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Como explicar porque você não envia suas fotos cruas 4.74/5 (57)

Pensamentos de um fotógrafo sobre a importância do processo de edição e o valor de um fotógrafo profissional

por Caleb Kerr, via Medium

Todo fotógrafo já ouviu/leu essa pergunta após um ensaio bem-sucedido: “As fotos parecem ótimas, mas posso ter as restantes, só para o caso de eu precisar delas depois? Não precisa editá-las nem nada.”

Se você está aqui pela resposta curta, a resposta é não, mas é importante para mim que as pessoas saibam o porquê. Ao longo desse post você verá fotos lado a lado comparando a versão completamente sem tratamento junto à versão com o tratamento final. Com uma avançada artimanha psicológica ao final do artigo, você vai perceber que você não queria mesmo minhas fotos não tratadas.

Não digo não a esse pedido por ser guloso ou por querer dizer não apenas por poder dizê-lo. Não é por eu ser preguiçoso e não saiba lidar com isso. Mas tenha certeza, não estou retendo aquela foto matadora.

© Caleb Kerr
© Caleb Kerr
“Então qual o problema?”

Essa é minha tentativa em explicar sucintamente porque não é tão simples.

Um adendo: O que abordo aqui aplica-se predominantemente a projetos em que o fotógrafo está diretamente em contato com o cliente final, e possivelmente com exceção de trabalhos com uma agência de criação.

A razão disso importar é porque numa situação em que o fotógrafo é contratado por uma agência para uma sessão eles estão num trabalho ligeiramente diferente, mais orientado pela equipe, para entregar um produto finalizado ao cliente da agência. Existem outros criativos (diretores de criação, designers etc) envolvidos captando as necessidades do cliente deles, e podem necessitar de mais envolvimento prático. Eles tiveram todas reuniões sobre metas e visão, e o fotógrafo está auxiliando a equipe a executar.

© Caleb Kerr
© Caleb Kerr

Essas fotos são feitas para serem tratadas. Sério.

Você talvez já esteja familiarizado com os termos RAW e JPEG: são tipos de arquivo de imagem. A maior parte da revisão que fiz nesse post foi para deixar esta seção bem mais curta e menos técnica sobre as propriedades e benefícios das imagens em RAW, mas fica pra outro dia. [nota: aqui no Fotografia DG temos esta série (+ ebook) RAW vs. JPEG]

O básico disso é que JPEGs são o que você sobe no Facebook, no Instagram ou imprime. Os arquivos RAW (que são o que saem direto de minha câmera) contêm muito mais informação, incluindo uma quantidade maior de cor e detalhes de texturas nas sombras e altas-luzes, e programas como o Photoshop, o Lightroom e o iPhoto são necessários até mesmo para abri-los. Se eu enviá-los do jeito que saem da câmera você não poderá fazer nada com eles sem rodá-los num programa especial.

Todo fotógrafo profissional clica em RAW porque ter toda essa informação é melhor do que ter menos (como ocorre em um JPEG). A pegadinha: fotos RAW que vêm direto da câmera geralmente parecem abaixo de suas pares. Elas são monótonas, com contraste ruim e cores embotadas. Até que a foto seja tratada, ela não está concluída, e isso é de propósito. Uma foto RAW é um carpinteiro que tem à mão uma fábrica cheia de ferramentas e materiais para produzir uma mesa, e a habilidade de criar o que ele quiser. Um JPEG é comprar uma mesa numa loja: você pode gostar disso, ou não, mas não há o que se possa fazer sobre isso.

© Caleb Kerr
© Caleb Kerr

Meu tratamento é parte de meu processo, meu produto e meu estilo. É parte do porque você me contratou.

A maneira como eu edito é um componente crucial de minha fotografia. Meu estilo e perícia como fotógrafo engloba outras coisas como enquadrar, acertar o momento e toda uma gama de habilidades, mas a foto não é o produto finalizado que tenho orgulho de marcar meu nome em cima até que eu termine o tratamento. Se você está servindo um jantar de ação de graças você não tira o peru do forno no meio do processo de assá-lo e o serve!

As imagens tratadas e exibidas aqui são o que quero que me representem. Esse é o tipo de trabalho que está em meu site, e é o nível de qualidade que desejo que os clientes esperem. Abaixo estão vários outros exemplos numa comparação lado a lado de um RAW intacto e meu tratamento finalizado.

© Caleb Kerr
© Caleb Kerr

Tenho selecionado fotos desde que comprei minha primeira câmera, e fiquei muito bom nisso!

