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Viver de fotografia – Como tornar a fotografia sua nova profissão

Ainda lembro da cara de espanto de muitos conhecidos quando anunciei que iria “viver de fotografia”. Afinal, o normal e muito pouco estranho é que as pessoas sigam fazendo o que fazem até o final de suas vidas ainda que isso não lhes faça mais nenhum sentido. Se você pensa na dificuldade que seria começar uma nova profissão à determinada altura do campeonato, pense que algo muito mais assustador aconteceu quando você tinha 17 anos, nenhum conhecimento de vida e, provavelmente, nenhum centavo no bolso. E, como acontece com todo mundo, você sobreviveu.

Este texto tem vários caminhos possíveis. Daria uma boa história contar sobre o processo mudar de vida aos 30 anos, o qual envolveu planejamento, reorganização financeira e muito apoio (e susto) de minha mulher. Na mesma linha, seria um bom texto desbravar os motivos que nos levam a acomodação naquilo que fazemos e nos porquês de não jogarmos tudo para o alto quando nada mais faz sentido e começarmos uma vida nova. Interessante também seria dissertar sobre meu desenvolvimento pessoal bem como os caminhos que trilhei e os muitos cursos de fotografia que fiz até a criação da minha marca e abertura do meu estúdio. Todos esses são caminhos tentadores e cheios de possibilidades como é qualquer mudança que fazemos em nossas vidas. No entanto, o grande segredo do texto (e da vida) é aprender que precisamos escolher algo e dizer não às outras possibilidades, caso contrário não teremos um texto, nem uma vida. Portanto hoje falarei por que escolhi a fotografia dentre tantas outras possibilidades de vida que se apresentaram quando decidi começar de novo.

O fato de eu sempre ter sido um apaixonado por aquilo que faço é, ao mesmo tempo, a chave da minha mudança e a razão da estranheza por maior parte das pessoas. Um ex-aluno me disse: “mas tu sempre amou dar aula!”. Sim, eu sempre amei fazer isso enquanto eu fazia. Quando comecei a não amar mais, decidi fazer outra coisa. E isso só aconteceu porque meu trabalho sempre foi uma das maiores fontes de alegria da minha vida e não queria que ele se tornasse aquele prato de comida que não queremos mais, mas que ficamos apenas afastando devagarinho e aos poucos ao invés de tapeá-lo longe como faria uma criança com sua genuína ira infantil.

Quando soube que seria pai, me dei conta de que precisava urgentemente resgatar algo que nos últimos anos havia perdido para poder transmiti-lo ao meu filho: entusiasmo (que, em grego, significa “ter os deuses dentro”). Assim foi que decidi não adiar mais a decisão de abandonar minha profissão antiga e buscar algo que me trouxesse novamente o “elã vital”, que, para mim, nada mais é do aquilo que te faz acordar segunda-feira de manhã morrendo de vontade de ir trabalhar. Queria receber meu filho com tesão de vida para poder passar isso a ele.

O incrível é que quando nos propomos a fazer algo novo descobrimos que tudo o que nos leva a “esse algo novo” são coisas antigas. Uma série de fatores me levaram à fotografia, todos eles velhos. Lembro muito de, na minha infância, meus pais abrirem uma caixa de sapatos cheia de fotografias antigas e ilustrarem com elas a história dos meus avós, de um cão que tiveram antes de eu nascer, de um Corcel 72 que meu pai não deveria ter vendido, de eu com três anos na praia em cima de um bode!!… Amava tanto essas fotografias que, no outro dia, tirava todas elas novamente da caixa e as repassava uma a uma lembrando daquelas histórias. Quero que o Augusto, meu filho, tenha essa oportunidade também, porque o que a fotografia faz com a gente é isto: recordar (do latim re-cordis: voltar a passar pelo coração).

Meu desejo de ter os melhores registros do Augusto teve um peso enorme na minha decisão de me tornar fotógrafo, porém, obviamente, há outras coisas que levaram a isso. Talvez, a maior de todas seja a minha paixão pela arte. A literatura, as artes plásticas, o teatro e o cinema moldaram meu olhar, me ensinaram a ser um bom apreciador de arte e me permitiram, posteriormente, entender com mais profundidade e me apaixonar completamente pela fotografia. Quando decidi, por fim, que a fotografia seria minha nova profissão, resgatei na minha memória o curso que havia feito quando tinha 15 anos e outros exatos 32 que fiz nos últimos meses. Procurei e arranjei um estágio (não remunerado) em um ótimo estúdio em Porto Alegre até que me senti seguro o suficiente para cobrar pelo trabalho que desenvolvo e trilhar meu próprio caminho.

Sabem o melhor de tudo? Eu não tenho a menor ideia se dará certo e, honestamente, não estou nem um pouco preocupado com isso. Sinto-me muito mais seguro e encontrado do que quando comecei a faculdade de Letras há 14 anos. Se não der certo, muda-se de novo (como fazemos o tempo todo em tudo que fazemos na nossa vida). O engraçado e estranho de verdade é que as pessoas me dizem que eu sou muito corajoso por largar tudo o que eu “tinha”. Para essas pessoas não respondo, mas penso duas coisas: primeiro, não há coragem alguma em se largar algo que já não faz o menor sentido; segundo, só conseguimos viver de verdade quando entendemos que não possuímos coisa alguma. Coisa alguma mesmo, nem essa última frase, que não é minha.

Para completar tudo o que falei acima, assista esse vídeo:

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