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O que é uma boa fotografia? 5/5 (3)

Essa é a primeira pergunta que faço aos alunos do meu curso básico de fotografia. Uso-a com o intuito de provocar um primeiro diálogo, de forma que os alunos possam se conhecer e eu a eles.

Mas o principal objetivo vai muito além disso. Essa questão, que de início parece ser simples, acaba normalmente por gerar um debate acirrado e isso, de certa forma, surpreende os alunos.

Normalmente, tem-se a ideia de que uma boa fotografia esteja associada a uma bela fotografia. Ou seja, que uma boa fotografia deve ser dotada de algum padrão estético e atender à esta ou àquela regra de composição. Tem-se também a ideia de que deve ser bem resolvida tecnicamente, tendo uma boa exposição, nitidez e com o assunto principal bem definido e em foco.

O problema é que quando começamos a expandir o conceito do que podemos considerar como sendo uma “boa fotografia” começamos a encontrar uma série de justificativas que nos levam a abrir o nosso horizonte em relação a esse conceito. E aí sim, começa a desconstrução do conceito trivial, acadêmico e superficial daquilo que pode ser considerado como sendo uma boa fotografia.

Soldado Dia D - Robert Capa

Uma boa foto deve ser uma bela foto?

Bom, depois de trocar algumas ideias, começamos a expandir o conceito de “boa foto” e ver que ele começa a se desligar de alguns aspectos estéticos pré-estabelecidos. O conceito de “boa foto” começa a assumir uma conotação mais ampla, subjetiva e interligada à sua área, ao seu objetivo ou simplesmente relacionada à situação que culminou com sua criação.

Em outras palavras, o status de boa foto deve ser relativizado, considerando-se principalmente fatores intrínsecos e inerentes àquela fotografia e ao contexto do que propriamente ser definido por alguma regra ou norma preestabelecida.

Assim, parâmetros, regras e normas não tem, por si só, condições de atribuir ou destituir uma fotografia do seu status de “boa foto”. É necessário todo um contexto para que se possa fazer a qualificação de forma correta.

Para ser considerada boa, é suficiente que uma fotografia passe a mensagem proposta?

Nesse ponto, somos tentados a dizer que sim. Ou seja, se uma fotografia cumpre o seu “dever” ela pode ser considerada boa. No entanto, devemos ter cautela porque não é assim que as coisas funcionam no dia-a-dia. O que ocorre na maioria das vezes é a tipificação, a descontextualização ou, poderíamos ainda dizer, a interpretação selvagem daquilo que se nos apresenta.

Quanto mais entendemos de um assunto, mais temos tendência a interpretar o que nos é apresentado de forma racional. Ou seja, não deixamos espaço para as sensações. Não conseguimos ver ou sentir da mesma forma como um leigo faria. E aí fica a questão: Quanto será que estamos perdendo com isso?

No caso de fotografias e imagens, pergunto-me: Não seria interessante fazermos uma primeira leitura de uma foto de forma apenas sensorial. Ou seja, tentar captar numa primeira abordagem a essência da imagem e a mensagem do autor, sem racionalizações. Deixar pra lá a exposição, o brilho, o foco e tantos outros detalhes técnicos. Não é isso que um leigo faz quando aprecia uma fotografia?

Essa prática é muito interessante, no entanto, há momentos em que teremos que decidir por esta ou aquela imagem. É isso que normalmente acontece no meio profissional. É com isso que convivemos no nosso dia-a-dia. Um exemplo é a não tão simples tarefa de escolher as melhores fotos feitas por nós mesmos para mostrar a um cliente. Isso é um verdadeiro exercício de desprendimento. Quantas vezes nos deparamos com várias fotos que fizemos e temos que escolher apenas uma? Que parâmetros usamos para julgar o nosso próprio trabalho?

Cada um enxerga com os próprios olhos

Sim, cada um enxerga com os seus olhos, e isso significa dizer que quando olhamos para uma fotografia vemos muito mais do que um simples conjunto de formas, luzes, sombras e cores. Vemos nossas lembranças, nosso passado, nossos anseios, nossos desejos e nossos medos. A visão e o sentimento que temos sempre será influenciado pela nossa experiência de vida.

