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E assim foi o Estúdio Brasil 2010

Entre os dias 6 e 11 de novembro deste ano aconteceu a terceira edição do Estúdio Brasil, um grande evento voltado à fotografia de estúdio em suas variadas possibilidades, de retratos a produtos, de animais a alimentos, tudo aquilo que possa envolver a fotografia em estúdio foi abrangida neste evento.

A primeira impressão do Estúdio Brasil é a melhor possível, desde a escolha do local, o Memorial da América Latina – um complexo arquitetônico espetacular de autoria de Oscar Niemeyer – passando pelos bons materiais impressos a respeito dos palestrantes, o fácil credenciamento e toda a organização geral muito bem feita.

Podemos dividir o evento em três áreas, os workshops que aconteceram nos excelentes estúdios BurtiHD, o congresso, que reuniu palestrantes no auditório principal do Memorial da América Latina e por fim o núcleo de tecnologia, com demonstrações práticas que aconteciam paralelamente às palestras principais.

Neste artigo irei me concentrar nas palestras do congresso, embora eu saiba que os eventos paralelos foram muito elogiados, especialmente as participações no núcleo de tecnologia dos fotógrafos Ayrton Camargo, mais conhecido como Ayrton360 e Newton Medeiros que mostrou diversas técnicas e truques de iluminação.

Divido a autoria deste artigo com a fotógrafa Emi Hoshi e com o também fotógrafo e amigo Ale Carnieri do Studio Gaea, eles me ajudaram muito pois não pude ficar o tempo todo nas palestras devido a compromissos em meu estúdio, assim sendo este é um artigo escrito a seis mãos.

O primeiro dia de palestras foi aberto por Aleksandar Srdic que explicou como é o trabalho em um editorial de moda, dando ênfase à pré-produção, os passos necessários, a importância de ter uma equipe competente em volta etc. Ele mostrou conhecimento mas pouca interatividade com o público. Deu dicas e informações sobre agências e campanhas, algo sobre direção e organização de um ensaio e também a composição de orçamento. Uma palestra correta, mas sem brilho.

O primeiro dia continuou com Thales Trigo, profissional com ampla experiência tanto na fotografia como na pesquisa e docência, o que garantiu um ritmo melhor e mais interessante à sua palestra.

Trigo iniciou falando sobre imagem digital: conceito, definição, termos matemáticos e tecnológicos, questões sobre contraste e impressão gráfica, histograma e outras dicas técnicas importantes. Entre slides de imagens, explicações e muito bom humor, Thales mostrou carisma e despertou curiosidade no público com equipamentos, histórias e fatos. Destaque para as câmeras de ponta como Hasselblad e Leica S2 que custa 70 mil reais e porta impressionantes 37 megapixels.

Este primeiro dia continuou com a presença do sempre carismático e brincalhão Cláudio Feijó, que comentou sobre a angústia como auxiliadora da criatividade, mostrando que o ser humano quando fica angustiado acaba por despertar seu lado criativo. A monotonia impede o crescimento de idéias na mente mas o sentimento angustiante faz com que a mente produza idéias criativas em busca de uma solução.

Feijó também mencionou que todo fotógrafo deveria usar um pouco de Gestalt para construção de novas e inovadoras fotografias. Foi uma das palestras que mais empolgaram o público.

O primeiro dia fechou com Tony Genérico, um dos grandes nomes da fotografia publicitária brasileira, bastante conhecido por suas fotografias de splash. Ele iniciou sua fala contanto sua história, sobre seu sobrenome e como usou isso a seu favor de forma divertida. Citou que “Para ser um bom profissional, seja disciplinado e consistente”, dando assim ênfase ao fato de que um bom profissional de fotografia é mais do que ter um bom olho ou uma boa câmera, é preciso dedicação e estudo.

De forma interessante e criativa Tony falou e mostrou alguns de seus “segredos” para uma fotografia perfeita de still e logicamente como fazer o splash. Foi uma aula de conhecimento e experiência.

É chegado o segundo dia, provavelmente o mais esperado do evento devido à presença de palestrantes internacionais de peso.

O dia começou com a palestra do advogado, fotógrafo e por que não dizer, um grande amigo, José Roberto Comodo. Sou suspeito para falar de uma palestra do Comodo, conheço de longa data seu enorme conhecimento sobre o direito aplicado à fotografia, bem como sua dedicação à fotografia tanto atrás da câmera quanto nas salas de aula da Riguardare, escola de fotografia que ele fundou.

