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Tempos e TIPA mudam, Canon e Nikon ficam 4.91/5 (11)

Para quem não sabe, a TIPA World Awards é uma premiação da Technical Image Press Association, ela reúne as publicações de 30 veículos de informação sobre tecnologia da imagem. Diria que ela divide com a EISA (European Imaging and Sound Association) o protagonismo na avaliação dos lançamentos, através da premiação anual das marcas e modelos de equipamentos fotográficos.

Essas premiações não ocorrem ao mesmo tempo e as categorias não são exatamente as mesmas. Mesmo assim, algumas divergências são surpreendentes. Digo isso, principalmente considerando o pouco volume de lançamentos que o mundo da fotografia dedicada tem recebido – sinal de uma consolidação da tecnologia digital, do teto tecnológico que nos encontramos e da franca decadência do mercado. Algumas escolhas são unanimes, a Sony A9 é um bom exemplo disso.

Contudo, fui convidado a anunciar e comentar os resultados especificamente da Canon e da Nikon. As duas protagonistas nessas premiações durante anos. Mas os tempos mudaram, a Nikon vem de uma crise financeira que a obrigou reformular toda sua estratégia e retrair sua estrutura. Do outro lado temos uma Canon concentrada em câmeras de entrada. É o mercado que a mantêm, apesar dela própria admitir que está devendo em inovação. Nem todos os prêmios são contestáveis, mas como vou demonstrar, nenhuma tem razão para comemorar.

 

Canon EOS 200D

 

O modelo EOS 200D ou SL2, ganhou o prêmio de melhor DSLR entusiasta. Ela é uma das menores DSLR disponíveis, isso demonstra a intenção da Canon em atingir o público de entrada. No sistema DSLR não é possível diminuir o corpo da câmera muito mais que isso. O sensor que ela oferece é o mesmo de praticamente todos os outros modelos da marca, incluindo as Mirrorless. Esse CMOS com dual-pixels foi lançado pela primeira vez em 2015, na linha T6. Surpreendentemente, ele também está instalado em câmeras muito mais avançadas, como a EOS 80D, então isso é um ponto positivo para a SL2.

Obviamente, com exceção do sensor, não podemos comparar a SL2 com a 80D, mas se você quer uma câmera de até 600 dólares e faz questão de que ela seja uma DSLR, a SL2 é sua câmera. Então ela mereceu o prêmio? Bom, nenhuma outra câmera DSLR para o público de entrada foi lançada por outro fabricante entre 2017 e 2018. Então, se alguém tem que ganhar um prêmio, só pode ser ela. As rivais históricas nessa categoria não compareceram ao ringue. A reformulação da Nikon concentrou todos os esforços nos modelos de topo – falarei mais disso daqui a pouco – a Pentax também está bem modesta no número de lançamentos e a Olympus, a anos já não produz mais DSLR. Ou seja, simplesmente não sobrou ninguém mais nessa categoria e isso não deve mudar muito nos próximos anos.

Canon EOS 6D Mark II

A versão II da fullframe de entrada da Canon trouxe melhorias consideráveis em alguns aspectos, como a velocidade e o autofoco. Mas ainda peca na qualidade da imagem oferecida pelo sensor da Canon, um problema generalizado com o Dynamic Range. Muitos fotógrafos migraram da Canon em função disso, mas ela ainda vende bem pelo seu custo e pela relutância que alguns fotógrafos têm em trocar de marca. Ela ganhou o prêmio de melhor DSLR fullframe para experts (entenda esse expert como o público de entrada das fullframe). Foi merecido? Neste meio tempo, nenhuma outra marca lançou DSLR fullframe para esse público, então temos outro “wo”.

Nesta briga, poderíamos incluir, pela faixa de preço de lançamento, a Pentax K1 MKII. Entretanto, ela é a topo de linha da Pentax e, apesar do preço, não pode ser enquadrada na categoria “expert”. O preço de lançamento de ambas é praticamente o mesmo. Contudo, a Pentax é muito superior se você considerar somente o que a câmera entrega, ou seja, excluindo o gosto pessoal por determinada marca, as lentes e acessórios do sistema, etc. E a Nikon dessa categoria, D610, é de 2013 ( – Sim, dá pra acreditar?). Mais uma vez, considero que a falta de concorrentes seja indício de que essa categoria brevemente deixará de existir, basta que a Canon pare de ter lucro com ela.

Canon EOS M50

Até agora, nenhuma surpresa, mas a M50 ter ganhado a melhor Mirrorless entusiasta foi um choque. Você pode pensar, mas ela filma em 4k, nenhuma outra Canon faz isso por menos de 2 mil dólares. Mas devo alertar que esse 4k da M50, não usa o Dual-Pixel como sistema de foco e isso é o que a Canon tem de melhor a oferecer no seu portfólio para filmagem. Também é importante considerar que todas as suas concorrentes filmam em 4k sem maiores restrições. O preço de lançamento da M50 é de cerca de 800 dólares, somente o corpo, nessa mesma faixa temos: Panasonic Lumix DC-GX9, Fujifilm X-E3 e Fujifilm X-T20. Neste ponto, estou com a EISA que deu o prêmio equivalente a Fujifilm X-T20.

O movimento da Canon na direção da Mirrorless ainda é tímido demais para merecer o prêmio. Ela precisa se esforçar mais para alcançar as concorrentes. Mas definitivamente, se você faz questão de ter uma Mirrorless da Canon, a M50 é a melhor opção. Ela é o paralelo sem espelho da Canon 80D, uma câmera considerada de médio a avançada dentro da linha Canon DSLR.

