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Crítica pela crítica ou escambo de elogios?

Na semana passada, dois pequenos diálogos dispararam insights para escrever um pequeno texto sobre a cultura dos comentários fotográficos na internet.

Na primeira situação, meu amigo e fotógrafo Almir Jr (www.almirjr.com), com quem colaboro eventualmente como assistente, após uma tarde de bate-papo em um Café, guloseimas e diversos assuntos que não necessariamente envolvem a fotografia, ao se despedir, comentando repercussão de meu mais recente ensaio disse: “Não leve tão a sério o flickr, se você acreditar em tudo que dizem a você ali…”. E eu concordei dizendo: “Verdade Almir, o flickr é uma espécie de troca de elogios gratuitos.”. Fiquei a pensar nisso durante a semana.

Outro diálogo, ocorrido em MSN, gerou uma colocação minha no Twitter bem comentada. Um colega iniciando na fotografia, me aborda no MSN e pergunta: Você conhece o “Fulano de tal”? E eu disse: “Sim, conheço pessoalmente, contemporâneo meu, também clica ensaios, em estúdio e em externa, tem um destaque em nossa cidade, faz um bom trabalho”. Ao que recebi a resposta do colega: “Não gostei das fotos dele nesse trabalho, achei muito repetitivo, sem graça e tal.” Não gostei do tom da crítica gratuita e disse a ele que é excessivamente crítico, que nunca gosta de nada, e acrescentei que eu valorizo o trabalho da pessoa citada, pois eu sei como é difícil fazer aquilo ali. Perguntei se ele faz igual ou melhor para poder criticar, e ele disse que não faz melhor porque não faz esse tipo de foto. Fim de dialogo com o que eu citei no  Twitter: “Não critique o trabalho de um fotógrafo se você nunca fez ou não faz fotos no estilo dele, é critica pela crítica.

O primeiro caso me lembrou de um conceito que aprendi na escola, nos livros de História. Antes da criação da moeda, a economia girava em torno de um sistema de trocas, o “escambo”. Assim, no sistema de escambo, quem produzia farinha trocava parte de sua produção com quem criava animais, que por sua vez já teria trocado parte de seus animais por quem cultivava temperos, que já havia trocado com quem produzia vasos de cerâmica, que por sua vez já tinha trocado um vaso por aquele primeiro cidadão, o produtor de farinha. Assim, na base da troca, cada um saia mais ou menos satisfeito depois das trocas. Mas o que isso tem a ver com fotografia? Nada? Tudo!

Percebi sempre a natureza de certos comentários em minhas fotos e nas fotos alheias no flickr. Notei uma enxurrada de comentários do tipo: “Adorei a foto”, “Bom clique”, “Luz legal”, “Gostei da definição”, “Ficaram lindas as cores”, etc etc etc. E onde entra o escambo? Muitos dos elogiados, se sentem impelidos a entrar na galeria do fotógrafo que o elogiou e comentar, o que em uma política de boa vizinhança, indica elogiar o trabalho de quem te elogiou, mantendo a cadeia de reciprocidade, de troca de elogios nem sempre sinceros, muitas vezes vazios.

Em que os exemplos de comentários acima ajudam a melhorar minha técnica e meu olhar? Acho que era a isso que o Almir se referia, ao velho e sábio entendimento de que aprendemos mais com as criticas do que com os elogios. Elogios estes que muitas vezes nublam nossa visão, inflam nosso ego e nos impedem de seguir adiante na busca da melhor foto, que deve ser sempre o próximo clique, e não o que passou.

Mas então, não devemos comentar no flickr, olhares, multiply? Não devemos elogiar o trabalho de colegas? Não, não é isso! Não me entenda mal. Eu mesmo elogio meus colegas, observo o trabalho deles, faço contatos com fotógrafos com quem me identifico, tiro dúvidas, troco experiências, discuto técnicas e idéias, cresço muito mais com o dialogo com eles, do que com o que eu leio sozinho. Na minha opinião esse é o poder do flickr e de comunidades de fotógrafos, congregar interesses comuns, e não ser a vitrine do ego e a arvore frondosa onde colher os fartos frutos dos elogios.

Quando comentamos, temos que elogiar sim, pois incentivo é necessário, ninguém clica só pra si, todos precisam de feedback, mas busquemos nos colocar no lugar daquele fotógrafo e pensar: “Como eu faria essa foto? Como eu aproveitaria essa luz? Onde eu colocaria esse flash? Será que fechar mais a abertura ajudaria? Será que menos velocidade aproveitaria mais a luz ambiente? Será que saturando mais ou menos a foto ganharia um clima legal? Um ângulo mais baixo daria um outro clima? Esse olhar da modelo está de acordo com o contexto do ensaio? Etc etc etc”. Há muito o que se pensar, e diversas formas de comentar a foto como uma forma de contribuir para o trabalho do outro, propiciando a ele alternativas que talvez nem tenha vislumbrado. Com isso não só o autor da foto comentada ganha, nós também ganhamos pois ao pensar nas possibilidades, você treina sua mente e talvez perceba coisas que nunca havia pensado, situações com as quais pode se deparar diante de sua câmera no dia de amanhã e já terá uma idéia de como agir.

Dessa forma, vejo que é possível elogiar sem ser vazio, e criticar sem ser leviano, contribuindo para a melhoria do outro. Há esperanças de comentários de qualidade na internet, em redutos como a sala “Foto-Crítica” do Digifórum, a comunidade “Comente a foto” no Orkut e ainda o grupo “Crítica Fotográfica” do Flickr, entre outros.

Para concluir, voltemos ao segundo diálogo, das críticas gratuitas. Bem sei que ninguém agrada a todos, sempre encontraremos criticas, e raramente gostamos do trabalho de todo mundo. Não podemos ser hipócritas e dizer que tudo é lindo, mas também não podemos sair por ai criticando por criticar o trabalho dos outros, ainda mais se nunca fizemos algo naquele estilo. Você faria diferente? Faria melhor? Então sugira, colabore, indique caminhos, não critique por criticar, senão ao final estará sozinho, considerado antipático. Na minha opinião, ninguém vence sozinho nesse mundo tão interligado.

Almir Jr é um exímio crítico de meu trabalho, costuma sentar junto comigo e criticar foto por foto de cada ensaio meu, quanto à luz, técnica, edição, idéia e direção dos modelos. Raramente recebo um elogio dele, e o agradeço por isso. Nem sempre é fácil ouvir todas as criticas, requer um preparo psicológico, mas ao menos nunca saí de uma conversa com ele do mesmo jeito que entrei, sempre melhorei um pouquinho em algo, mesmo em coisas que nunca tenha reparado até ele criticar. Ele me empurra pra frente mais com suas criticas do que com seus poucos elogios, e eu cresço muito mais com elas que com os elogios vazios do flickr. Isso não é critica pela crítica e sim critica com objetivo e muda a vida das pessoas.

Quando formos fazer um comentário ou crítica espero que lembremos de tais questões. Eu gosto de ditados populares e um deles diz: “Cuide para que suas palavras sejam melhores que o seu silêncio.

Boas criticas a todos, e bons cliques, claro!

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Igor Fraga

Igor Fraga, é Brasileiro, de Feira de Santana-Bahia, 29 anos, Contador de formação, servidor público e professor universitário. Sua atuação em fotografia se divide entre a realização de ensaios pessoais com toques de moda e uso de flashes disparados remotamente e a fotografia documental ao lado dos membros do Feira Foto Clube, fotoclube que criou em sua cidade.


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