O fato é que a palestra foi realmente excelente, desde o início mais emotivo no qual lembrou os graves problemas de saúde que o mantiveram internado por dois meses, passando por exemplos de diversos casos jurídicos de fotógrafos contra empresas, bem como empresas contra fotógrafos.

Muito da lei brasileira de proteção a autoria de imagens foi esclarecida sempre com exemplos práticos. Muitas dúvidas do público foram esclarecidas e com certeza todos saíram de lá muito mais conscientes sobre seus direitos e deveres enquanto profissionais de imagem.

Ao final da palestra Comodo fez com que todos os presentes ficassem em pé e se dessem as mãos, explicando que a fotografia só será respeita quando todos ali presentes pudessem olhar um ao outro como colegas e não como inimigos, um dos momentos mais belos de todo o evento, só batido pelo minuto seguinte, no qual dezenas de amigos e associados da Fototech subiram ao palco para um grande abraço coletivo de boas vindas para o amigo que retornava à ativa depois de tanto tempo internado.

Depois da emocionante e explicativa palestra do Comodo, veio o primeiro nome internacional, Mary Duprie, que abordaria o tema da fotografia de modelos.

Simpática e com um jeito descontraído, deu dicas válidas sobre como a modelo deve se comportar em relação ao seu corpo, como direcionar movimentos suaves de rosto, ombro e quadril. Deu também dicas sobre o posicionamento da modelo para que a mesma não se sinta perdida no meio do fundo infinito, demonstrou o uso de um biombo para ajudar a modelo a se apoiar e posar com segurança.

Um dos problemas da palestra, algo que foi criticado por muita gente com quem conversei foi o fato dela ter uma modelo no palco quase o tempo todo, mas era a própria Mary que demonstrava os movimentos e poses, ao invés de direcionar a modelo, que era o tema da palestra. A presença da modelo ali chegou a ser desnecessária, ela ficou em pé boa parte do tempo sem atuar. Foi uma boa palestra, mas poderia ter sido muito melhor.

O terceiro nome do dia foi Blake Discher que versou sobre técnicas para melhorar o rendimento e desempenho de sites em mecanismos de buscas. A prática conhecida como SEO – Search Engine Optimisation – foi abordada ao longo da palestra, passando desde a recomendação para que fotógrafos não utilizem sites feitos em flash chegando até a dicas de linguagem HTML para a melhor adequação dos sites.

Parte do que foi prometido para a palestra de Blake não foi cumprida, ele pouco falou sobre Facebook e Twitter, e concentrou-se no Google, provavelmente por que os presentes fizeram muitas perguntas e não deixaram tempo para que ele detalhasse os sites de relacionamento.

Algumas informações prestadas eram mais pertinentes ao mercado americano do que ao brasileiro, como a de que pessoas físicas fazem sua procura por profissionais no Google e pessoas jurídicas procuram no Yahoo. No Brasil o Yahoo tem bem menos presença e é menos relevante nas buscas. Foi uma palestra técnica, bem feita e bem apresentada.

Por fim a noite terminou com a palestra de Michael Grecco, um dos maiores nomes mundiais da fotografia de retratos e com certeza o maior nome dentre os fotógrafos que palestraram no Estúdio Brasil.

Ele mostrou seu trabalho desde o início no fotojornalismo, sua mudança para retratos – tanto de famosos (celebridades) quanto de pessoas anônimas na rua. Michael procurou mostrar que mais importante do que ter uma celebridade retratada, o fundamental é o conceito da imagem, uma grande fotografia será assim mesmo que o retratado seja desconhecido, e ao vermos o portfolio do fotógrafo podemos concluir que ele tem toda a razão.

Michael mostrou alguns vídeos com fotos de making of, de como e onde suas fotos foram feitas, intercalando com imagens de seu portfolio e a explicação do conceito por trás das imagens.

Antes de partir para a prática ao vivo ele comentou sobre seu último trabalho que foi de fotografar atores, personagens de filmes pornôs e alguns objetos. O que resultou num livro sobre o mundo da pornografia. O interessante foi que ele sempre buscou retratar esse mundo sem ser pornográfico, buscando tanto humor quanto sensualidade, mas sem abusar, mostrando que seja lá qual for o tema da fotografia, é possível ter um resultado com classe e uma estética altamente trabalhada sem baixar o nível.

Na prática ao vivo, Michael mostrou a diferença de iluminação usando flash com softbox e o grande efeito estético e dramático obtido ao trabalhar com a fonte de luz bem próxima à pessoa retratada, gerando contrastes interessantes e uma grande queda de luz para o fundo, deixando-o escuro. Após a palestra Michael Grecco autografou seus livros para quem queria no saguão do memorial, e seguiu-se um happy hour para os presentes.