Adendo: Tem ocorrido certa confusão acerca de um aspecto muito importante desta parte. Essa parte do contrato pode variar em algum grau dependendo do tipo de sessão fotográfica (um casamento para seu vizinho é diferente de uma sessão para a Ogilvy & Mather). Às vezes equipes de departamentos criativos necessitam de arquivos RAW. Compreendo isso e é fácil de lidar, de acordo com um relacionamento de natureza clara desde os primórdios. Não quero dizer que não há necessidade de contribuições durante o processo de seleção de imagens. Minha meta é entregar o que o cliente precisa, com o visual que necessitam. Seja uma pós-produção mais estilizada ou simples, não irei nunca pós-produzir mais do que o cliente me pede. Eles estão envolvidos no visual e na sensação desde o começo, assim como na seleção das imagens finais. Não estou praticando uma licença dramaticamente artística sem qualquer permissão ou pedido. A maior parte disso é mostrado durante as reuniões antes da sessão. Conversamos sobre se querem uma sensação de luz etérea ou uma sombria e recortada. Todos esses elementos visuais e estilos que você vê nas fotos são levados em consideração de acordo com o que eles necessitam, não apenas o que eu quero. Ao mesmo tempo em que eles estão me contratando por gostarem de meu trabalho, eu também estou tentando alcançar o que irá funcionar para a imagem da marca deles, na qual eles são especialistas. Seria antiprofissional ir numa direção diferente da que prometi, e pela qual eles tinham expectativas. Qualquer um dos exemplos mostrados aqui não poderia ser passado para qualquer cliente e dito que gostariam daquilo sem qualquer indicação de tudo que se passou no processo. Agora voltemos ao texto…

© Caleb Kerr
© Caleb Kerr

Essas fotos que você nunca vê são as outtakes, os cliques borrados, as duplicadas (céus, quantas duplicadas!). Para qualquer foto entregue que você vê, existem outras dúzias ou centenas que são ligeiras variações dela que são todas um pouquinho menos boa. Olhos fechados, cabelo no rosto, talvez um cão correndo na frente da câmera (isso realmente ocorreu, e bastante). Investi meu tempo selecionando entre todas elas, fazendo comparações lado a lado até chegar na melhor delas.

Não terei nunca duas fotos diferentes igualmente ótimas e sempre entregarei apenas uma delas. O processo de seleção é para cortar os excessos, expondo o coração da sessão, daí eu posso entregar-lhe o que você precisa: qualidade, fotos profissionais.

Ao fim do dia, você precisa de imagens de qualidade profissional, e minha tarefa é fornecê-las. Por “qualidade profissional” diga-se fotos que encaixem-se perfeitamente no espírito da sessão, e isso inclui com frequência fotos que parecem outtakes — rindo entre poses, uma relaxada casual, fazendo uma careta. Qualidade profissional não significa sem temperamento ou nenhuma diversão.

Como você vai confiar que escolho as melhores fotos e não pulo ouras ainda melhores? Tenha em conta as centenas de horas que gastei olhando minhas fotos e prestando atenção no que as torna boas ou não. Minha habilidade de escolher as melhores para o trabalho é um aspecto que faz parte do porque sou contratado. Entregar 10 mil fotos medíocres não é respeitoso com o tempo do destinatário, porque eles não devem fazer o trabalho de classificação por mim.

Não digo que nenhum trabalho precise de opinião do cliente, claro — apenas quero dizer que uma vez que as seleções são realizadas e tudo é aprovado, perguntar pelas restantes só pra ter certeza é desnecessário.

© Caleb Kerr
© Caleb Kerr

Já existe um contrato.

Há sempre um acordo sobre o plano de ação antes de seguir para uma sessão fotográfica, e parte do plano é a das expectativas em torno do número de fotos necessárias (às vezes uma quantidade específica; às vezes uma faixa, dependendo do projeto). É responsabilidade do fotógrafo ser claro quanto a isso. O fato é que o preço do fotógrafo leva em conta o número final de fotos a serem entregues, assim como a utilização/licenciamento e o investimento de tempo editando sob seu ponto de vista. Porque o conjunto todo das fotos não pode ser fácil ou rapidamente entregue significa que o fotógrafo vai demorar um tempo além do que vocês já estabeleceram.

Claro, coisas acontecem e às vezes mais fotos são necessárias por uma ou outra razão. Tome cuidado, que podem ocorrer pedidos de processamento para mais imagens, mas o mais simples a fazer é manter-se sempre comunicando ao longo do processo e as coisas vão fluir.

© Caleb Kerr
© Caleb Kerr

Aonde isso nos leva?

Minha esperança é a de ter alcançado alguns não-fotógrafos que nunca pensaram desta maneira sobre o assunto, e agora saberão para o futuro, ou que eu tenha alcançado um colega fotógrafo que pode usar alguma dessas ideias em suas próprias comunicações. É um tópico difícil! Ninguém quer desapontar outra pessoa, especialmente quando está sendo pago.

