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Um tema delicado – Entrevista com a fotógrafa Claire Jean

Um dos primeiros fotógrafos em dedicar-se nu foi Félix-Jacques Moulin, quem em 1849, vivendo no bairro parisiense de Montmartre, começou a produzir daguerreótipos de senhoritas jovens em diversas poses.

Hoje, após mais de um século e meio, uma fotógrafa francesa que adotou o Brasil desde a década de 80 está produzindo fotografias de nu artístico com uma qualidade excepcional. Claire Jean fotografa seus modelos sempre ao ar livre e de preferência junto à natureza. É uma fotografia de nu artístico que foge aos antigos conceitos de luz e sombra realizados em estúdio para esse tema.

Nu Artístico

 o fim do mundo 2012 – by Claire Jean

O nu é um tema em que muitos iniciantes na arte fotográfica sonham em se especializar, mas nem sempre tratam o tema com o respeito e sensibilidade que merece. Fotografar o nu artístico nunca foi e nunca será uma tarefa fácil. Entre o erótico e o vulgar, existe uma linha extremamente tênue e por isso, merece todo o cuidado.

A fotografia de nu abrange subcategorias distintas. Nus clássicos e acadêmicos. Nus sensuais e eróticos. O que os distingue é a intenção do artista e a forma como realiza suas obras.

As fotos de Claire Jean formam um conjunto de trabalhos em que ela sempre utiliza o corpo humano para contar uma história ou expressar uma angustia, uma critica ou um desejo. Tudo isso sem a questão do nu pelo nu, e sim o corpo inserido em um contexto artístico e antropológico.

abortion – by Claire Jean

abortion – by Claire Jean

Leia abaixo uma breve entrevista com Claire Jean. *

Erico Mabellini – Quando você começou a fotografar?

Claire Jean – Comecei a fotografar há 10 anos com uma câmera compacta e logo senti a necessidade de evoluir para um equipamento com mais recursos que me permitissem experimentar a criatividade. A partir daí, foi um caminho de pesquisa pessoal para achar um estilo que traduzisse meu universo de sensibilidade e meu objetivo: mostrar a integração do corpo humano em harmonia com a natureza, explorar a Beleza e convidar a humanidade para um esforço de preservação do Planeta.

E.M. –  Qual a sua formação?

Claire Jean –Minha formação passou por estudos de Bioquímica na Universidade de Strasbourg, onde trabalhei num laboratório de genética. Em paralelo, como hobby, fiz um BTS em Artes Plásticas, por correio, onde as cores e formas se impregnaram em minha retina.

E.M. – Quando chegou ao Brasil?

Claire Jean –Cheguei ao Brasil em 1980, morando numa fazenda, trabalhando no assessoramento em biotecnologia e me encantando com este pais.

E.M. – Por que a escolha do nu?

Claire Jean –O corpo humano sempre me fascinou pela diversidade de expressão. A roupa, vejo como um elemento artificial criado pelas sociedades. Sem a roupa, o corpo se revela em sua totalidade. Minha busca na imagem não se direciona para o corpo padrão ou modelo, seja de vitrine ou magazine. Não tenho preferência por gênero, idade, etnia ou corpulência, mas procuro revelar a personalidade do corpo presente através do meu trabalho. A nudez para mim é totalmente natural, talvez pela minha cultura original, qualquer parte do corpo se revela em sua beleza particular, um seio ou uma orelha merecem o mesmo olhar, nada me causa estranheza, tudo é visto com ênfase na estética. Como técnica, escolho a aplicação das cores e elementos da natureza no corpo, o que me permite explorar aspectos plásticos inovadores. O corpo vira tela e a tela incorpora o cenário.

E.M. – Por que as fotos são sempre feitas outdoor?

Claire Jean –Os ensaios sempre acontecem ao ar livre, porque a luz natural me fascina e fico sempre procurando lugares impactantes da natureza que vão dar ênfase aos corpos. Minha intenção é que o olhar do observador viaje entre o humano e a natureza, sublimando os dois.

E.M. – Suas fotos parecem sempre contar uma história ou realizar uma crítica. Isso é verdade? O que mais poderia dizer a esse respeito?