Chegamos ao último dia do evento, aberto pelo fotógrafo de culinária Mauro Holanda, que mostrou-se sempre muito simpático e amplo conhecedor do tema.

Um dos pontos interessantes foi a desmistificação do trabalho, Mauro buscou mostrar que o fotógrafo não vai a um restaurante para comer ou ficar ali o dia todo fotografando com calma, muito pelo contrário, em geral ele tem entre 30 e 40 minutos para chegar, fotografar o que tiver que ser feito e ir embora com um trabalho de qualidade produzido, com muito trabalho, muita atenção e nenhum glamour.

Poucos palestrantes mostraram de forma tão realista como é o dia a dia de um fotógrafo profissional como Mauro Holanda fez, e por isso ele está de parabéns.

Após mostrar e comentar algumas imagens de seu portfolio, inclusive com imagens que poderiam não estar perfeitas, ideais, mas que eram o melhor que foi possível dadas as condições de cada cliente, ele partiu para uma bela prática ao vivo, demonstrando que mesmo um simples prato feito rapidamente poderia gerar uma excelente fotografia.

Mauro salientou a importância de um profissional de produção de alimentos e objetos, mas que nem sempre o cliente tem verba para pagar esse profissional, destacou então que o fotógrafo tem que ter conhecimento suficiente para resolver tudo sozinho nestes casos, e que seja capaz de executar um trabalho de alta qualidade mesmo que sem equipe de apoio.

Fechou a palestra com esta excelente frase: “A Fotografia é pensar: assim o trabalho é mais rápido, mais fácil e mais criativo.

O dia seguiu com Johnny Duarte e sua fotografia de animais de estimação, um evento bastante esperado por ser um tema diferenciado. O palestrante começou sua apresentação falando sobre o mercado, a realidade da economia e sociedade atual, o animal de estimação tem seu lugar como parte integrante da família e pelas pesquisas 50% das pessoas levam seus pets regularmente a pet shops, assim a oportunidade de conseguir trabalhos é através de abrigos de animais e em pet shops.

Ele citou que a prática constante permite prever reações dos animais e para isso é necessário preparar o set com antecedência. Durante a prática ao vivo ele teve a ajuda de adestradores para a direção dos modelos caninos. Dois modelos surpresa foram um pequeno falcão e uma coruja que roubou a cena voando para o teto do auditório e ficando lá até o término do tempo da palestra.

O dia continuou com a palestra dos irmãos Isa e Joel Reichert, que trataram do que chamam de book diferenciado, uma fotografia que tenta sair do lugar comum. Os irmãos apresentaram seu portfolio, comentando sobre a luz e outros detalhes pertinentes a cada imagem.

Foi uma palestra correta, e que teve como ponto alto o momento em que Joel solicitou que os presentes no público levantassem seus celulares criando assim um bonito fundo para uma fotografia. Foram bastante aplaudidos ao final.

A última palestrante do evento foi Fernanda Sá, que chegou com toda feminilidade, charme e simpatia, cativante do início ao fim.

Em sua apresentação explicou cada passo que gosta de seguir com seus clientes. Lembrando que cada uma tem seu estilo e assim cada trabalho acaba tendo uma personalidade própria. No palco, Fernanda mostrou segurança e simplicidade. Desde o momento da conversa com a cliente, a produção no dia das fotos, a desenvoltura em tirar o nervosismo da cliente, a criatividade, a forma de controlar o tempo e até o humor.

Ela deu dicas sobre a iluminação, roupas, fotos com a família entre outras formas de chegar a um resultado de qualidade. O público gostou muito e a Fernanda interagiu bastante com a platéia. Foi uma palestra completa e interessante.

A organização e produção da equipe do Estúdio Brasil foi impecável e com certeza merecem os parabéns pelo sucesso alcançado.

De forma geral o Estúdio Brasil 2010 foi um excelente evento, com muitos pontos altos e poucos aspectos negativos, fica agora a espera para a quarta edição do evento em 2011. Nos veremos por lá.

As fotos que ilustraram este artigo são de Ale Carnieri e a Equipe Studio Gaea (@luaith, @dariosampaio e @alecarnieri).

[]’s
Armando Vernaglia Jr

www.vernaglia.com.br
armandovernaglia.wordpress.com
@VernagliaJr

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Gosta de algum dos artigos abaixo?

  • O Estúdio Brasil foi um sucesso!

    Acho que todos já esperam o próximo esvento, a fotografia brasileira vem evoluindos com eventos assim.

    Abraço.

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