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Helmut Newton — um guia básico de A a Z 4.82/5 (11)

Referência entre muitos fotógrafos de moda, Helmut Newton explorou várias nuances da arte fotográfica

de Brooke McCord, via Dazed (adaptado)

 

Ninguém deixou tão bem uma impressão duradoura no mundo das imagens de moda quanto Helmut Newton. Contratado pela Vogue nos anos 1950 antes de ser impulsionado para a fama, Newton tornou-se renomado por seus cenários controversos, suas imagens hiperssexualizadas e composições impressionantes. Com elementos de seu trabalho ligados a temas do surrealismo — um movimento artístico que dominava em sua juventude e crescia em Berlim — o amor autêntico de Newton por mulheres belas e fortes o levou a criar imagens carregadas de tons densos de voyeurismo, sadomasoquismo e fetiche.

Com trabalhos publicados nas revistas Nova, Queen, Vogue, Vanity Fair, Elle e Playboy, além de 64 capas para a Vogue Paris em seu currículo. Newton ficou famoso sob variadas categorias, das obras mostrando poderosas mulheres nuas, que irradiam um senso de erotismo e empoderamento, a retratos em preto-e-branco de figuras que vão de Margaret Thatcher a David Bowie, Leonardo DiCaprio e Sophia Loren. Após a mostra Helmut Newton — A retrospective nós trazemos aqui um guia educativo e de respeito para a a obra deste prolífico produtor de imagens.

Capa do livro “A gun for hire” (ed. Taschen)

A de A gun for hire

Citando Newton em referência a suas próprias fotografias; “A fotografia de alguns é uma arte. Não a minha. Se ocorre delas serem exibidas numa galeria ou museu, bacana. Mas não é por isso que eu as faço. Sou uma arma locável.” Apesar da lista de museus e galerias que apresentaram seu trabalho, Newton refutava a definição de suas obras como ‘arte’. Datando sua fotografia de 1962 até seus derradeiros editoriais para a Vogue, A Gun for Hire é bem literalmente um fotolivro do trabalho que Newton criou como uma “arma para aluguel”.

Autorretrato com esposa e modelos, Vogue Studio, Paris, 1981 — © Helmut Newton Estate / Maconochie

B de Big Nudes

Newton iniciou uma série de nus todos em preto-e-branco em 1980 que veio a definir sua mulher: poderosa, forte, afirmativa e totalmente no controle. Preparando-se para replicar a configuração numa série de fotografias policiais de membros do grupo terrorista Baader-Meinhof, Newton clicou fotos de corpo inteiro de mulheres nuas em vez dos terroristas. Logo mudou o título de seu corpo de trabalho para The Terrorists to The Big Nudes— de onde sua fotografia de Henriette Allais, Big Nude III, tornou-se a heróica imagem da série.

C de Charlotte Rampling

Foi num set de um ensaio pra Playboy em 1973 que Newton conheceu Charlotte Rampling, a atriz e modelo que logo tornou-se sua musa. Tirando um retrato dela despida e sentada a uma mesa de jantar em Arles, um cálice de vinho um uma das mãos, como explicou Rampling à Harper’s Bazaar, foi depois do ensaio que ela e Newton familiarizaram-se. “A Playboy tinha apenas uma foto legal minha, despida de costas e sentada numa cadeira. Então Helmut disse ‘Podemos fazer agora um nu, nosso nu?’” A cópia de Rampling da fotografia repousa em sua garagem.

Charlotte Rampling. Playboy, 1973.

D de death (morte)

Como numa narrativa em uma de suas fotos, Newton encontrou a morte inoportunamente em 23 de janeiro de 2004, após bater seu Cadillac na área exterior do hotel Chateau Marmont, famoso em Hollywood, enquanto passava o inverno em LA — assim como fazia todo ano. Morrendo aos 83, Newton deixou sua esposa de 55, June, mais conhecida como a fotógrafa Alice Springs. Nas palavras de Karl Lagerfeld, “Essa foi sua última foto, tirada por ele mesmo.”

Helmut Newton no Chateau Marmont. Los Angeles, 1985 — © David Fahey

E de exótica dançarina

A história fotográfica Mata Hari de Newton para a Vogue em 1963 causou um frisson por conta da retratação glamurosa de uma espiã. Inspirado por Margaretha Gertruida ‘Margreet’ MacLeod, mais conhecida por seu nome artístico Mata Hari, que era uma dançarina exótica holandesa/frísia acusada de ser espiã antes de sua execução por um pelotão de fuzilamento na Primeira Guerra Mundial. O editorial de Newton estampou uma mulher posando frente ao Muro de Berlim, posteriormente afastada de uma cerca de arame farpado pela polícia.