Ainda que queiramos ser imparciais, técnicos, racionais, nossa subjetividade sempre estará presente no nosso julgamento. Trata-se de um processo inconsciente.

O equilíbrio

Podemos dizer que se ampliarmos a definição do que pode ser considerado uma boa fotografia, entraremos numa área totalmente subjetiva, onde, aos olhos de alguém, uma foto sempre poderá ser considerada boa. Esse viés não nos dá parâmetros suficientes para comparar duas fotografias, mas no meio profissional é isso que se espera, é isso que se faz: comparar imagens e escolher as melhores.

E o que acontece é que, de um lado temos o mercado com seus padrões estabelecidos, exigindo daqueles que querem ocupar um lugar ao Sol a sua total adaptação.

Por outro lado, temos a subjetividade que abre espaço para que qualquer imagem obtenha o status de “boa fotografia” posto que transfere essa responsabilidade ou competência ao indivíduo observador.

Assim, se levamos para o nosso dia-a-dia o automatismo interpretativo e a necessidade de estabelecer rótulos – práticas essas, inerentes ao campo mercadológico –  estaremos certamente perdendo muito de tudo aquilo que as imagens podem nos mostrar. E se ao atuarmos no mercado, não tivermos objetividade e conhecimento de seus padrões, estaremos fadados ao isolamento e ao fracasso. Salvo, evidentemente, aquelas situações onde a genialidade vem quebrar os paradigmas atuais estabelecendo novos conceitos, caminhos e diretrizes.

Talvez o melhor caminho seja o do meio, ou seja, agirmos com equilíbrio, consciência e torcermos para que saibamos discernir a ora de interpretar da hora de sentir.

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A foto que ilustra o artigo é do fotógrafo Robert Capa. Ela foi feita feita logo após ele ter desembarcado em uma praia da Normandia junto com tropas da infantaria norte americana.

Apesar dela estar toda tremida, com perda de detalhes em diversas áreas devido ao alto contraste, ela retrata bem a agonia e o risco do momento. Talvez, se fosse uma foto perfeita tecnicamente, não teria tanta dramaticidade.

Agora que leu, avalie o artigo e deixe um comentário mais abaixo:

Gosta de algum dos artigos abaixo?

  • Beatriz Harumi

    Hoje parei para ler os artigos do site. Achei bem interessante esse artigo, acho que um boa foto tem que passar sua mensagem antes de entrar nos conceitos, pode quebrar algumas regras porém transmitiu a mensagem, como a foto do Robert.

  • Gilmar Fernando

    O texto é lúdico, repetitivo e chato. Uma fotografia deve agradar aos olhos e atender a expectativa visual de quem a confecciona, observa ou contrata, simples assim. A foto que ilustra o texto com certeza é importante e histórica. O fotógrafo fez o melhor que pode naquele momento, é o que temos. Mas dizer que a foto ficou boa!? Tenho um amigo que faz fotos desfocadas, ele gosta, acha que é arte. Eu acho uma droga, mas entendo que deve haver espaço para a criatividade mas é preciso ter cuidado com exageros e isso deve partir do indivíduo. O professor deve se preocupar em ensinar a técnica. Cabe ao indivíduo ser criativo e desenvolver sua arte.

