fbpx

Como clicar gente nua sem ser profissional

Fotógrafo é desafiado a clicar pessoas aleatórias, estranhas e conhecidas, nuas e sem pagá-las. Eis o relato da experiência

por Alexander Chernykh,
via Bird in Flight

Buscando por modelos

Eu precisava encontrar pessoas que concordassem em despir-se em frente a uma câmera. Quando você escreve “Fotógrafo que busca por modelo livre de cachê” num campo de busca da Internet surgem quase um milhão de resultados. “Disposto a dividir aluguel de estúdio 50/50” — um fotógrafo oferece. Outro afirma que “uma modelo deve cobrir todas suas despesas”. Modelos, por outro lado, acham que não deveriam nunca pagar por qualquer coisa se já estão apresentando-se como objetos para a sessão. Ambos lados entram em grandes brigas de teclados em vários fóruns sobre essa questão, e os argumentos são ainda mais esquentados do que os dos fãs da Canon e da Nikon.

A condição principal deste experimento era que não ocorressem despesas envolvidas: sem aluguel de estúdio ou de equipamento, e modelos não fossem pagas(os). Tenho orçamento pequeno e não sou de forma alguma hábil utilizando equipamento de estúdio. Criei um anúncio bastante modesto, que depois postei em muitos fóruns online e grupos no VKontakte (uma versão russa do Facebook): “Olá! Um fotógrafo amador está buscando por modelos para nus, tanto masculinos quanto femininos. Posso fotografá-lo(a) em seu local, no meu ou qualquer lugar por aí afora. Fotos para portifólio público podem ser publicadas”. Para minha surpresa, eu até recebi algumas respostas. Três mulheres jovens e um homem mais velho pediram para ver amostras de meu trabalho. Entretanto, após informá-los que eu era apenas um iniciante eles educadamente recusaram.

Não tendo muita sorte dessa forma, decidi seguir para o Tinder: criei uma conta e postei minha única foto segurando uma câmera. Copiei minha oferta anterior para meu perfil e adicionei “Não interessado em sexo!” por precaução. Obtive inúmeros matches, mas não do que eu queria: chances de encontro eram muitas mas nenhuma queria ser fotografada. Minha foto obteve um monte de curtidas de pessoas que nem sequer importavam-se em ler o conteúdo de meu perfil. Aqueles que interessaram-se por minha oferta não apreciaram a ideia de terem suas fotos nuas possivelmente publicadas. Após uma semana nisso, cheguei à conclusão de que é bem mais fácil transar do que encontrar alguém para clicar nu.

Decidi seguir para o Tinder. Chances de encontro eram muitas mas nenhuma queria ser fotografada.

Então comecei a buscar modelos entre as pessoas que conheço. Uma amiga que é uma reconhecida especialista em ciência política de dia, e à noite uma dominatrix brutal com um chicote quase aceitou tirar a roupa, porém “estritamente sem rosto, tenho pessoas com quem trabalhar no futuro”. Não tentei esclarecer que grupo de clientes ela tinha em mente — a multidão diurna de seus visitantes noturnos? (Sempre pensei que aqueles caras inscreveram-se para ambos serviços)

Tenho grandes esperanças com minha ex, uma garota com quem tive um encontro há cinco anos. Ela era uma dançarina e tinha a silhueta mais saudável de todas que conheci: ela frequentou banhos públicos e praias nudistas. Eu tinha certeza que ela seria uma que diria sim pra minha oferta. 

“Desculpe, minha atitude quanto a nudez mudou”, essa disse. “Além do mais, agora tenho um marido ciumento”.

O tempo corrompe até o melhor de nós.

No meu local

Numa tarde mais adiante quando eu estava dirigindo do trabalho recebi uma mensagem de Lyuda e Alina — minhas duas velhas parceiras no Twitter. Eu tinha andado com minha câmera na mochila, sem rumo por um mês, então imediatamente me animei com a esperança de finalmente colocá-la em bom uso. As meninas me encontraram próximo a uma cafeteria: a sempre calma, tranquila e senhora de si Lyuda, que mudou-se para Moscou vindo da Buriátia (uma república russa localizada na Sibéria oriental) para estudar; e Alina Yershova, uma loira alegre com grandes seios, o melhor presente que uma pequena vila em algum lugar da região de Riazan tem a oferecer ao mundo.

Expliquei brevemente a elas no que consistia o experimento.

— Então, deixa eu sacar isso direitinho, você quer fotografar a gente pretendendo publicar, mas não tem ideia de como fazer isso? — Lyuda clareou.

