mas foi apenas em 2005 que começou a fotografar com mais intensidade. Já publicou as suas fotos em várias revistas e jornais portugueses, bem como na mais prestigiada revista Checa de fotografia. Também já foi premiado pelas suas fotografias de natureza. A sua primeira exposição a solo teve lugar em 2009 em Inglaterra. Desde 2008 dedica-se exclusivamente à fotografia de paisagem natural.

10 Comentários

Clique aqui para comentar

  • otimo artigo, parabéns fotos fantásticas
    tenho 15 anos e sou fanático por fotografia, apesar de as pessoas me dizerem que é uma coisa que em portugal não está a dar em nada

  • Boa noite, caro Luis estoui entrando agora na area de fotografia tinha uma camera canon Sx20Is e estou migrando para minha primeira e tão esperada Dslr não sou profissioanl so um curioso mesmo que adoro me embrenhar na mata e tirar fotos da natureza gostaria que se possivel vc me indicasse uma boa camera dslr e Algumas boas lentes para que eu possa finalmente ter um bom equipamento para esse fim. Fotos de paisagens e da natureza.

    Desde já Agradeço.

    Aldo Holanda

  • Viva Luis, gostei do texto mas aquela imagem com a comparação do FF com APS no crop factor não faz muito sentido ser comparada com a mesma distância focal ( 17mm), existe lentes Ultras grandes angulares de muito boa qualidade para APS ( Canon 10-22 Nikon 12-24 ) que captam o mesmo ângulo de imagem. Agora com o surgimento de corpos da ultima geração (como a Canon 7D e a Nikon D7000) a diferença entre formatos é e irá ser cada vez menor e se tivermos a falar de fotografia de paisagem o dof criado pelo APS até é preferível que numa FF…

    Abç!

  • Caro Alexandre, tem toda a razão no que refere. Tive o cuidado no artigo de não cometer o erro frequente de dizer que as lentes no formato APS-C se “transformam” em algo diferente, com uma amplitude focal mais limitada, o que realmente não corresponde à verdade. É apenas o EFOV que sofre alterações. É óbvio que as limitações das lentes mantêm-se no formato APS-C, embora devido ao descarte da secção junto às margens essas limitações sejam de certa forma atenuadas. Obrigado pelo complemento. É esta a vantagem do mundo online, onde há sempre lugar à discussão e ao complemento da informação. :) Obrigado.

  • Só uma coisa: até onde já li, uma 17mm não "transforma-se" numa 7,2mm com um sensor APS-C de fator de corte 1.6… ela apenas capta, como bem disse no texto, um quadro menor de toda a área que a objetiva é capaz de captar.

    Ou seja, as distorções mantêm-se, embora, creio eu, num sensor cropado elas sejam menos evidentes, pelas bordas da área "captável" pela objetiva terem sido cortadas. Em suma, senti falta apenas desse pequeno detalhe no texto. Acho que deve ter sido opção sua colocar isso mais adiante, não sei, mas fica aí o lembrete (ou sugestão, se preferir ;P).

  • Caro Pete, antes de mais, obrigado pelas palavras. As fotos foram tiradas nos seguintes locais: Praia da Calheta, Porto Santo (por do sol); Praia do Camilo, Lagos (por do sol); Nave de Santo António, Serra da Estrela (nascer do sol).

  • Muito bom texto de entrada Luis. Fico a aguardar os restantes acerca do tema "paisagem natural". É o meu tema de eleição e é a ele que dedico o tempo dispendido com a fotografia. Uma das coisa que nunca tinha encontrado tão bem espelhada era a questão do formato. Eu uso o sistema APS-C e denoto algumas limitações na maior parte das fotos que faço, mas neste momento é o possível. É bom ver fotógrafos, com sucesso, ligados a este tema, pois é um dos temas que é muito desprezado em Portugal, pois a maior parte das pessoas nem sabe, nem sonha o que nós fazemos para captarmos a maior parte das fotos que fazemos (eu ainda no fim-de-semana passado estava de guarda-chuva aberto a montar o tripé, a colocar filtros e a tirar umas fotos numa ribeira :-)). Continuação de boas fotos.

    Off-topic: A 2ª foto foi tirada onde e aque horas? Parece uma paisagem lunar :P.