F de fetiche

Newton é a força responsável por trazer os tabus do fetichismo e do sadomasoquismo à fotografia de moda mainstream e às páginas de revistas populares. Para ele, a moda era uma busca fetichista. No Swimwear uma imagem de uma jovem Jerry Hall cuspindo água numa modelo em topless publicada pela Vogue; em Saddle I, uma imagem de uma modelo curvada e ajoelhada provocativamente numa cama do Hotel Lancaster vestindo uma sela de corrida, que ele clicou para a revista masculina Adam, publicada pela Vogue na época. Newton não tinha medo de chocar.

Dois pares de pernas em meias pretas. Paris, 1979. — © Helmut Newton Estate / Maconochie Photography

G de gender roles (papeis de gênero)

Testando sempre os limites da aceitação social, a câmera de Newton possuía uma objetiva para explorar poder, sexualidade e papeis de gênero, dos quais o último item ele sempre desafiava. Utilizando-se da fotografia para transformar normas de gênero em sua cabeça, as mulheres de Newton eram fortes, dominadoras, perigosas e sexualmente livres, e suas poses poderosas são uma prova disso. As mulheres esculturais e amazonas começaram a aparecer na Vogue francesa e outras publicações nos anos 1970 justamente quando o feminismo ganhava holofotes, provocando alvoroço no Movimento Feminino.

Bergstrom sobre Paris. Paris, 1976. — © Helmut Newton Estate / Maconochie Photography

H de Helmut Newton Foundation

Sendo tanto a locação principal do filme cult Christiane F: Wir Kinder vom Bahnhof Zoo quanto o lar da Helmut Newton Foundation, a área berlinense do “Zoo” pode ser encontrada no distrito de Charlottenburg. Sediada num Landwehrkasino — antigo cassino de oficiais militares prussianos — a fundação projeta e preserva a obra fotográfica de Helmut e sua esposa June Newton. Exibem também efemeridades pessoais — faxes, passaportes, propostas e roupas — a fundação em si foi criada por Newton em 2003 antes de abrir pouco após sua morte em 2004. Seu maior desejo era que a fundação não fosse um “museu morto”, e sim uma “instituição viva”.

I de Iron Lady

Entre os retratos de Newton situa-se uma fotografia da ‘Dama de Ferro’ Margaret Thatcher. Pedida pela Vanity Fair em 1991, a fotografia foi tirada em Anaheim, na Califórnia. Recusando-se a posar sem sorrir, já que corria o risco de parecer “desagradável” antes de cair no charme do fotógrafo, Thatcher não teve papas na língua para dizer que odiou o retrato que agora situa-se na National Portrait Gallery de Londres.

Margaret Thatcher por Helmut Newton

J de June Newton

Escrito e dirigido por sua esposa de 56 anos, Helmut by June mostra uma visão dos bastidores no processo de trabalho de Newton como fotógrafo. Tendo comprado uma câmera de vídeo para Newton no Natal em certo ano, e que ele não soube utilizar, June começou a usar ela mesma a câmera, colocando Newton frente a suas lentes. Um retrato íntimo pela mulher que melhor o conheceu, o curta de 53 minutos também apresenta Carla Bruni e Cindy Crawford, duas das musas de longa data que Newton teve.

K de King of Kink

Seguindo-se à publicação de seu fotolivro erótico White Women em 1976, a revista Time coroou Newton com o título ‘The King of Kink’ (O Rei da Esquisitice), um epíteto adequado para um homem que disse certa vez “Se um fotógrafo diz que não é um voyeur, ele é um idiota.” Sem dúvida.

L de Los Angeles

Em junho de 2013, Los Angeles viu a primeira grande exibição das fotografias de Newton. Intitulada Helmut Newton: White Women, Sleepless Nights, Big Nudes, a exposição teve lugar no Annenberg Space for Photography e exibiu mais de 100 imagens em larga escala dos primeiros três livros de Newton e mais dois filmes: o já citado Helmut by June e o Provocateur. Criado pela Arclight Productions, Provocateur examina o lendário impacto de Newton na fotografia de moda, relatado por editores, fotógrafos e mulheres que foram influenciados por sua visão.