— Você sabe, você é bem exigente para alguém que vive no meio do nada — coloquei. E ela se deu por vencida.

No apartamento dela havia uma mesa e uma cadeira de madeira, uma geladeira e um vaso preto, uma cama feita e muitos sacos abertos cheios de roupas. A cena toda estava emoldurada por um papel de parede brega e umas luminárias fraquinhas — não havia luz decente nem um bom fundo. O apartamento genérico não tinha traço da personalidade de Lyuda. Nem a da vizinha dela ou quem quer que tenha vivido ali antes. Essa morada sem sal me lembrou um showroom de uma fábrica de móveis provinciana na Bielorrússia. Bebemos vinho em canecas de café, olhando-nos fixamente em silêncio.

Hoje em dia é bem mais fácil transar do que encontrar alguém querendo ser fotografado sem roupa

— Então onde você planeja me clicar? — Alina perguntou.

— Algum lugar por aí — apontei numa direção incerta — talvez aqui junto a essa parede.

Alina encolheu os ombros, tirou suas roupas e nos apresentou com toda a saúde da fértil Terra Negra russa. De repente, começamos a cheirar a feno fresco e maçãs maduras. Senhora Yershova estava brilhando, satisfeita com seu efeito marcante ao mesmo tempo em que eu tentava ao máximo não secá-la demais. Estava totalmente incerto pra mim como encaixar essa criança dos campos, prados e jardins no interior de um apartamento abarrotado em Moscou do Sul.

Nós enrolamos Alina num cobertor vermelho e a colocamos contra a parede. Lyuda ficou em cima de uma cadeira, suspendendo e apontando uma luminária. Tentei clicar Alina com a intenção de destacar o quão interessante e linda ela era, mas não tinha ideia de como cumprir a tarefa. Então beleza, aqui está uma garota nua na minha frente — e agora? Devo pedir pra ela sorrir e abrir as pernas? Para cruzar os braços e daí seus seios parecerem ainda mais fartos? Confessei às meninas que sinceramente eu não estava muito certo do como fotografá-las.

— Não sinto meu corpo, de qualquer forma — Alina disse. — Posso sentir meu cérebro como parte de mim, mas não meu corpo. É como se nem fosse meu, exatamente.

Pensei que talvez Alina se sentisse melhor se a visse de perfil. O único espelho estava no banheiro, acima da pia. Instruí a começar uma maquiagem, pra mais naturalidade ao posar. Eu mesmo subi na banheira e espremi meu corpo num canto junto ao telhado, e daí pude ter um ótimo ângulo de visão. Isso deixou mais divertida a sessão: Alina estava genuinamente admirando seu reflexo no espelho, então captei imagens bem melhores.

Alina encolheu os ombros, tirou suas roupas e nos apresentou com toda a saúde da fértil Terra Negra russa

Quando Alina terminou de aplicar a maquiagem, tentei de novo clicá-la contra a parede. Mas por causa da sombra pesada nos olhos, os lábios vermelhos e o blush brilhante ela ficou parecendo uma prostituta sem vergonha, daí nem a revista Flirt publicaria aquelas fotos. Enquanto sra. Yershova lavava toda aquela beleza produzida, eu e Lyuda botamos uma cortina torta na janela com um lençol branco. Lyuda primeiro ficou como fios brilhantes em festa rave, depois foi lentamente tirando. Nas minhas fotos quis transmitir seus movimentos graciosos e sua flexibilidade, sua beleza não-convencional, ligeiramente áspera, mas com essa meta em mente eu precisava de mais que um grande lençol branco. Imaginei que seria ótimo vê-la escalar-se numa pole dance em uma festa techno. Ou clicá-la entre ruínas com canos enferrujados ao fundo, apenas tão magros e elásticos como seu corpo.

Voltamos à cozinha, tinha ainda uma garrafa de vinho pela metade esperando pela gente. Fotografei Lyuda enquanto ela fumava, e isso ficou melhor do que qualquer outra coisa que tentei capturar para o momento.

— Sabe, quando você está olhando pra mim pela lente eu não te percebo como um homem — Lyuda me confessou enquanto inalava um cigarro — eu nem sequer penso em você como uma pessoa. Você é uma coisa pra mim. Isso é uma cadeira, aquilo é uma chaleira, e isso aí é você.

No dia seguinte já sóbrio eu olhei de perto todas as fotos, e entendi que nenhuma delas saiu boa. O primeiro lote de fotos definitivamente ficou aquém. Mas, bem, você deve dar uma estragada antes do ponto de virada, isso é certo. Só que não havia volta a essa altura — eu tinha que seguir em frente.