    • O artigo tenta justamente relativizar o conceito de boa fotografia, separando-o do conceito de bela fotografia e também dos padrões técnicos. Como eu disse, uma foto ainda que esteticamente ruim ou cheia de problemas técnicos, pode rodar o mundo na capa de uma revista ou nas redes sociais. Pode não ser bela, mas se cumpre seu caráter informativo, mostrando aos leitores, por exemplo, um determinado fato ocorrido, foi então, ao seu modo boa. Boa para os leitores, boa para os editores e boa para o fotógrafo que teve sua foto escolhida e publicada.
      Ensinar a técnica é fácil e é algo que faço em poucas aulas. Ou seja, ensinar a "tirar foto" é fácil. Ensinar a "olhar" é outra coisa. Esta última não se consegue tão facilmente. Tenho certeza que há vários cursos por aí que ensinam somente a técnica e não há diferencial algum entre eles. Ainda bem que existem pessoas interessadas em algo mais.
      Quanto às fotos do seu amigo, pode ser que um dia ele seja convidado à expô-las porque elas agradaram a algum curador. Fazer o que? É isso. É arte. Alguns gostam, outros não. E às vezes não gostam porque não entendem. Ficam tão presos aos parâmetros e regras de mercado que não conseguem respeitar o gosto e o olhar dos outros.
      Mas o artigo é pra isso mesmo, tentar quebrar os estigmas atuais. Tentar pontuar que além da fotografia técnica e profissional existe a fotografia arte. Quem mexe com arte fotográfica sabe muito bem como é transitar pela tênue linha que separa o genial do ridículo.

  • Aldenilson

    Para mim uma foto boa é aquela que eu gostei e o cliente também.

  • Paulo Camargo

    Olá, posso deixar uma contribuição: http://revedemode.com.br/dedo-no-olho/
    abraços

  • Oportuna contribuição, Paulo. Seu artigo é excelente!

  • No caso da fotografia, especificamente, o que podemos chamar de composição geométrica é aquela que fala sobre a disposição dos elementos no quadro fotográfico. A palavra "compor" significa "colocar junto", mas não de qualquer forma. A composição, ou seja, a disposição dos elementos no quadro, deve ser harmônica e agradável. Deve valorizar o assunto e propiciar a quem olha uma leitura simples e objetiva de forma que se possa entender a mensagem do autor.
    Para isso, existem algumas regrinhas que devem ser conhecidas, estudadas e aplicadas quando for o caso.
    Isso não quer dizer que você deve seguir essas regras de olhos fechados. Pelo contrário, a genialidade às vezes aparece com a quebra das regras e conceitos tidos como pilares.
    Tive um professor que dizia: "É muito tênue o limite entre o sublime e o ridículo".
    Então, estude e aprenda as regras. Subverta-as quando achar que deve, mas faça isso sempre intencionalmente, com consciência e com cuidado.

  • aLESSANDRA

    O QUE É CHAMADO DE BOA COMPOSIÇÃO? PERGUNTA DE LEIGA QUE APRECIA A ARTE FOTOGRÁFICA.

  • O que define uma boa fotografia é:

    Composição Forte

    Luz Atraente

    Tema Interessante

  • Concordo com você Agostinho, embora a composição nem sempre possa ser executada de forma planejada pelo fotógrafo. No caso da foto de Robert Capa, ele não teve tempo de pensar em enquadramento. Ou seja, foi o que deu pra fazer.
    Penso também no caso de uma criança, que passeando em Nova York com uma câmera na mão, fotografa um corpo caindo das torres do World Trade Center no 11 de setembro. Pode ser que essa foto, ainda que com problemas técnicos ou de composição, venha a correr o mundo.

  • Márcia Helena

    Bom Dia, considero que uma boa fotografia primeiramente deve priorizar a composição e o que o fotógrafo quis mostrar com aquela fotografia; mas na hora de fotografar luz, foco independente de tratamento também são muito importantes. Como sou iniciante nesta arte, tenho esse pensamento.

  • Barbara Emilly

    Um bom conceito, considerando que se tratarmos a fotografia também como uma arte, é justo não nos prendermos ao padrão e usar a criatividade para dar mais ênfase ao momento retratado, como fez o fotógrafo Robert Capa, da fotografia que ilustra o artigo.

    • aldir

      concordo com sua opinião,mas nem tudo pode ser elementar uma boa focagem e uma leitura da luz vai valorizar a foto.

  • Numa foto o mais importante é a composição da mesma o restante é elementar e pode ser conseguido através de sistemas automáticos de focagem e de leitura da luz.

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