Claire Jean –Na verdade, os ensaios são bem diversos, às vezes saio com uma ideia na cabeça, um tema, como o racismo, o aborto, a morte, o nascimento, a existência, a diversidade sexual e neste caso posso estar contando uma historia no conjunto do trabalho, ou expressando uma critica social, instigada por situações polêmicas no mundo atual; mas às vezes me deixo inspirar pelo lugar, adornando os corpos com texturas, artefatos encontrados – cascas e galhos de arvores, pedras, folhas, flores, etc. Neste caso, a estética prevalece e pode não haver um tema especifico, mas uma integração em harmonia com a natureza.

E.M. – Prefere P&B ou Cor? Por quê?

Claire Jean –Este é um dos dilemas permanentes: trabalho sempre com cores vibrantes, adoro cores, quero colorir o mundo. De outro lado, a emoção provocada pelo p & b é muito forte e toca fundo em meu peito. Portanto o dilema continua!

E.M. – Quais são as suas expectativas de mercado para a arte de fotografia conceitual no Brasil e no mundo?

Claire Jean –Somente nos últimos tempos percebo que preciso muito vender meu trabalho para que ele se sustente, e eu possa aprofundar os estudos e pesquisas, que são caros. A fotografia nem sempre é reconhecida como produto artístico. Há espaço para a fotografia conceitual, no mundo, mas não entrei ainda neste mercado, embora seja esta minha meta nos próximos anos.

E.M. – Seu trabalho parece ter um pouco de inspiração no dramaturgo José Celso Martinez Corrêa do Teatro Oficina. Você tem ou teve algum contato com o trabalho do Zé Celso?

Claire Jean –Entrei no Teatro Oficina de Zé Celso, um dia, querendo fotografar o espetáculo “A Macumba Antropófaga”, e desde então me apaixonei pelo trabalho, onde todos ficam sem roupa e eu mesma fui despida, como também o publico. Foi uma experiência inédita com um trabalho teatral no palco. Na verdade, o trabalho de Zé Celso coincide com minha visão de arte e criação, à qual me integrei ao fotografar os atores em cena. Esta integração ao Oficina teve o generoso acolhimento do diretor Zé Celso, e continuo interagindo com o grupo em eventos os mais diversos, com abundância de satisfação mutua.

* Entrevista realizada via e-mail, pois a fotógrafa (residente em São Paulo/SP) encontrava-se em Recife/PE em busca de novas locações para seu trabalho.

“O nu é o melhor figurino”

Na simbologia do corpo, a imagem do nu pode representar uma forma de arte, um fetiche, um objeto sexual, um simples registro de beleza. E dentre todas essas simbologias Claire encontra algo especial, uma simbologia que só o corpo humano desnudo pode fazer aflorar.

O nu é o melhor figurino

 la nature et les hommes en harmonie – by Claire Jean

Nestas ultima décadas o corpo foi vulgarizado e banalizado, no entanto não perdeu, e nunca perderá o encanto, a nudez na fotografia revela, instiga, seduz e ainda é culturalmente um tabu. Claire procura quebrar esse tabu.

Pode-se “afirmar” que através do verdadeiro nu artístico, é possível uma representação “sensual” e “não sexual” do corpo humano onde reflita a beleza da obra mais perfeita de Deus. Nas obras de Claire as obras divinas se mesclam: ser humano, natureza e espirito.

Zé Celso Martinez Corrêa, o mais antropofágico diretor e ator do teatro brasileiro, disse em uma folclórica declaração “o nu é o melhor figurino”.

Para conhecer mais o trabalho de Claire Jean acesse os links abaixo:

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Erico Mabellini

Erico Mabellini, com mais de trinta anos de experiência como fotógrafo, trabalhou nas mais diversas áreas: moda, fotojornalismo, publicidade, eventos, documental.... É também jornalista e graduado em Direito, com especialização em Direito Autoral e Direito Ambiental. Leciona Fotografia e História do Direito. Fundador a editor da ONG Tribuna Animal, atualmente dedica-se à fotografia de animais e natureza.

3 Comentários

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  • Olá Luciano.

    É isso mesmo, repito aqui as palavras da entrevistada: "A roupa, vejo como um elemento artificial criado pelas sociedades. Sem a roupa, o corpo se revela em sua totalidade."

    Obrigado pelo comentário.

    Erico Mabellini

  • este é um tema muito apaixonante na area de fotografia,mas por muitos é tido como um tabu intransponivel.
    pois acreditam que o nu artistico é algo sujo e pecaminoso;pois não é nada disso.

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