Sabe, quando você está olhando pra mim pela lente eu não te percebo como um homem — Lyuda me confessou enquanto inalava um cigarro — eu nem sequer penso em você como uma pessoa. Você é uma coisa pra mim. Isso é uma cadeira, aquilo é uma chaleira, e isso aí é você.

No teatro

Após o trabalho, dirigi-me ao Theatre.doc, onde muitas pequenas brincadeiras foram feitas. Enquanto ouvia os atores, reparei no background do palco, um velho muro de tijolos, e pensei que aquilo daria um bom toque extra de textura à sessão. No dia seguinte recebi permissão pra usar o fundo do palco, assim como envolver os atores no meu plano de jogo.

Marcamos uma data logo após uma apresentação programada. Não ude evitar uma dor de cabeça em relação aos problemas de iluminação. Ainda assim, foi mais algo mais divertido brincar no teatro. Tive que subir uma escada de mão até o fim no teto e direcionar manualmente os holofotes pesados e presos firmes com grandes porcas e parafusos. Não tive pista de como evitar sombras caindo nos corpos e rostos, então decidi seguir pelo caminho fácil e concentrar os raios do holofote principal no centro da cama, e usar iluminação adicional para completar. “Luz é o aspecto mais difícil de todos eles” — me encorajou o curador de Zarema — “você sabe, eu frequentemente chamo nosso engenheiro de iluminação aqui: ‘Precisamos de azul pra essa cena’, e ele diz ‘qual azul? Tenho sete deles!’”

Depois de ajustar a iluminação, chamei um ator cujo nome era Nikolai para vir ao palco. Pedi pra que relaxasse e olhasse pra câmera.

— É a coisa mais difícil, relaxar — ele informou a mim e quem mais estava ali — recentemente fui fotografado por muitos fotógrafos profissionais, pra uma masterclass pra alguma revista de moda. Aí me disseram pra relaxar. Daí apontaram pros alunos quais partes de meu corpo permaneciam tensas: um ombro, por um instante, um pé e um braço.

Olhei hesitante pro seu ombro. Então pro seu pé. E entendi que a pessoa mais tensa era eu, então decidi prosseguir clicando. Nikolai permaneceu falando como fizeram os experts:

— A propósito, eles me disseram uma técnica secreta para colocar pressão nas lentes! Digo, para intimidá-las com meus olhos. Aqui, veja só… — Nikolai começou a olhar espantado pra câmera.

— Não sinto ainda a pressão — respondi enquanto dava um monte de cliques.

— E agora? — Nikolai franziu ainda mais as sobrancelhas.

— Ainda não.

— É que você está disparando muito rápido. E alto. Isso me quebra. — Nikolai deu a desculpa para sua falha e perdeu completamente o interesse em praticar a técnica secreta.

Então mandei-o para o auditório pra ficar na poltrona mais próxima à primeira fileira. Nikolai nu arqueou-se sobre uma cadeira abraçando seus joelhos. Fotografei-o por trás.

O resto ficou bem mais fácil de clicar. A seguir chamei Dasha, uma garota animada, atlética com um corte de cabelo curto. Ela envergou um pouco, então tive que lembrá-la constantemente para ficar ereta. A câmera sem coração captura tudo: nas imagens as proporções do corpo ficam seriamente distorcidas. Enquanto seguia pelo primeiro lote de fotos, prometi a mim mesmo ficar atento a minha própria postura e, assim como sempre, esqueci disso trinta minutos depois.

Pedi a Dasha para também ir pra uma poltrona no auditório, não na periferia como Nikolai, e sim na mais distante das fileiras. Cliquei ela cercada de poltronas vazias — as fotos ficaram com reminiscências do estilo disco, prontas para virarem uma capa de vinil para C.C. Catch.

Percorro as imagens e meu espírito é esmagado: não há nada que eu goste. Sim, há uma linda garota nua. Mas o que ela está tentando fazer aqui? O ponto está ausente, simplesmente não veio à tona com qualquer coisa que agregasse à presença de um corpo nu. Fotografar uma linda mulher no século 21 é tão bobo quanto pintar naturezas-mortas realistas de frutas numa travessa próxima a um punhado de faisões mortos. Pode ser apropriado para o Arbat. Não para a eternidade.

Fotografar uma linda mulher no século 21 é tão bobo quanto pintar naturezas-mortas realistas de frutas numa travessa próxima a um punhado de faisões mortos. Pode ser apropriado para o Arbat. Não para a eternidade.

