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O tamanduá de Marcio Cabral e a síndrome do Picolino

Qual é a fotografia de vida selvagem que seria a mais fantástica da história da humanidade? Essa é uma brincadeira que faço com meus alunos de fotografia de natureza quando falo de montagens – minha resposta é: Um urso polar comendo um pinguim! E o que tem de mais nisso? Ora, para os muito perdidos em biologia e geografia, ursos polares vivem no polo norte e os pinguins no polo sul, ou seja, isso é naturalmente impossível.

Mas ambos vivem em ambiente visualmente idêntico, tanto é que existe um desenho animado das antigas onde um pinguim – Picolino – é o melhor amigo de um urso polar – Maxie. Seria muito fácil fazer essa montagem, pegar a foto de um urso polar e colar nela um pinguim correndo dele. Mas qual a utilidade disso, já que a coisa não acontece assim? Esse é o exemplo tipo do que chamo de síndrome do Picolino.

Montagens fotográficas podem ser criações mágicas, adoro o surrealismo que algumas delas proporcionam. Isso é aceito e tem sua utilidade em lugares próprios, como na arte, mas a ideia dela não é enganar o público e sim maravilhar. As montagens feitas para enganar o público aceitas normalmente estão na publicidade. Mas no jornalismo ou na ciência isso é condenável, não agrega nada a base dessas áreas que é a informação e o conhecimento.

Um dos nossos fotógrafos de natureza mais importantes acaba de ser desqualificado do concurso de fotografia selvagem de 2017, administrado pelo Museu de História Natural de Londres. Ele havia ganhado o prêmio de melhor foto para categoria “Animais em Seus Ambientes”. Mas suspeitas foram levantadas quanto a autenticidade da presença do tamanduá na cena real.

Legenda: A foto em questão é esta. Um tamanduá vem justamente se alimentar no cupinzeiro onde o fotografo estava preparado para fazer uma longa exposição dos besouros luminescentes que ali estavam.

Legenda: A acusação alega que a foto é uma montagem da imagem do tamanduá empalhado que fica no centro de visitantes da reserva.

Marcio Cabral alega inocência e diz que o tamanduá fugiu logo após o disparo do flash e por isso não tem outras fotos do bicho. Ele ainda forneceu o arquivo RAW original como prova da ausência da montagem digital. Mas isso não bastou, uma junta de especialistas consultados pela organização do concurso o desclassificou. O barulho na internet foi instantâneo, um lado defende outro acusa, mas poucos se atentam a algumas questões técnicas que podem ter sido cruciais para a equipe que condenou a foto.

Ponto número um

A improbabilidade da fotografia é o que fez dela a vencedora, mas também é uma das questões que torna difícil acreditar na sua autenticidade. Um tamanduá é um animal extremamente arisco, e de olfato excelente, ele jamais se aproximaria dessa forma do fotógrafo. Repare que a imagem foi tomada com uma lente angular, talvez uma 24mm. Considerando o tamanho do animal, ele deve estar a uns dois metros, no máximo, de Cabral. Segundo o relato de defesa do fotógrafo, o tamanduá chegou de surpresa, tanto é que não há outra fotografia dele. Se ele chegou de surpresa, não acredito que Cabral estivesse camuflado e totalmente em silêncio de tocaia. Então, a chance de o animal prosseguir e se colocar em risco dessa maneira é baixíssimo – beirando o impossível. A legenda da foto nomeada como “O Invasor Noturno” dizia que a aparição do tamanduá foi inesperada, um “bônus surpresa”.

Ponto número dois

O animal empalhado realmente tem todos os traços do que aparece na fotografia – cor e pose – mas os pelos parecem concordar com o ambiente, interagindo com a vegetação. Isso seria muito difícil de fazer na edição e o arquivo RAW comprovaria a autenticidade. Não tive acesso as imagens originais, mas com o que vejo, descarto montagem digital. Entretanto, isso aponta para uma possibilidade ainda mais condenável. A impressão que tenho é que o tamanduá empalhado foi levado até o lugar. Ou seja, um plano maquiavélico minuciosamente elaborado para conseguir a fotografia que, naturalmente, o fotógrafo considerava impossível de conseguir.

Ponto número três

Segundo Cabral, o animal fugiu logo após o disparo do flash, feito em sincronismo lento durante 30 segundos de exposição. Digo-lhes com propriedade que isso não parece corresponder ao resultado da imagem, não sem algum tipo de edição de qualquer maneira. A foto a seguir é de minha autoria, nela uma modelo pousou durante uma longa exposição de 30 segundos, mas depois do disparo do flash ela saiu dali – estava muito frio, perto do zero grau e ela foi se aquecer, pois estava apenas com uma capa de tecido fino. Perceba no detalhe que ela ficou semitransparente ao fundo, pois a luz das estrelas e do céu continuou sendo captada e somou-se a luz do flash. O tamanduá alegadamente também saiu depois do flash, mas ele não parece translucido, ao contrário, parece totalmente nítido e congelado como se não tivesse de movido um milimetro. Não sou biólogo, mas esse só é o comportamento típico de tamanduás empalhados.

Legenda: Longa exposição de 30 segundos com flash de primeira cortina disparado na modelo. Depois do disparo a modelo saiu da posição e sua imagem tornou-se translúcida. A câmera usada foi uma Nikon D700 em ISO 3200, com uma lente 24mm em f/3.5.

Conclusão

É muito triste receber essa notícia e concordar com os fatos que apontam para a falsidade. Sou fã do trabalho do Márcio, mas o que ele fez é um desserviço à ciência e a fotografia de natureza. A fotografia de natureza, principalmente no Brasil é uma das áreas mais ingratas para seguir – ela é cara, trabalhosa e pouco reconhecida – leva-se anos para alcançar resultados. Isso é uma decepção generalizada com o trabalho do fotógrafo em si. Pergunto-me, o que mais é falso? Quantos Picolinos ainda estão por aí?

Vamos te mostrar os principais SEGREDOS PARA CRIAR ENSAIOS MARAVILHOSOS.
1º CONGRESSO NACIONAL FOTODG
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