Bebês siameses e a romantização fotográfica 5/5 (3)

Esses bebês não enquadram no quesito de página de revista, e muito menos para serem fotografadas pela parte elitista de fotógrafos. Eles na verdade são apenas estatísticas para grande parte das pessoas, são números, decorrentes na maioria de famílias pobres.

Vem aquela ordinária voz: Afinal o que tenho a ver com a pobreza do outro? Se o outro chora, passa fome, morre não é do meu interesse.

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Assim que estive em Goiânia, no final de julho de 2015, na capital do meu estado, (atualmente moro em Catalão), presenciei uma realidade oposta ao meu trabalho que venho executando nesses dois anos como profissional: bebês, crianças, pais e mães bonitos e sorridentes, comemorando seus meses, anos e outras datas, dignas de fotos para banco de imagens. O contato com as gêmeas siamesas Maria Clara e Maria Eduarda, que aguardam pela cirurgia de separação rendeu uma série fotográfica, ganhando assim destaque mundial.

A fotografia dita social é aquela que eu executei, e quando decidi fotografar as meninas eu pensei em fazer imagens que raramente são apresentadas a sociedade, mas extremamente necessárias. A técnica fotográfica que carrego ficou em último plano. Se for para fazer uma lista de fotógrafos que se mais me influenciam, são: Diane Arbus, Jan Saudek, Gottfried Helnwein e Alain Laboile. Não irei colocar outras influências, é algo perigoso de se assumir, pois depende dos elementos da subjetividade humana, pois existe uma produção, e várias fontes de referências jorrando.

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Acredito que a arte é um meio de mudança, e principalmente na fotografia há propriedades de desenvolver ainda mais sob uma linguagem universal, é uma voz muito forte que vem ganhando mais espaço em nossa contemporaneidade.

A fotografia social a meu ver não necessita de legenda, mas precisa sim de nomes, para não deixarmos que tornem estatísticas, pois existem várias Maria Clara e Maria Eduarda sendo que a fotografia não é ciência, não mesmo, que afasta os seres com pseudônimos para “preservar” a identidade, a fotografia além de tudo tem a função de mostrar, ou mesmo de abrir os olhos, levantar questionamentos: Isso realmente existe! Está bem próximo de você! Quer enxergar? E se o receptor, leitor das imagens, não estiver aberto a tais questões realmente vale apena a exposição?

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É necessário ver, olhar, tentar imaginar situações extremas, a fotografia não tem a necessidade de apresentar belas imagens, e muito menos ser acompanhadas de mensagens mesquinhas de autoajuda. Há uma romatização e um ideal, com isso, quando se fala de fotografia a primeira coisa que vem em mente são belas imagens. O que não pode acontecer é o parasitismo de pensamentos, indagações, e da não aceitação por imagens ditas realistas. Não fomos bem treinados para pensarmos artisticamente, para questionarmos, a educação é falha assim como diversos fatores em nosso país, mas não devemos apenas apontar as falhas e não movermos, o parasitismo é terrível, ele corrói nossa própria carne e a do outro, dia após dia, e faz termos a certeza de várias questões, sendo que a certeza é a criação de vazios no ser humano.

A técnica fotográfica perante o fazer fotográfico social é pequenina, as imagens precisam contar algo, isso de grande importância. Sim, é pesado, lidar com questões que são opostas a nossa convivência e posição na sociedade, quando escolhe ser fotógrafo, lidar com divergências deverá ser levado em conta, aceito.

Deve haver sim uma participação por parte do fotógrafo com as pessoas, mas não um envolvimento. Deve existir uma luta para não chorar com a câmera na mão, deixe para chorar depois, no lar, ou no divã do psicanalista.

Um pouco sobre Maria Clara e Maria Eduarda:

Ao chegar à capital do meu Estado, Goiânia, tive a honra de fotografar as gêmeas siamesas: Maria Clara e Maria Eduarda, que estavam com dois meses de vida e aguardam pela cirurgia de separação (não existe uma data definida, até o fechamento deste artigo), que ocorrerá no Hospital Materno Infantil (HMI) em Goiânia.

A família das meninas é de origem pobre, e vem de Salvador, capital da Bahia, Maria Clara e Maria Eduarda são unidas pelo abdômen e compartilham o fígado.

As fotos foram realizadas na Casa do Interior de Goiás que é mantida pela Organização das Voluntárias de Goiás (OVG), um local que acolhe pessoas para fins de saúde.

Pequena nota sobre equipamentos e técnica fotográfica:

As fotos foram feitas com uma câmera Nikon D750 e uma lente AF-S NIKKOR 50mm f/1.8G como a intenção era preservar ao máximo a realidade, eu utilizei o flash Nikon SB-910 (apenas na última fotos, desta galeria, quando as meninas estavam deitadas na cama com o vestido), a luz era natural, vinda de uma janela grande, juntamente com a luz ambiente de lâmpadas fluorescentes.

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Mateus André

Mateus André faz da fotografia sua arte e profissão, é também formado em Letras pela Universidade Federal de Goiás e atualmente mora em Catalão/GO.

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