Comecei a pensar sobre minha contribuição e comecei a sentir-me caindo numa depressão profunda por alguns minutos, enquanto minhas fotos eram copiadas do cartão pro netbook. Enquanto isso Dasha completamente nua me abordou:

— Sabe, outra pessoa também me fotografou nua uma vez. Ele foi simplesmente louco. Choramingou sobre tudo: as sombras, a luz excessiva, minha postura ruim. Mas suas fotos são bem melhores, porque ele apenas me clicou no meu sofá em casa! — ela explode numa genuína e contagiosa gargalhada que não consigo resistir a cair também.

Marina é a próxima da lista. Ela é a mais calma de todo o grupo, e com um quase imperceptível contorno de uma tatuagem de costas inteiras. Sinto-me muito confortável em fotografá-la: nós dois ficamos quietos fazendo nosso lance. Depois de tirar uma série de fotos no palco, peço a ela pra ficar no topo de uma escada de mão e clico ela sob a luz que vem de cima. Estou tentando enfatizar seus belos seios com a luz, e me dou conta que não percebo meus modelos como objetos sexuais. Agora mesmo estão apenas representando uma coleção de superfícies e texturas para mim, não seres vivos de sangue quente. “Uma chaleira” — ouço a voz de Lyuda na minha cabeça — “Você é apenas uma chaleira.”

Estou tentando enfatizar seus belos seios com a luz, e me dou conta que não percebo meus modelos como objetos sexuais

Alexei, o segundo homem no projeto, não parece estar acuado em estar totalmente nu. Ele senta, levanta e move-se como se tivesse nascido e crescido numa colônia nudista. É assim que imagino Adão antes de seu lapso de virtude. Francamente eu estou bem mais desconfortável com a presença de quatro mulheres nuas quanto ele está: quero destacar a simetria das linhas de seu corpo no quadro mas seu pênis escorregou para um lado, quebrando a harmonia. Se eu pudesse apenas endireitá-lo obteria um clique perfeito. Mas um pedido do tipo criaria uma tempestade de comentários entre as moças, e não consigo ter jogo-de-cintura o suficiente nessas situações, fico sempre muito tímido. Falhei então miseravelmente em minha própria batalha interna e o clique perfeitamente harmonioso nunca foi feito.

Anastasia, uma ruiva, foi a mais difícil de clicar. Sua figura irresistivelmente brilhante é quase impossível de ser capturada em filme: qualquer background aparenta ser absurdo e vulgar. Após muitas tentativas falhas fomos ao camarim para checar alguns adereços que pudessem ajudar, até os mais bobos, como um enorme acordeão verde. Ela olha fixamente em silêncio através das lentes e seu olhar é bem mais revelador do que seu corpo nu. Ela é a única que consegue realmente “intimidar a câmera”.

Para criar contraste com um olhar humano só é possível com mais um do tipo, por isso pedi pra Alexei deitar na cama e Anastasia ficar por cima dele. Ele olha pra garota enquanto ela olha bem pra câmera — como uma personagem de filme que percebe que ela está sendo “assistida”. Dessa forma posso de certa forma replicar seu olhar: calmo, sério, examinador.

No banheiro

Após as séries com os atores, fiquei com uma sensação de incompletude: consegui uns cliques decentes, mas eles eram muito conflitantes e não encaixavam numa história finalizada. Nos encontramos de novo, dessa vez no local de Anastasia e cheguei com uma solução simples.

— Não vou precisar retratar ninguém, nem precisam fazer nada intencionalmente — anunciei aos atores. — Sejam vocês mesmos, bebam vinho, falem de qualquer coisa que queiram. Alex, vá em frente e se dispa, e volte aqui.

A cena me lembrou uma reunião para jornalistas onde todos estavam estavam conectados aos outros, de uma forma ou de outra. Cada grupinho tinha algumas pessoas que tinham me visto nu em algum ponto, mas eles nunca traziam isso à tona pra conversa. Os atores me mostraram como isso podia ser feito de um jeito diferente.

Nikolai falou de jogos de computador e tentou nos fazer assistir alguns vídeos não muito engraçados do YouTube. Slonina lia sortes em restos de café, Dasha falava sobre seu ex, Alexei pediu uma pizza e depois ficou checando o telefone escrevendo pra alguém especial. Marina fumava sedutoramente. Eles beberam, fofocaram um pouco, discutiram notícias profissionais. Tudo estava normal, a não ser o fato de que um deles estava sem quaisquer roupas. Não pareceu que alguém notasse qualquer diferença.

