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Fotografias, será que a grande questão é seu preço?

Quem ler esse título provavelmente achará que vou discutir o tão aclamado assunto “Preço”, mas a ideia é um pouco mais abrangente, que vou expor para todos a partir de agora.

Fotografias, será que a grande questão é seu preço

Desde o surgimento dessa arte chamada fotografia ela sempre esteve envolvida em questões polémicas, a primeira delas foi se aquilo realmente era real! Uma imagem congelada no tempo retratando um certo momento, um conceito novo e muito questionado, a fotografia era mais uma experimentação química e física de cientistas do que uma arte propriamente dita.

Talvez a segunda grande questão se deve ao fato das primeiras fotografias não terem uma qualidade satisfatória, não para ser considerada uma arte que acabava de surgir, porque em 1840 haviam excelentes pintores que podiam retratar pessoas e paisagens com uma riqueza de detalhes e perfeição que a nova arte (fotografia) parecia ser realmente um experimento quase infantil, lembrando que vários pintores também já utilizavam a câmara escura para criar suas obras. E nem por isso a fotografia deixou de existir, ela continuou seu caminho mesmo com vários artistas e nobres duvidando da sua subsistência.

É nesse momento, que começam os movimentos (que podemos definir também como fazes, ou tendências), que foram vários, dos quais quero destacar o Pictorialismo.

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Pictorialismo (1890-1915) – Nesse movimento a fotografia busca referencias nas obras dos maiores pintores da época, essa foi a resposta à crise que a fotografia atravessou 50 anos após sua invenção, isso mesmo crise! A questão era, pintar ou fotografar? Paradoxalmente essa crise ocorre no auge da indústria fotográfica, onde o aprimoramento da arte estava em velocidade acelerada, mudando formas e maneiras de se obter o registro fotográfico. Deixando alguns artistas (fotógrafos) da época sentindo a pressão da evolução, a indústria aparece com lentes mais precisas, equipamentos cada vez menores e emulsões cada vez mais rápidas, e quem não acompanhou esse movimento acabou ficando para trás.

O Pictorialismo negava essa visão moderna, e dizia-se fazer parte de um movimento de pintores antigos, (de onde surge a expressão artística de pintar com luz).

Um dado bem interessante sobre essa época é que, entre 1850 a 1860, muitos artistas fotógrafos que eram atuantes e muito bem reconhecidos por seus trabalhos, simplesmente desapareceram. Isso mesmo em apenas 10 anos alguns voltaram as suas profissões de origem e outros não se teve mais qualquer notícia.

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O assunto sobre o movimento Pictorialista é extenso e muito atual, foi nele que se inicia a manipulação da imagem, com correções de horizontes, aumento de contraste e troca de fundos, todos realizados em laboratório. Hoje fazemos as mesmas correções com software de edição de imagem, ou não, dependendo de cada trabalho. E mesmo depois de tantos anos ainda tem gente que discute se a manipulação de imagens é um ato correto ou não, isso nos mostra a dificuldade de encararmos novas questões, mesmo quando estas, tem mais de 100 anos!

Show da cantora israelita Noa, no Rio de Janeiro - Foto feita em velocidade baixa, com puxada de zoom, não há edições.  Credito: Ale Silva
Show da cantora israelita Noa, no Rio de Janeiro – Foto feita em velocidade baixa, com puxada de zoom, não há edições. Credito: Ale Silva

Sei que muita gente não gosta de estudar a história da fotografia, preferem a parte pratica e dinâmica do ato de fotografar, mas fique atento ao passado, nele existem muitas referências que podem ser de vital importância para o aprimoramento e identificação de novos movimentos, por exemplo hoje a fotografia novamente atravessa uma outra crise, muitos acreditam que é uma questão de preços baixos praticados, muita gente no mercado, e por conta das fotos serem feitas com celulares e etc. Basicamente ouvimos sempre a mesma indagação “preços baixos”, mas, será mesmo essa a grande questão?

kodakTentando ver o futuro da história da fotografia para entender em qual movimento estamos, me parece que seria o movimento da “Popularização de fato” da fotografia, onde daqui a alguns anos quem não souber sobre composição, regras dos terços, teoria das cores e triangulo de exposição poderá ser considerado um analfabeto visual. Sei que é uma visão drástica, mas a tendência ao longo desses anos mostra-se cada vez mais seguir nesse caminho. Hoje qualquer pessoa tem acesso a fotografia, independente da sua renda ou faixa etária, vemos um crescente número de crianças que possuem smartphones com câmeras, e elas fotografam tudo que veem.