Helmut Newton em Monte Carlo, 1987. — © June Newton (Alice Springs)

M de Monte Carlo

Da praia sem fim, à piscina e as cenas no calçadão que deram pano de fundo para seus editoriais na Vogue francesa, apropriados às espreguiçadeiras listradas em verde menta e branco do Monte Carlo Beach Club — onde Newton é visto em meio a uma sesta enquanto ouve seu Walkman em Helmut by June — o clima quente de Mônaco rendeu muita inspiração a Newton, que mudou-se para Monte Carlo após viver 26 anos em Paris.

Fotos de Newton para a revista Nova em 1973

N de Nova

Publicada entre 1965 e 75, a Nova era uma revista britânica anticelebridades fundada por Harry Fieldhouse que tinha a ideia de radicalizar o mercado de publicações femininas. Discutindo sexo, política, a pilula e outras questões atuais, com contribuições em fotografia de moda de Newton, Don McCullin e Terence Donovan, o conteúdo da Nova era arriscado e à frente de seu tempo. Uma revista para mulheres inteligentes, as chamadas de capa da Nova abrangeram de “O gospel de acordo com um padre homossexual” a “Muggeridge: será ele a maior furada britânica?”. Uma revista feminina com mais leitores homens do que mulheres, a Nova cessou suas impressões em 1975 devido a seu declínio financeiro.

O de orthopaedic braces (suportes ortopédicos)

Sem medo de chocar, Newton chamou a modelo Nadja Auermann e seus pouco mais de 1,80m, para um arroubo fashion sobre saltos finos na edição de fevereiro/1965 da Vogue. Aparecendo com uma perna fixada cirurgicamente, sendo empurrada para uma cadeira de rodas, o editorial ainda mostrou suportes de perna, muletas e outras parafernálias ortopédicas. Contratado sob a editoria de Anna Wintour, o editorial foi chamado High and Mighty (tradução livre: “Alto e Poderoso”) e propunha ser empoderador, mas foi largamente visto como ofensivo. Oito anos depois, a coleção AW03 de Tom Ford para Yves Saint Laurent apresentou joalheria de Lucite inspirada exatamente pelo mesmo editorial.

Raio-X, Van Cleef & Arpels. Vogue francesa, 1994 — © Helmut Newton Estate / Maconochie Photography

P de portraits (retratos)

Claro, Newton não era só moda e belas mulheres nuas: ele também foi aclamado por seus retratos que abarcam os reinos da moda, dos filmes, da política e da cultura popular. Tendo dito certa vez que “Retratos são uma sedução extraordinária”, Newton fotografou todos, de Sophia Loren, Leonardo DiCaprio e Angelina Jolie a Margaret Thatcher e Salvador Dalí, tendo este último pedido uma foto pouco antes de sua morte.

Catherine Deneuve por Helmut Newton

Q de questionando o status quo

“Eu ainda acredito que a fotografia de moda perfeita é uma fotografia que não parece ser uma fotografia de moda. É uma fotografia que parece como algo vindo de um filme, como um retrato, talvez um clique de lembrança, talvez um clique de paparazzo, qualquer coisa menos uma fotografia de moda.” Para Newton, a moda significava mais do que trajes e modelos, era uma maneira de contar uma história, um comentário sobre os tempos.

Foto para a Vogue britânica em 1967

R de romance e relacionamentos

Como Newton disse uma vez a sua esposa: “A fotografia será sempre meu primeiro amor, mas você será o segundo.” Apesar de colocar a fotografia em primeiro lugar, os retratos que Newton fez de June descrevem um senso elevado de paixão, um tipo diferente de ternura. Mas estaria ela com ciúmes de seus relacionamentos com os motivos de suas fotografias e as fantasias eróticas de onde elas vieram, simbolicamente? Como June disse ao The Guardian em 2005, “Não. De modo algum. Ele sempre disse ‘Você pode f***r as modelos, ou você pode trabalhar com elas, mas não ambos ao mesmo tempo.’”

S de Sumo

Com apenas 10 mil cópias em sua existência, cada uma assinada e numerada pelo próprio Newton, mais um suporte de livro desenhado pelo designer francês Philippe Starck, Sumo é um livro titânico em mais de um sentido. Editado por June, com mais de 400 imagens — algumas das quais publicadas pela primeira vez — Sumo pesa 35.4kg em sua caixa. Um empreendimento editorial ousado, Sumo quebrou recordes de peso, dimensões e preço de revenda.