Depois de todos despirem-se, mandei Anastasia, Alexei e Nikolai pro banheiro e comecei a clicá-los na bagunça ali. O tipo de cena de uma família a três.

Na bancada do bar

A noite no teatro me deu um impulso na autoconfiança: se eu puder trabalhar com seis horas em uma sessão, consigo produzir qualquer coisa bem bacana. Fiz um arranjo para acertar revezamentos com uma outra garota, Lena, que trabalhava como bartender num café.

“Ukuleleshnaya”: nos conhecemos um ano atrás quando, num show de música dark-folk, eu a fotografei secretamente e postei no Instagram. Quando rolou isso eu e a garota com longos dreads loiros e ombros tatuados tínhamos toneladas de amigos em comum. Lena concordou em ser fotografada pro Bird In Flight, mas isso não saiu tão suave como eu esperava. Quando nos reencontramos Lena tinha cortado os dreads, despejado seu namorado, encontrado um novo, tingiu o cabelo de azul, adotou um cão e ganhou um par de novas tatuagens.

Numa bela tarde fui até a porta do café Ukuleleshnaya. Lena estava  sendo bartender num bar cheio de homens. Eles mantinham-se pedindo coqueteis, tentando estranhamente flertar com ela, e mesmo uma hora depois quando seu turno já havia acabado, nenhum deles queria sair.

Senti como se alguém tivesse me acertado com um martelo: perdi meu fôlego com a visão de seus mamilos com piercing, meu coração começou a saltitar e meus olhos começaram a ver coisas como círculos brilhantes de suas tatuagens — dos pentagramas em seu estômago e um retrato em sua coxa esquerda

Ao fim, Lena, que estava completamente cansada tratou de dar conta de sua cota de licor, deu uma descansada por uns minutos e começou a despir-se quieta. Me senti como se alguém tivesse me acertado com um martelo: perdi meu fôlego com a visão de seus mamilos com piercing, meu coração começou a saltitar e meus olhos começaram a ver coisas como círculos brilhantes de suas tatuagens — dos pentagramas em seu estômago e um retrato em sua coxa esquerda. Lena notou que eu estava olhando fixo pra ela e parou com a língua de fora: fui cortado ao meio. Fatality.

Daí tudo ficou simples: Lena ia silenciosamente fazendo suas coisas e eu ia rodopiando em volta dela, batendo fotos. A luz estava brilhante e as garrafas e coqueteleiras deram um fundo bacana. Junto a isso tinha lá muitos objetos objetos vibrantes por lá, o que dava um prazer puro em experimentar com todo o espectro. Tentei encaixar um pano de prato azul e o cabelo de Lena no mesmo quadro, uma fileira de gargalos de garrafas vermelhas com as asas rubras do pentagrama tatuado, o brilho das coqueteleiras de aço com os piercings prateados nos mamilos. Enquanto buscava por uma composição precisa tentei até mesmo entrar na cozinha fechada para clicar Lena contra uma porta azul. Perdi a noção da realidade com toda essa excitação e posicioneiLena numa mesa próxima a uma caixa registradora coberta por um pano azul.

Não me dei conta ao combinar os dois tons que a estética do quadro foi arruinada por um estúpido zigurate de lã que puxou toda a atenção para si. Então ofereci à garota clicá-la enquanto fazia coqueteis. Pela duração dos vinte minutos seguintes, ou algo assim, rastejei de joelhos para resolver a tarefa de interconectar recipientes: encaixar o melhor possível em um único quadro finos fluxos de líquidos verdes e vermelhos de uma metade da coqueteleira pra outra.

Gostaria de mencionar isso: se você nunca foi servido de um coquetel por uma bartender nua você ainda não viveu de fato.

Quando o sol começou a surgir decidi fotografar Lena a partir da rua. Abrimos as cortinas e eu comecei a clicar o bar através do vidro da moldura na frente. Duas lésbicas masculinizadas [butch lesbians] passavam por ali. Decidiram parar próximo a mim pra ter uma vista melhor de Lena. Então lá estávamos nós três, naquela manhã cedo, fitando através da moldura com vidro duplo uma garota deslumbrante e nua que secava copos no bar com lentos e cansados movimentos. Aquilo seria um ótimo clique se tivesse alguém por ali pra fazê-lo.