Então eu pergunto, será que no passado quando a Kodak em 1888 lançou a primeira câmera fotográfica portátil para 100 exposições ao preço de 25 dólares, os profissionais que estavam no mercado de fotografia da época não sofreram com queda de preços, e com o aumento de fotógrafos no mercado? Ou quando a mesma Kodak lançou o primeiro protótipo digital em 1975 mudando o conceito da revelação fotográfica. Hoje nem mesmo a Kodak está no mercado como fabricante de máquinas fotográficas, a empresa apostou que após a crise da era digital as pessoas levariam seus cartões de memória aos laboratórios para revelar suas fotos, o que não aconteceu, e esse seguimento foi o primeiro a sofrer com a nova era digital.

Steve Sasson inventor da primeira máquina                          fotográfica digital – Creditos: Kodak
Steve Sasson inventor da primeira máquina
fotográfica digital – Creditos: Kodak

O que nos leva a ver que o preço não é o grande fator nesse campo, e me parece também que não irá acabar com outras profissões como ouvimos falar o tempo todo, algumas sofrem mais que outras, mas mesmo os laboratórios que tinham tudo para deixar de existir hoje trabalham com segmentos de mercado onde cada foto podem valer mais de R$ 1.500,00 (caso do Fine Art), fazendo impressões e atendimentos personalizados para os fotógrafos profissionais.

Quantos fotógrafos de um passado recente deixaram a fotografia? Ou quantos fotógrafos com mais de 30 anos de profissão ainda continuam fotografando? Existem respostas para essas duas questões e sempre vão existir, provavelmente com uma diferença entre os dois números, mais sim, é possível sobreviver a essas crises, como fazer isso que é a grande questão, e já adianto não existe formula secreta, o que podemos fazer é analisar a situação atual e tomar decisões e mesmo assim não temos garantias de atingir o resultado esperado.

A única coisa clara que perceberemos observando crises passadas é que, quem ficou parado reclamando das situações que mudavam rapidamente a sua frente, acabaram desaparecendo do mercado e novos fotógrafos surgiram em cena com novas propostas de trabalho.

O ato de estudar fotografia vai muito além de apenas aprender como fazer fotos, já que em sua história podemos ver todas as crises e empasses desde a sua criação. O que passamos hoje foi vivido por várias outras pessoas no passado, claro que cada um com seu presente e tecnologia disponível para época, mas a fotografia sempre resistiu e se transformou por conta dessas mudanças, tornando-se cada vez mais atual e presente na vida das pessoas. Por isso podemos afirmar que não é o fim, e sim um novo começo, talvez esse nosso momento seja mais um movimento que será estudado por gerações futuras.

O importante então torna-se as nossas próprias decisões e escolhas dentro do universo fotográfico, e não o preço daquilo que estamos fazendo a certo tempo, por falar em tempo, acredito ser esse o “X” da questão, hoje tudo muda em uma velocidade muito alta, não é possível pensar que podemos fazer a mesma coisa do mesmo jeito por mais de 5 anos (o que chamo de ciclo de trabalho), acredito de devemos aprender ter uma gama de estratégias onde vamos adequando-as de 2 em 2 anos, assim seria possível se manter relativamente estável por mais de um ciclo de trabalho (5 anos). Mas, repare que na história da fotografia os movimentos seguem em média um padrão de 10 anos entre uma fase e outra.

Será que essa estratégia pode funcionar? Realmente não dá para responder, mas ficar esperando as coisas voltarem a ser como eram, não parece ser o mais sensato a fazer.

