E a imagem do pai na fotografia? 5/5 (2)

“…a Fotografia reproduz ao infinito só ocorreu uma vez: ela repete mecanicamente o que nunca mais poderá repetir-se existencialmente” – Roland Barthes

Que imagem oculta é essa do pai na fotografia? Digo do pai não apenas no sentido biológico, mas a figura paterna, que ocorre de certa forma um ocultamento não apenas material, mas simbólico nas ditas fotografias de família.

A primeiro ponto quando há ensaios fotográficos por fotógrafos(a) profissionais, grande parte do material produzido, o pai entra como um ajudante, um elemento secundário. Sendo que na fotografia de família, primeiramente vem a criança/bebê, sua mãe, irmãos, e por fim o pai, existem também propostas interessantes do fotógrafo(a) incluí-lo na seção sem pieguices. Vivemos com um fato peculiar sobre a visão preconceituosa de que a fotografia é muito delicada para homens, pode ser decorrente do grande estereótipo que o cuidar é algo feminino, as mulheres cuidam.

Fotografia Bebe

Saindo um pouco da fotografia profissional, sendo que a minha intenção não é enfocar nela, mas sim criar um ponto de análise em função da artística, que acontece ao acaso, sem uma preparação prévia, pretendo abrir a discussão da imagem do pai de hoje, não adentrarei em questões complexas nem em conteúdos históricos, apesar de não recusar esses fatores, mas cabe aqui a vivência pessoal, junto com a minha bagagem de um fotógrafo bebê, um fotógrafo que dá seus primeiros passos trôpegos, que treme com as mãos fixadas a câmera, e possui dentre outras dificuldades, mas que posteriormente terá mais um arcabouço teórico mais consistente em futuros artigos.

Recentemente no mês de Agosto, saí da zona de conforto, da minha cidade de Catalão e fui a trabalho para outra, no mesmo estado de Goiás, Niquelândia, a terra do níquel, a cidade rodeada de morros e estátuas de peixes em praças, pessoas animadas que adoram andar nas ruas, e a cidade de clima quente e seco.

Ao acaso conheci uma menina de olhinhos azuis, que estava dando seus primeiros passinhos, juntamente com ela seu pai e sua mãe, me aproximei da família que estava na calçada de casa e pedi uma informação: onde existe uma praça bonita para fotografar aqui por perto? Mas olhava para a menininha nos braços do pai e pensava: não quero saber de praça, o que eu quero é fotografar esse ser pequenino, o meu “assunto” fotográfico é esse! Disse ao casal que ela é linda, e vi arranhados no rostinho (desde quando cheguei), pedi para fotografá-la? A resposta foi sim. E foi bem ali, na porta de casa, na calçada, a mãe disse que estava com a cara machucada, em preocupação com as fotos a serem tiradas, ri e respondi: assim que é bom, quando ela crescer verá as fotos, um tanto diferentes.

Rostinho arranhado, sem ocultamentos de uma marca natural de sua infância.
Rostinho arranhado, sem ocultamentos de uma marca natural de sua infância.

Nada de direcionamentos rígidos, apenas o cuidado para que não caísse e machucasse, (mesmo ela caindo, batendo a bunda no chão protegida pela fralda, e logo foi socorrida pela mãe, algo natural aconteceu). O que mais me chamou a atenção foi a posição do pai, que ocupava o lugar em destaque aos cuidados no momento, em pegá-la no colo, proteger.

Nisso propus que tirasse uma foto com ela, ele disse que estava com o uniforme do trabalho, é algo costumeiro, pois era sábado depois do almoço, logo tirei as fotos dos dois, e no processo de seleção e tratamento, vi algo precioso: a imagem de um pai, um pai real, sem enfeites e pomposidades que grande parte da fotografia profissional tenta propor, aquela rigidez da repetição de clichês, que sustenta a típica frase do momento: eu gosto de contar histórias!  A sessão de fotos foi rápida, mas os registros interessantes.

Emanuele nos braços de seu pai.
Emanuele nos braços de seu pai.

Por coincidência, no outro dia descobri um pai com as características semelhantes, que segurava um bebê branco (menino) nos braços, na porta do hotel em que eu hospedava, desta vez na parte da noite. Fiz uma pergunta para a recepcionista, ele é albino? Ela riu e disse que não, e afirmou que é bem branco, e que é o filho dela, logo em seguida propus fotografá-lo, fui ao meu quarto e trouxe a câmera e comecei a fotografar na entrada do hotel. Ela estava em serviço foi o pai que auxiliou na segunda parte das fotos, sendo que a primeira foi pra agradar a família, fotos deles juntos, mais no sentido tradicional e posteriormente as fotos pra “mim” foram feitas no ponto central da cidade, na Praça do Tucunaré. O Gabriel de oito meses de vida estava irritado, mas com o auxilio de seu pai acompanhado de sua irmã, foi se acalmando, assim como a minhas intervenções, para que ficasse tranquilo.

Sizenando com seu filho Gabriel no colo.
Sizenando com seu filho Gabriel no colo.

O que chamo a atenção para o raciocínio não é a figura do pai em si, mas a sua imagem oculta numa fotografia, a preparação do pai para que seu filho(a) seja fotografado(a), o auxilio dado por ele para que concretize um eterno registro, e a sua imagem difusa, que fica entre o pai personagem real, e o pai cuidador.

Deixo também em aberto para novas reflexões e perguntas: quais são as outras imagens do pai na fotografia? E você fotógrafo(a) como anda a sua produção/criação? Ocasionalmente há mais elementos fora de uma imagem do que dentro dela, o não dito as vezes é bem mais evidente que o dito, do palpável, devemos enxergar o além, o invisível.

Há uma evidência de dois braços masculinos dento da fotografia, mas a dimensão vai bem além do que o sensor quis captar.
Há uma evidência de dois braços masculinos dento da fotografia, mas a dimensão vai bem além do que o sensor quis captar.

Alguns dados técnicos não tão importantes, mas de certa forma interessantes:

  • Câmera utilizada: Nikon D5000
  • Lente: AF-S NIKKOR 50mm f/1.8G

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Mateus André

Mateus André faz da fotografia sua arte e profissão, é também formado em Letras pela Universidade Federal de Goiás e atualmente mora em Catalão/GO.

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