Na cidade

O material ia lentamente se juntando. A tarefa mais difícil a essa altura era selecionar as melhores fotos e deixá-las prontas para publicação. Combinar negócios com um hobby tornou-se mais desafiador: os prazos pra muitos de meus projetos estavam inevitavelmente ficando próximos, assim fiquei no escritório até o anoitecer, diariamente e mais tarde em casa trabalhava com textos e fotos até as 5 ou 6 da manhã. Pude realizar muito pouco e tive que pedir pra uma amiga minha pra editar meus RAWs. Ela é uma profissional e ainda levou muitos dias pra conseguir dar conta.

Ofereci a Lyuda fazermos mais uma sessão de fotos — com um enorme tambor de xamã que poderia elevar sua imagem ao próximo nível. Mais cedo de manhã após cair neve fomos à antiga sinagoga em ruínas em Kitay-Gorod para buscar uma parede com algum grafite sinistro. Lyuda despiu-se e, segurando um tambor branco, andou pela neve fresca. Começou a ficar com frio quase na mesma hora, mas arrumei um jeito de obter alguns cliques decentes.

Quando estávamos no metrô, Lyuda tremendo de frio me explicou minhas mancadas pra mim:

— Você não captou o que diferencia uma pessoa comum de uma modelo. Modelos e atores são capazes de relaxar e agir naturalmente sob quaisquer circunstâncias. Diferente deles, o povo ‘normal’ como eu e você somos capazes de nos abrirmos somente quando nos sentimos o mais confortável possível. Sempre posto grafites no Instagram, é uma parte de mim. Você precisa perceber algo assim para os outros.

Alguns dias depois eu refotografei Alina na neve, entre os pinheiros, enrolada num xale florido de senhora madura. Isso pareceria vulgar em qualquer outra modelo, mas no caso de Alina a sessão ficou divertida, para dizer o mínimo.

— Eu disse a minha mãe que você queria me fotografar pelada numa floresta, e isso foi o que ela escolheu, esse xale. — ela disse rindo e jogando suas roupas na neve. Eu tinha a impressão de que a neve era o ambiente natural de Alina enquanto ela resfriava-se um bocado.

A garota Lena repentinamente demitiu-se do trabalho de bartender no café Ukuleleshnaya e ainda decidiu mudar de novo a cor do cabelo. Eu a encontrei rapidamente na véspera disso tudo e fotografei ela em sua casa. Ela ficou perambulando entre cômodos escuros semiacordada, alimentando seu cão, acendendo o fogão, bebendo chá. Segui ela como uma sombra e tentei mostrá-la contra o background com um fundo de parede velho e arranhado. Essas fotos, na minha opinião, tornaram-se adições excelentes à série do bar.

Cerca de uma semana antes de meu prazo mais pessoas de repente começaram a demonstrar interesse em ser fotografadas. Tive que dizer não a todos. Mostrei muitas imagens pro editor de fotos do Kommersant. Com bastante tato, ela disse que “a maioria é ruim, mas tem umas boas também”. Os atores não se importavam com as imagens, de qualquer forma, e o curador deles decidiu que a primeira série era totalmente inutilizável. Alina gostou das fotos, e Lyuda escreveu que ela faria fotos dela de uma maneira completamente diferente. Lena não disse nada.

Não entendo muito bem se fui bem sucedido em tirar qualquer boa foto ou não. Escrever é mais fácil, de certa forma: textos parecem mostrar apenas o que você visualizou serem — bons ou ruins, essa é outra questão. Mas uma fotografia frequentemente torna-se não exatamente o que você imaginou. E até agora não está claro como mudar esse efeito.


Alexander Chernykh nasceu em Tomsk, mora e vive em Moscou. Estudou jornalismo na Universidade Estadual Lomonosov. É repórter do jornal Kommersant.

Alexandre Maia

Clico, viajo, olho, analiso, converso, e repito — em qualquer ordem!

× Precisa de Ajuda?
Dicas Lightroom
Entre no nosso Grupo Whatsapp e receba 100 Dicas de Lightroom
Clique aqui para entrar
Este website utiliza cookies para melhorar a experiência do usuário. Ao clicar em "Aceitar Cookies" ou continuar com a navegação está a consentir a sua utilização. Para saber mais sobre cookies ou para os desativar consulte a
Política de Privacidade.
Aceitar Cookies
Este website utiliza cookies para melhorar a experiência do usuário. Ao clicar em "Aceitar Cookies" ou continuar com a navegação está a consentir a sua utilização. Para saber mais sobre cookies ou para os desativar consulte a
Política de Privacidade.
Aceitar Cookies