Manter-se em constante movimento, buscando uma aprendizagem pode não ser 100% eficaz, mas garante o aperfeiçoamento profissional, o que já é uma grande conquista!

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Gostaria de escrever sobre outros movimentos como Fotografia Surrealista, Fotografia Encenada, de Imprensa, onde dentro desses temas cada um teve seu momento de auge e também de crises, mas são muitos assuntos e com características próprias, por isso é melhor deixá-los para uma próxima oportunidade.

Agora que leu, avalie o artigo e deixe um comentário mais abaixo:

Ale Silva

Paulistano nascido na Bela Vista, vive no Rio de Janeiro. Fotojornalista desde 2011, cobrindo os principais acontecimentos na cidade do Rio de Janeiro, bem como fatos ocorridos no interior e em outros estados. Tem material publicado em diversos veículos de comunicação impresso e online no Brasil e exterior. Instrutor de fotografia em curso profissionalizante para jovens.

18 Comentários

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    • Marcus, quando trocamos informações aprendemos todos, eu agradeço seu comentário por isso, sou um simples mortal assim como todos os outros. Que bom ser assim, porque também tenho muito ainda para aprender!
      Então, aproveitaremos essa oportunidade juntos.
      Um abraço.

  • Como dizem, a história se repete. O artigo nos faz lembrar isso. Vale a pena parar para ler e pensar a respeito. Uma revisão ortográfica o deixaria ainda melhor.

    • Ecoclics, peço desculpas, assim que saiu a publicação identifiquei os problemas, prometo mais atenção e dedicação nos próximos textos. Agradeço seu comentário.

  • Alê, parabéns pelo artigo! Também atuo na área fotográfia desde 2011 e já ouvi tudo o que mencionou e avalia sobre a área. Não podemos nunca deixar de aprender e buscar nosso caminho, sempre adaptando-se ao novo. Isso faz parte da essência da arte fotográfica sem dúvida! Abraços

    • Olá Priscilla, obrigado pelo comentário… As mudanças fazem parte da evolução, não temos como barrar isso. Mas, são muito difíceis de serem aceitas, por isso são discutidas em tons muitas vezes acalorados, o que também faz parte da nossa forma de pensar e agir, quem a faz mais rapidamente pode ter uma pequena vantagem em relação aos demais, e isso vai de cada um. Porem existem fotógrafos que ainda trabalham com grandes formatos em chapas fotossensíveis como era feito no século passado, conseguindo bons resultados sem mudar nada. Mas, eles sabem o porque e, onde querem chegar dessa forma! Geralmente ligado ao um publico seleto que pagará o preço justo por esses serviços.

  • Olha o texto e mto bom.,com evoluçao da fotografia,tornou se facil qualquer pessoa fotografar., mas eu acredito que o fotografo ele possue uma essencia na qual ele numa visao ele enquadra e cria uma bela fotografia.,e conta uma historia,e ai que faz a diferença,entre um profissional de fotografia ,que conhece e estuda,por isso que nao deixo de clicar os meus momentos,pois e desse jeito que surge as grandes fotos.,entao o Fotografo ele e um artista ele cria e registra o momento.,e desse jeito que vejo.

    • Olá Carlos. obrigado pelo comentário.
      O estudo e pratica fazem toda a diferença, assim cria-se uma linguagem fotográfica, a arte fotográfica sempre será uma bela parceira para muitos. Digo como "Arte" mesmo, para outros será apenas uma boa diversão… Mas, de qualquer forma, o mais importante de tudo nem é isso, e sim a paixão, o desejo pela fotografia, isso nos dá boas inspirações. O sentimento do fotografo cria sua fotografia, ela primeiro nasce de um desejo, se forma na cabeça de cada um e só depois fazemos a foto.
      Falando parece simples, com a pratica fica um pouco mais fácil, e com o estudo você percebe que essa é uma busca sem fim… Mas, que bom que é assim, temos a chance de aprender mais e mais… E essa talvez seja a essência!
      Um forte abraço.

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