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Por que fotografar mulheres?

- Última Atualização a: 08/03/2017

Eu amo fotografar. Entrei há pouco tempo neste mundo encantado, mas, como qualquer bom iniciante, já fotografei de (quase) tudo. Paisagens, casais, gestantes, crianças, famílias… Todos foram especiais e únicos. Mas foi quando eu fiz meu primeiro ensaio feminino que eu me descobri: “É isso que eu quero fazer!”. Aí você pergunta: “Mas, por quê?”.

Bom, vamos lá. Sou mulher. Quando criança, eu brincava muito de boneca, casinha, comidinha e afins. Mas eu babava mesmo nos carrinhos maneiros de controle-remoto do meu irmão! Cara, aquilo era muito legal! Mas não eram meus, afinal; o certo era eu gostar da minha Barbie de cabelos dourados, cintura de pilão e pele de pêssego. Na adolescência, assim como tantos outros adolescentes, eu engordei bastante durante a tal “fase de crescimento”. Sofria muita pressão externa e interna para emagrecer. Todos me diziam que eu estava gorda e feia, muitas vezes só com o olhar; adjetivos que o espelho fazia questão de enfatizar.

Fiz uma infinidade de dietas (sem nenhum resultado), passei por uma longa depressão, chorava praticamente todos os dias. Alguns anos depois, já na fase adulta – agora magra, de bem comigo mesma e feliz –, em certo momento, sem que eu houvesse perguntado, foram-me despejadas algumas “verdades”: “você precisa malhar, você tá gorda e flácida… vai pra academia!” (um detalhe: sou magra e pratico atividades físicas; mas, até pelo meu histórico da adolescência, meu corpo não é esculpido, minha pele não tem a firmeza de um atleta e, sim, tenho estrias e celulites.). Por acaso, essa mesmíssima pessoa estava acima do peso e não praticava nenhum exercício físico. A diferença: ele é um homem, e um homem não é obrigado.

Eu poderia fornecer mais argumentos, e continuar falando sobre as tantas mulheres que trabalham fora e, ao chegarem em casa, ainda são obrigadas a cuidar da limpeza, da comida, dos filhos e do marido, enquanto este descansa depois de um longo dia. Ou sobre o preconceito que as mulheres encontram no mercado de trabalho, desde a contratação até os cargos de gerência. Ou sobre os abusos que sofremos diariamente, seja nas festas, quando estamos vestidas “para matar”, seja em pleno dia útil de trabalho, quando estamos de calça jeans e camiseta. Ou sobre a pressão do mercado da moda, e da sociedade como um todo, de estarmos sempre belas, bem cuidadas, maquiadas, magras e saudáveis. Ou sobre tantos outros e inúmeros assuntos…

Não, não é fácil ser mulher. E sim, é exatamente por isso que eu quero fotografá-la. Quero mostrar que sua beleza não está naquilo que as revistas dizem ou no que os outros pensam; quero mostrar que seus quilinhos a mais ou a menos são absolutamente insignificantes; quero provar que elas são lindas e perfeitas do jeitinho que são. Cada uma com sua personalidade, sua história, seus pesares e suas vitórias; cada uma com um brilho diferente no olhar, um encanto único e singular. Quero que elas enxerguem sua força, sua luz, sua coragem; quero que elas busquem incansavelmente por sua liberdade.

Quando eu fotografo uma mulher, não o faço para que ela ache as fotos bonitas simplesmente. Isso é apenas consequência. O que eu busco, na verdade, é que ela se reconheça naquelas imagens e se afirme com sua beleza. Que ela celebre o momento que está vivendo, seja para recordar as boas lembranças, seja para marcar uma mudança de fase. Que ela se liberte de suas amarras, que ela se sinta livre e independente, que ela se sinta capaz do que quiser. Meu objetivo, de verdade, é proporcionar um encontro dela com ela mesma.

Obviamente, tudo isso que eu proponho não é uma tarefa fácil. É minha obrigação estudar, vivenciar, experimentar, aprender incessantemente para um dia, quem sabe, atingir meu objetivo. Mas de uma coisa eu tenho certeza: chegando lá ou não, terei conhecido histórias incríveis e mulheres sensacionais. Só por isso, já terá valido a pena.

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Débora Bossois

Sou formada em Ciência da Computação, com mestrado e tudo. Mas foi só pouco tempo atrás, com a fotografia, que eu descobri um outro lado de mim, mais generoso, mais atencioso, mais humano. E foi através dela que eu conheci pessoas e histórias incríveis. Muito mais do que me aprimorar nessa arte, meu objetivo primordial continua sendo este: conhecer pessoas e histórias incríveis.

19 Comentários

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  • Adorei o texto, Débora. A história e a sensibilidade das palavras. Infelizmente o grande mal da sociedade seja a imposição de padrões que causam tantos problemas com as pessoas. Estou estudando fotografia faz alguns meses e estou me apaixonando cada dia. Ainda não sou profissional, mas tenho me interessado muito em retratos. É um modo especial de enxergar a personalidade e a alma das pessoas. Continue escrevendo. Estou lendo todos os novos artigos do site.

    • Muito obrigada, Diego! A fotografia, principalmente quando lida com seres humanos de uma forma tão íntima e intensa, é realmente fascinante, né? :) Sucesso pra vc! Abraço!

  • Débora, parabéns pelo artigo! Também sou Cientista da Computação e, há alguns anos, descobri a fotografia e, desde então, tenho migrado paulatinamente para ela. Adoro fotografar mulheres e o motivo é exatamente o mesmo que o seu… mostrar a verdadeira beleza de vocês mulheres e, de alguma forma, ajudar a libertá-las desses esteriótipos e dessa “prisão de padrões e valores” impostos pela sociedade (o que faz com que a maioria de vocês não consiga ser feliz de fato consigo mesma). Parabéns mais uma vez e um grande abraço.

    • Obrigada, Pedro! Verdade, esses “padrões” que nos são impostos atrapalham MUITO nossa autoestima, infelizmente… Parabéns pra vc tb que também trabalha pra desfazer esses esteriótipos! Abraço!

  • Débora, a sua sensibilidade e a sua dedicação em retratar a verdadeira beleza da mulher são fascinantes!!! Obrigada pelo bem que as suas fotos fazem para nós mulheres!!!

  • Parabéns pelo investimento, não é tarefa fácil desfazer esteriótipos de beleza, principalmente feminina.Sucesso!!!

  • Muito emocionante ver a rápida evolução das suas fotos, além do seu envolvimento e amor em mostrar o verdadeiro brilho de nós mulheres.

    Parabéns!

  • Tive a felicidade de ser fotografada pela Débora, e como bônus, junto da minha bebê, amamentando. Uma sensibilidade maravilhosa, um olhar lindo. Um texto foda!

  • DÉBORA, A GENTE SÓ É FELIZ QUANDO FAZ O QUE GOSTA. EU SOU REPÓRTER FOTOGRÁFICO DESDE 78. DESDE ENTÃO SÓ TENHO FOTOGRAFADO ENCRENCA, MAS É O QUE GOSTO DE FAZER…!!!!!!!!!!!!!!!! ABRAÇO

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