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A Fotografia a partir do olhar da Semiótica

No livro “Como ler uma fotografia” o autor Richard Salkeld propõe que […] o próprio aparato da fotografia se oferece como uma metáfora das formas de ver – a câmera oferece um “ponto de vista”, ou seja, a partir das escolhas composicionais o fotografo consegue trazer outros elementos para a foto que vão alem do que está sendo fotografado, assim, valendo-se de todo o seu conhecimento o fotografo não aperta um botão para fazer uma foto, ele desenvolve uma narrativa para criar uma foto. Partindo deste ponto, podemos dizer que a fotografia é então um texto, narra, conta algo, e assim sendo é passível de análise tal qual um texto, principalmente quando pensamos nos métodos de interpretação da semiótica.

A semiótica tem suas origens nos trabalhos linguísticos de Ferdinand de Saussure, nos idos de 1916, sendo talvez seu maior precursor o filósofo norte-americano Charles Sanders Pierce. Nas décadas de 1960 e 1970 a semiótica começou a ter aplicações acadêmicas através das publicações de Roland Barthes, dentre as obras de Barthes algumas abordam a semiótica da fotografia, como os ensaios “Retórica da Imagem” e “A mensagem fotográfica” que são integrantes da obra intitulada no Brasil como “O óbvio e o obtuso: ensaios críticos III” e também o livro “A câmera clara”, este último com uma abordagem mais pessoal.

Para semiótica tudo pode ser analisado a partir do sistema de signos e a relação que se estabelece entre significantes e significados, que são os elementos que compõe o signo. O significante é a forma física, o suporte material, ou seja, uma imagem ou mesmo uma palavra, enquanto que o significado é o conceito, a ideia, a imagem mental que formamos do signo, em outras palavras, a abstração que se forma na nossa mente a cerca do referente.  Podemos tomar como exemplo a seguinte condição, um gato real é chamado de referente, aquilo que o signo representa; as letras G, A, T, O e uma foto de um gato ou mesmo um desenho são o significante, eles são o aparato material que nos permitem chegar ao significado, que nada mais é do que a imagem mental que nós construímos a partir do significante, que vai desde recordar uma determinada raça de gato, uma experiência traumática, um momento de felicidade que tenha sido vivenciada junto ao referencial, no caso o gato, ou mesmo interpretações não tão literais, como quando dizemos “fulano é um gato” ou “tão furtivo quanto um gato”.

Alem de ser constituído por significante e significado, o signo pode ser classificado em três modalidades:

  • Icônico: se assemelha as imagens que representa;
  • Indexico ou indicial: indica algo, tem uma conexão lógica com aquilo que representa, uma relação de causa e efeito, como a fumaça que indica a presença de fogo ou uma pegada indicando que alguém passou por ali;
  • Arbitrário ou simbólico: não há ligação natural entre o significante e o significado, um exemplo são as cores do semáforo, nós concordamos que cada cor indica uma  determinada ação por consenso, em um determinado momento foi definido que vermelho indica pare e verde avançar, porém não existe uma ligação natural entre a cor e a ação, mas sim uma convenção cultural.

Partindo então da apresentação de Salkeld sobre a semiótica, demonstrando que está sugere que tudo pode ser interpretado como um texto inclusive a fotografia, podemos voltar ao mote do primeiro parágrafo que pontua que a fotografia possui uma narrativa própria e então porque não dizer uma gramática que rege esta narrativa, gramática esta que pode ser determinada pela composição, já que cada escolha composicional afeta o resultado final, sendo que é também através da composição fotográfica que começamos a perceber as particularidades do signo, ou seja, em um primeiro momento a fotografia é icônica já que o intuito é fazer uma representação fiel do real, ou seja, é possível reconhecer a cena através da imagem gerada; ela é indicial em duas vertentes, primeiro por estabelecer uma relação com a cena a ser fotografada indicando que para a finalização da imagem foi necessário que a luz entrasse através do sensor respondendo as regulagens definidas para a obtenção do resultado desejado,simplificando, foi necessário um processo particular ao ato de fotografar para que a imagem final pudesse sugir, uma relação de causa e efeito; em um segundo momento, o instante fotografado pode indicar uma ação que aconteceu ou irá acontecer, como o amanhecer, o entardecer, que alguém esteve na cena antes da imagem ser feita, que algo pode desmoronar, ou se pensarmos em fotografias de guerra, que naquele lugar alvejado por projeteis existia uma casa, uma escola, um lugar com pessoas felizes; e a fotografia também pode conter elementos arbitrários quando combinada a palavras, seja através de uma montagem ou legenda, a imagem e a escrita serão dois significantes distintos, sem uma ligação concreta, a não ser porque alguém determinou que as duas complementam-se em um determinado projeto fotográfico ou mesmo em uma fotografia especifica.

Tudo isto nos encaminha a mais dois pontos sobre a análise semiótica da imagem, o que a imagem denota e o que ela conota. O sentido denotativo é o primeiro estágio da leitura da fotografia, é o significado literal, o que está evidente; já o sentido conotativo da fotografia está ligado às ideias que podemos associar a imagem através do que a própria fotografia sugere, é o que está implícito. É possível perceber os sinais conotativos da fotografia através da manipulação icônica da materialidade, que vem a ser a manipulação através de recursos como o Photoshop que permitem alterar de forma drástica uma cena; a escolha das poses, do objeto a ser fotografado, a fotogenia, a estética e até mesmo a diagramação das fotos em um álbum ou  editorial.

Vamos observar algumas fotografias e como podemos identificar os elementos semióticos através de uma rápida análise:

semiótica

  • A fotografia é o suporte para a representação da família real, é o significante icônico e denota uma família;
  • Pode ser indicial se considerarmos que ela indica que esta família está em um momento de lazer e feliz por poder viver este momento;
  • A conotação está implícita através da escolha da pose que esconde em grande parte o vestido escuro da mãe para manter uma harmonia melhor nas cores que tendem para tons mais pastéis; da posição do pai indicando aquele que protege e ao mesmo tempo sinalizando que as duas pessoas por ele envolvidas são o sentido maior da sua vida; da proximidade entre os três que mostra união; do fundo desfocado tem o intuito de não desviar o olhar para além da família conotando a importância da família; na claridade da fotografia que tenta eliminar o máximo de sombras para eliminar a possibilidade de achar que a família não está em um momento feliz; por outro lado, o fato da fotografia ser posada, isto é, eles foram dirigidos, pode também sugerir que felicidade sugerida não é real, mas apenas interpretada, nos remetendo a inexistente família feliz dos comerciais de margarina.

  • Vemos uma pessoa com a cabeça baixa e que está com as mãos apoiadas sobre a mesa, isto é o sentido literal, o que é denotado e esta mesma visualização mostra sua característica icônica;
  • Indica que a pessoa está tendo uma reação a uma ação anterior;
  • Os elementos conotativos nos levam a várias possibilidades interpretativas, é uma fotografia com uma quantidade grande de preto indiciando algo sombrio e oculto na escuridão, a luz evidencia pouco a forma humana, há mais luz nas mãos apoiadas na mesa, que pode ser lido como um indício de que o personagem utilizou as mãos para um ato criminoso, ou que ele não pode usar as mãos para socorrer alguém e a ênfase da luz pode significar um ambiente de arrependimento, vergonha, humilhação; o vermelho que pode ser tanto a cor da felicidade como do perigo e da proibição, nesta foto sugere que algo proibido aconteceu algo que não deveria ter acontecido e a ausência de outros elementos na foto reforçam as possibilidades citadas.