E comunique-se! Problemas em torno dessa questão geralmente são resolvidos com muita facilidade comunicando expectativas antes da sessão, durante a fase em que todos outros detalhes estão sendo trabalhados. Não quis dizer em nenhum momento que eu nunca repassaria a posse de um arquivo RAW. Se uma empresa me contrata para capturar imagens e pretende processá-las internamente para combinar com o estilo atual dela, vou procurar uma maneira de trabalhar com ela! Mas minha esperança aqui é que se você estiver lendo isto, e for alguém que vai contratar um fotógrafo no futuro — ei, talvez até eu mesmo! — você agora tenha uma compreensão mais profunda do ponto de vista do fotógrafo. E espero que saiba que não estamos dizendo não por sermos burros.

Busque um fotógrafo do qual aprecie o trabalho, em quem você confie, e confie em seu processo.

Caleb Kerr é um fotógrafo comercial baseado em Austin, Texas.
Siga seu trabalho no Instagram ou veja seu portfólio em seu website.

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Alexandre Maia

Clico, viajo, olho, analiso, converso, e repito — em qualquer ordem!

Também estou no blog da D&M Photo.

13 Comentários

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  • aí o “estilo” de edição do fotógrafo é sempre estourar a luz em um canto da foto e eu acho isso batidissimo datado e tosco mas não temos como refazer o evento pra recuperar as fotos… a maioria das pessoas acha que é artista, que aquilo é a SUA obra… e não percebe que fotógrafo é apenas um membro de uma equipe.
    Menos pfvr.

    • Se você percebeu um certo padrão nas fotos, então pode sim dizer que é um estilo, sem aspas. E certamente esse fotógrafo foi escolhido por tal estilo. Além do mais, a escolha por estilo é feita em especial por quem deseja/necessita de imagens de um evento, justamente pela impossibilidade de repetí-lo.

      Em outras palavras, você ignorou todo o processo de escolha e diálogo com o fotógrafo, ou pressupôs sabe-se lá de onde que este fotógrafo abriu mão desta fase do trabalho. Menos, por favor.

    • Tenho tanto problema para eliminar luz estourada indesejada que cheguei a achar, nas fotos com luz estourada, que essa era a foto original.

  • aquilo que eu li aqui so me desmontrou que quem escreveu o artigo, nao percebe nada de camera e muito menos do que é o verdadeiro Raw…em nenhum momento vi aqui descrito o que é o formato RAW nao sua essencia…deixo so a minha visao porque so criticar é facil…O formato Raw leva agregado todos os parametros ( recursos) tecnicos que a camera que o captou tem..se a camera for fraca ( com poucos recursos..o raw tb é fraco e viçe -versa…o problema é que a maioria dos fototografos “trata” os raw com recursos que esse raw nao tem e dai a luzes plastificadas…para terminar…sou profissional e 95% de meus trabalhos são em Jpg pelo simples facto que uso na hora os recursos da camera para o que desejo…e nao tiro ” o peru no meio do assado!!”…asso o peru ainda antes de clicar..o clik e somente o moento que desligo o “forno”..e como bom peru depois temos Que dar pequenos toques na mesa para o que “assamos fique ainda com bom aspecto”…
    e nao me ven
    ham com tretas que no analogico ja se fazia ” manipulação” de imagem!!!….e se vierem entao que digam exemplificando bem…quais essas ” manipulaçoes” que se faziam..detalhadamente ;)

    • Manuel, se reparar bem de forma alguma o autor “rebaixou” os arquivos RAWs, como parece que entendeu.

    • Cada um com sua realidade. Ou você é muito profissional, (fodão do caralho) ou é muitíssimo rápido, ou os dois, ou…. nunca se deparou em situação onde a luz muda a todo momento, onde tenham pessoas com vários tons de cor em suas roupas, onde os modelos estão se mexendo muito, etc, etc e etc…Se com tudo isso você realmente consegue fazer um EXCELENTE trabalho, PARABÉNS!!!
      Quanto a dizer sim ou não para os arquivos RAW, tem que estar em contrato. Se você fotógrafo não quer entregar o Raw, deixe isso bem claro no contrato, caso contrário, acho direito o contratante querer possuir os “negativos”. Como era antigamente.
      Fernando, quanto a querer “brincar” com as imagens, é quase que o mesmo sobre estar em contrato, ou no mínimo bem acordado. Caso contrário, depois da digitalização da fotografia, o fotógrafo realmente pode decidir sim entre entregar a foto tratada, apenas. Podendo ser impressa (revelada) ou o arquivo, que ele pode decidir como bem entender, mais uma vez, se não acordado anteriormente.

  • Concordo em parte. E se sou um entusiasta de Photoshop? Gosto de tratar e brincar com as RAWs? Não tenho direito de pedir? Isso não vai desvalorizar seu trabalho.

    • A resposta está no próprio texto, Fernando: você pode sim pedir, só deixe claro com o/a fotógrafo(a), para evitar depois criar demandas adicionais dele(a) que não estavam previstas nem discutidas, e assim evitar desgaste na relação.

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