Com metodologia inclusiva, oficina ensina pessoas cegas a fotografar 5/5 (2)

Sem assistência especializada na universidade, que nunca havia tido uma aluna com deficiência visual no curso de jornalismo, a professora foi por conta própria pesquisar a resposta. Encontrou a história do esloveno Evgen Bavcar, um fotógrafo cego.

Evgen Bavcar

Apesar de interessante, a descoberta logo se mostrou insuficiente, pois Evgen Bavcar havia perdido a visão com 12 anos de idade, não era cego de nascença como Rúbia e, portanto, tinha referências visuais prévias. Na sequência, Janaina descobriu o paulista Antônio Walter Barbero, o Teco Barbeiro, jornalista cego que desde 2010 realizava oficinas de fotografia com pessoas também cegas. Disposta a entender como era a metodologia utilizada, a professora convidou Teco para ir ao campus da UFSM em Frederico Westphalen.

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A partir desse encontro, a professora começou a conhecer instrumentos e técnicas para ensinar cegos a encontrar os pontos centrais do rosto, fazer enquadramentos e estabelecer noções de distância e tamanho do objeto, úteis para fotografias em planos fechados, além de macetes para ensinar a empunhadura da câmera. Mas ela ainda queria mais, como ensinar a fotografar planos abertos. A pesquisa continuou e o avanço seguinte foi tomar conhecimento da audiodescrição, recurso que permite a pessoa com deficiência visual ver com o auxílio das palavras, usado para promover a acessibilidade em museus, cinemas, teatros e televisão e que poderia também ser usado para auxiliar na fotografia. Com um pouco de cada coisa, a professora da UFSM então começou a ensinar a disciplina de fotojornalismo para a aluna cega, ainda no método de tentativa e erro.

Ljubljana with the dragon por Evgen Bavcar

Janaina explica que Rúbia tinha um grande domínio da matemática e geometria, o que acabou sendo sua via de acesso à fotografia. “Os materiais desenvolvidos para ensinar o enquadramento fazem com que o cego tenha controle do que quer capturar.”

Audiodescrição

Desenvolvido como um recurso de acessibilidade que amplia a compreensão e a participação das pessoas com deficiência visual, a audiodescrição (Ad) é a tradução das imagens em palavras, uma descrição objetiva que permite ao cego “ver” a cena diante de si.

Segundo a professora da UFSM, se por um lado o ensino de braile é um direito adquirido por pessoas com deficiência visual, a audiodescrição ainda não é uma ferramenta usual no processo educacional. No caso de Rúbia Steffens, após a disciplina de fotojornalismo, no segundo ano do curso a professora de telejornalismo também começou a usar em sala de aula o mesmo recurso.

“O aluno cego de comunicação precisa da audiodescrição na aula, sem isso não há o estímulo visual”, explica Janaina Gomes. Ela acredita que a UFSM tenha sido a primeira universidade federal do país a usar esse recurso em sala de aula, por meio de uma pessoa que traduz o que o professor está fazendo enquanto o aluno escuta a audiodescrição por um fone de ouvido, sem interferir na dinâmica da classe.

“É um projeto experimental, pois aumentamos a carga horária e o número de participantes. Queremos mostrar que a pessoa com deficiência visual também pode se apropriar da fotografia. E toda a oficina terá audiodescrição. Dessa maneira queremos de fato incluir os participantes e proporcionar-lhes o máximo de autonomia. Sem dúvida será um marco para todos os envolvidos”, destaca Priscila Xavier, coordenadora do projeto em Pernambuco, promovido pela Entrelinhas Comunicação Acessível.

“A pessoa cega não confia que pode fotografar de verdade”, pondera Janaina Gomes. “Tudo é possível de ser ensinado. Como aluna, sei que posso ultrapassar meus limites e, como professora, não acredito que tenhamos limites para ensinar. Tendo metodologia de ensino adequada tudo é possível. Hoje sou viciada no momento em que a pessoa se dá conta de que aprendeu a fotografar. É uma adrenalina, é como esporte radical”, analisa a professora, que acredita ter se tornado uma docente de fotojornalismo melhor após o inesperado encontro, em 2012, com a aluna Rúbia Steffens.

Abaixo disponibilizo a participação de Evgen Bavcar no documentário “Janela da Alma”.

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Franceline Arantes

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