Arena New York Times. Miami, 1978. — © Helmut Newton Estate / Maconochie Photogaphy

T de três garotos de Pasadena

Oito anos após sua morte e 30 após a época em que trabalharam juntos, três dos assistentes de longa data de Newton — os fotógrafos Mark Arbeit, George Holz e Just Loomis — reuniram-se para um tributo ao seu mentor. Juntando suas lembranças de trabalho junto ao intenso fotógrafo com cenas de arquivo, eles criaram Three boys from Pasadena: a Tribute to Helmut Newton, um documentário intimista que serve como uma captura às escondidas da vida privada de Newton nos bastidores.

U de uncomplicated (descomplicado)

Sem utilizar sequer uma vez um motor drive para tirar uma foto, Newton estava sempre no controle de seu trabalho. Pegando numa câmera pela primeira vez aos 12 anos — uma câmera-caixote feita pela Eastman Kodak chamada Kodak Brownie — explicou Newton, seu equipamento quase nunca foi mas avançado que isso. “Penso que as coisas são complicadas o suficiente sem torná-las ainda mais, então acho que é por isso que meu equipamento técnico é bastante simples, bastante básico, porque ele me dá mais tempo para trabalhar com a garota, o que é a coisa mais importante.”

V de Domestic Nude V

Clicado em 1993 na toca preferida por Newton em Hollywood, o Chateau Marmont, Domestic Nude V, in my living room é um retrato em preto-e-branco de uma mulher desconhecida, nua exceto por um par de saltos e lábios bem vermelhos. A quinta fotografia numa série de dez — da qual a original encontra-se em leilão na Christie’s por um preço-base de 30-40 mil dólares — a série Domestic Nude mostrou Newton colocando fortes mulheres despidas em uma série de cenários domiciliares: agachada de forma provocante em um canil de madeira, de pernas abertas, apoiada na geladeira e juntando toras no quintal.

“Domestic nude V” por Helmut Newton

W de White women

Publicado em 1976, White women foi o primeiro lançamento bibliográfico de Newton. Demonstrando sua inclinação para a perfeição técnica e estabelecendo sua estética que logo mais seria mundialmente renomada, este livro visualmente erótico segue tão controverso hoje quanto o foi há 40 anos, e é largamente considerado o melhor livro de Newton, apesar do número de publicações que se seguiram.

Raio-X, Van Cleef & Arpels. Vogue francesa, 1994 — © Helmut Newton Estate / Maconochie Photography

X de raios X

Os cliques de Newton, cuidadosamente compostos, quase cinemáticos, deram o perfeito contraponto aos nus infames da Playboy. Não é preciso dizer que foram feitos em raios X. Indo dos cliques antes mencionados de Charlotte Rampling à imagem de uma garota no chuveiro com suas pernas bem abertas, água batendo em seu ponto G, clicada em 1977, o trabalho de Newton para a Playboy foi guiado pela ideia de mulheres poderosas brincando em fantasias eróticas com raios X.

Y de Yves Saint Laurent

Exibido pela primeira vez como parte de sua coleção Pop-Art de 1966, o Le Smoking Jacket de Yves Saint Laurent veio para simbolizar um tipo diferente de sexualidade. Servindo de frente a uma nova feminilidade que não requeria exposição do corpo e cortes restritivos, o Le Smoking tornou-se icônico, e Newton foi indubitavelmente parte responsável por isso. Clicando o smoking sobre uma mulher andrógina com cabelo alisado para trás que posava num beco mal iluminado de Paris, juntos, Newton e Saint Laurent, criaram um momento na história da moda.

Clique para Yves Saint Laurent. Paris, 1975 — © Helmut Newton Estate / Maconochie Photography

Z de zeitgeist

Newton foi largamente considerado como criador do zeitgeist em uma era de emancipação feminina. Junto com Yves Saint Laurent e Karl Lagerfeld, Newton liderava uma nova onda de fotógrafos e designers que começaram a balançar as normas de gênero e percepções preconcebidas de feminilidade. Estivessem suas mulheres vestindo roupas masculinas, femininas ou completamente nuas, elas estavam sempre dominantes, no controle e certamente libertas das restrições sociais da época.


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