Canon PowerShot G1X Mark III

Melhor profissional compacta, este é o título da G1X MK III. Desta vez tenho que concordar. Não acho que ela seja uma grande opção por causa do seu preço (cerca de 1 mil dólares), mas nessa categoria os demais lançamentos foram poucos e fracos. Posso apontar a Panasonic Lumix DC-TZ200, de 800 dólares e a Fujifilm X100F, de 1.300 dólares. Mas nenhuma se encaixa tão bem a categoria quanto a G1X, a Panasonic é básica demais e a Fujifilm tem lente fixa e o visor híbrido – o que a coloca como um modelo de nicho.

A concorrente direta da Canon é a Sony Cyber-shot DSC-RX100 V, mas ela foi lançada em 2016, então não entra na briga do prêmio. Ela ainda é uma câmera a ser considerada, mas esta categoria é uma das mais fracas em vendas. A maior parte dos consumidores que tem 1 mil dólares para gastar em uma câmera, acaba indo para as Mirrorless pela possibilidade de trocar a lente e ter um sensor maior.

Canon Speedlite 470EX-AI

Este flash ganhou o prêmio geral de inovação. Ele oferece um controle automático de movimentos usado principalmente para rebater a luz, isso é realmente surpreendente. Ninguém esperava por algo assim, portanto atende o quesito inovação. Ainda é cedo para qualificar na prática a vantagem desse sistema, ele é muito recente e a aplicação é um tanto restrita. Mas ele deve facilitar a vida de fotógrafos iniciantes e profissionais que precisam registrar com rapidez os eventos.

Canon EF 85mm f/1.4L IS USM

A Canon estava devendo a anos uma lente como essa. Ela já oferecia a 85mm f/1.8, que é um ótimo custo benefício e a 85mm f/1.2 que é um mostro, mas o meio termo tão desejado demorou a chegar. Demorou, mas veio com boas características: estabilização de imagem, 9 lâminas no diafragma e elemento asférico moldado. Infelizmente, o valor é bem alto, cerca de 1.600 dólares, quase o mesmo preço da versão f/1.2 e ~4 vezes mais que a f/1.8. Mesmo assim, uma grande aquisição para o portfólio de lentes da Canon e um justo prêmio de melhor lente fixa para DSLR.

Nikon D7500

Agora, vamos voltar nossa atenção para as vencedoras da Nikon. A primeira, levou a categoria melhor DSLR com sensor APS-C expert (esse expert, agora, significa o último degrau antes do topo). A D7500 é uma boa câmera? Sim, para sua categoria. Ela mereceu o prêmio? “Uhm”, novamente temos um “wo”. Nenhuma outra câmera de 17/18 se enquadra nos requisitos para concorrer nessa categoria. A Canon gastou todas as fixas em câmeras DSLR de entrada, foram 5 modelos. Nenhum deles veio substituir a 80D que foi lançada em 2016 e é a concorrente na categoria da D7500.

Ela traz o mesmo sensor da topo de linha D500, mas é um pouco mais lenta e seu sistema de AF é mais simplificado. Mesmo assim, um excelente custo benefício se você procura uma DSLR robusta de até 1.200 dólares. É esperado para esse ano que a Canon revitalize suas linhas DSLR avançadas, mas para fins da premiação, a Nikon também leva essa por falta de concorrente.

Nikon D850

Esta é a melhor DSLR profissional atual, concordo com isso. Na sua reestruturação a Nikon avisou que iria concentrar esforços nessa área e fez um excelente trabalho nessa câmera. Ela é um pouco cara, cerca de 3.300 dólares, mas é realmente fantástica. Deixou as concorrentes da Canon comendo poeira. Mas não podia ser diferente, a linha 5DS R é do início de 2015. Então esse foi um prêmio muito merecido pela Nikon? Não, também não há concorrentes diretos nessa categoria. Ela é mais ampla, teoricamente poderia incluir a Pentax K1 MKII, mas o sistema de AF da Pentax não permite o enquadramento. Se a categoria fosse restrita as DSLR de alta resolução, a briga seria justa. Mas a K1 só é topo de linha dentro da própria marca e concorre com a Nikon D750 e a Canon 5D MKIV.

De qualquer forma, não há lançamentos de DSLR entre 2017 e 2018 considerados “profissionais” para concorrer com a D850. Não há dúvidas de que ela é a melhor DSLR atual, mas o que quero enfatizar é o mesmo que fiz com as demais categorias:  a opinião sobre a premiação e não analise do equipamento.

Nikon AF-S NIKKOR 180-400mm f/4E TC1.4FL ED VR

E, por fim, a Nikon também levou o prêmio de melhor lente profissional. É estranho como essa categoria tende a ser ganha por lentes tele. Pessoalmente, não vejo muita relação entre profissionalismo e distância focal, mas ok. Ela é uma lente bem interessante, tem um tele conversor de 1.4x embutido que pode transformá-la em uma 560mm, etc. Só que, custando mais de 12 mil dólares, não podia ser diferente. Talvez aí está o elo entre as tele e o “profissionalismo”: o preço astronômico delas e não a distância focal em si – “Você tem que ser rico ou profissional para ter uma dessas”.

A conclusão geral que eu chego é que existem mais categorias nessas premiações do que lançamento no mercado. Minha sugestão, tanto para a TIPA quanto para a EISA é fazer como nas olimpíadas – competições a cada 4 anos – ou cortar dois terços dessas categorias. Ser juiz de jogo com um jogador só é muito fácil, não é?

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Romulo Lubachesky

Romulo Lubachesky é geólogo e fotógrafo, mas dedica-se principalmente a perpetuar o conhecimento sobre os processos do universo fotográfico através de aulas, palestras, artigos e livros. Autor dos livros A Tríade da Câmera Fotográfica e Mirroless - A evolução das câmeras fotográficas. E apresentador dos programas Assunto Principal e Odisséia Fotográfica na photostv.com.


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