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Não acredito em fotografias

O caráter documental da fotografia ainda existe, fato. Mas a maioria dos registros está longe de passar credibilidade para o espectador. O ceticismo fotográfico não nasceu de um episódio isolado, mas de uma análise profunda a todo acervo atual, inclusive de colegas de profissão.

Na época analógica observar era o verbo principal. Decodificar acompanhava a observação e em raros casos se cogitava avaliar edições e alterações. Hoje o que ocorre é um mix de todos esses atos, a todo momento, mas com uma grande pendência para a busca do real.
De simples registro, a fotografia agora tem a atribuição de obra de arte.  Pode ser abrindo o jornal, na primeira página da revista, no site do noticiário, temos diariamente uma overdose visual. O que transmite a realidade e o que é mero excesso?

Foto: AP Photo/Itsuo Inouye – Montagem Ursula Dahmen/Der Tagesspiegel/BBC Brasil

Antes poucos tinham uma máquina, depois alguns debatiam as vantagens e desvantagens entre analógico e digital, e hoje é a busca por câmeras “profissionais” ou com mais megapixels – por mais incoerente que esse anseio possa parecer – é o que traduz resumidamente a longa evolução. O mercado transbordou levando uma boa parte da fidelidade junto com as correções digitais.  A impressão é de que há cinco tipos de “fotógrafos”:

  • Os que registram e não querem editar;
  • Os que apenas clicam e não sabem editar;
  • Os que fotografam e arriscam a edição, mesmo sem saber;
  • Os que fotografam e fazem correções (crop – sem ser radical -, contraste, cor);
  • E os que são capazes de transformar o registro em uma cena totalmente distinta.

Citar um fotógrafo que não edite é uma árdua atividade. A edição é a grande vilã? Editar é bom, ruim?

Depende, as ferramentas de edição modernas são potentes, desde que se saiba usar (assim como tudo) e que não se limite apenas a isso.  Não é ler um tutorial sobre UM assunto específico, exemplo: vinheta, e aplicar em todas as suas imagens. Cada ferramenta ou efeito tem uma utilidade específica e não combina com tudo. Bom senso é sempre o principal, identidade é mais do que desejável. Mas qualquer alteração influencia no resultado e a torna distinta do momento da captação.

Lênin fez um comício na companhia de Kamenev e Trotski em Moscou. Após brigar com partidários,
esses foram removidos da foto. – Museu Nacional de História de Moscou | BBC Brasil.

Inerente ao processo criativo do fotógrafo, a manipulação digital custou a verossimilhança da fotografia, isso não é recente, mas está muito mais acentuado. As ruins expõem claramente a vulgaridade da tentativa de correção, enquanto as boas possuem na maioria das vezes técnicas apuradas e em geral imperceptíveis.

A alteração pode ocorrer automaticamente, por condicionamento, ou com reais intenções, mas o fim é o mesmo: ambas as formas distorcem a realidade, mesmo infimamente. Já pensou nisso?

Não acreditamos em fotografias, mas admirar essa arte é simplesmente fabuloso.

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  • Armando Vernaglia Jr

    Olá Mariana, bom artigo, parabéns. Penso que seja importante apenas ressaltar que não existe fotografia sem manipulação, e não estou falando de photoshop ou dos antigos truques de laboratório, mas das simples escolhas de enquadramento, foco, exposição que um fotógrafo faz. A mensagem muda se um fotógrafo faz uma foto mais clara ou mais escura, se enquadra mais para um lado ou outro, se escolhe uma tele ou uma grande angular… cada escolha é um ato de manipulação da imagem. Não existe fotografia pura, nunca existiu, algo que mostre os fatos como de fato foram, documentados, sempre houveram escolhas e essas sempre são no mínimo um filtro da realidade, conforme os olhos do fotógrafo.

  • Armando, obrigada pelo comentário de extrema importância para complementar o texto.

    De fato, a fotografia é uma arte naturalmente "planejada", onde o simples desenvolvimento técnico e estético já criam uma linha de interpretação.
    Acho engraçado ler junto a uma foto: SEM MANIPULAÇÃO.

    Pouco se pensa no poder que se tem ao registrar, a potência dessa conclusão de diversas escolha… O imparcial não é nem "meramente ilustrativo". :D

  • Bom saber que compartilham a ideia.

    Camila, é um tema fascinante mesmo, ideal para uma monografia inclusive… Tem bastante conteúdo pra explorar.

  • Camila Silva

    Fiz minha monografia sobre a manipulação digital no fotojornalismo. Nas minhas pesquisas achei muitos exemplos de jornal e revistas que editaram imagens mudando o que a imagem realmente tinha. Essa imagem cheguei a anexar no meu trabalho. É um tema muito interessante e bastante vasto.

  • Concordo plenamente.

    Parabéns!

  • André Fernand

    Intrigante….

  • Artigo fabuloso Marina!

    Palavras bem articuladas que constróem um texto coeso e de muita veracidade!

    Meus parabéns!

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