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Lições de David Alan Harvey sobre fotografia de rua — parte 1 5/5 (1)

Harvey, experiente fotógrafo de rua, tem seu trabalho analisado por Eric Kim, repassando um ótimo número de conselhos aos fotógrafos, especialmente de street

de Eric Kim (1, 2). imagem: ThingLink

David Alan Harvey é uma das lendas vivas da fotografia de rua. Ele é membro da prestigiosa agência Magnum Photos, e ainda é bastante ativo no mundo contemporâneo da fotografia — marcando fotógrafos emergentes através da Burn Magazine enquanto dá cursos por todo o mundo.

Perto de fazer 70 anos, ele ainda é prolífico em sua fotografia, viajando constantemente e tirando fotos todos os dias. Ele ainda mantém a paixão pela fotografia como a tinha quando menino de 12 anos.

David Alan Harvey

Porque eu amo o trabalho de David Alan Harvey

Quando fiz a mudança para os cliques coloridos em fotografia de rua, David Alan Harvey foi uma de minhas principais inspirações — incluindo Alex Webb, William Eggleston, Stephen Shore, Joel Sternfeld, and Constantine Manos. Ele viajou por todo o globo, realizando boa parte de seu maior trabalho na América do Sul. As cores que capturou em sua fotografia de rua são primorosas. Ele cria numerosas camadas em suas imagens e traz pra fora a emoção das situações através da luz e das cores de um lugar.

Se você é um fotógrafo de rua que pensa seriamente sobre trabalhar em cores, você definitivamente precisa conhecer ele e seu trabalho.

 

O pano de fundo de David Alan Harvey

Baseado na pesquisa que fiz sobre David Alan Harvey, ele começou a fotografar quando novo, e seu primeiro projeto foi simplesmente documentar sua própria família. Seu primeiro livro de fotografias continha fotos em preto e branco de sua família e os principais eventos dela na vida.

Seu próximo livro — e o primeiro corpo de trabalho publicado — foi Tell it like it is (em tradução livre, “Conte-a como ela é”), no qual ele mudou-se e passou a viver com uma família afro-americana pobre em um gueto da Virginia. Durante um verão, esteve com eles, conviveu com eles, foi para a escola com as crianças e documentou suas vidas. Ele aspirava fazer uma diferença social através de seu trabalho, e até vendeu cópias de seu livro para levantar fundos para a igreja afro-americana da comunidade.

Dando uma adiantada: ele começou a trabalhar com a National Geographic e captou mais de 30 histórias de capa para ela. Também ingressou na Magnum, que o catapultou para além em sua trajetória fotográfica.

Ele já publicou muitos corpos de trabalho, sendo o mais famoso o livro Divided soul, que documenta mais de 20 anos de fotografias em todo o mundo. Recentemente ele também publicou um livro sobre os dois anos vividos no Rio de Janeiro, chamado Based on a true story. Também está atualmente trabalhando em um projeto em Dubai, igual e novamente um livro sobre famílias [nota: isso foi dito em março/2014].

Queria escrever este artigo para compartilhar alguns insights que tive em fotografia de rua aprendendo através de David Alan Harvey.

 

1. Foque em ter boas ideias

Uma das coisas que aprendi de David Alan Harvey, e que foi crucial, é a importância de de “ter algo a dizer”. Assisti a um pouco de suas palestras no Gulf Photo Plus 2014, em Dubai, e ele falou dos aspectos técnicos da fotografia que não são importantes. Você pode ensinar configurações técnicas a qualquer um, mas o que faz um grande fotógrafo é se ele(a) tem algo importante a dizer através de seu trabalho.

Em uma entrevista, David Alan Harvey compartilha a importância de ter boas ideias como um fotógrafo:

“O básico para fotógrafos hoje é que eles precisam idealizar pessoas. Conceber pessoas. Não há mais qualquer vantagem em ter habilidades técnicas. Hoje alguém precisa de habilidades com ideias, ter de fato algo a dizer, seja jornalisticamente ou artisticamente. Vejo a fotografia como uma linguagem distante, bem distante de estar morta. Em minha opinião, acabou de nascer.”

Além disso, ele acentua a importância de ter uma “alfabetização visual”, conhecendo o trabalho dos mestres e o que faz uma grande imagem:

“Eu busco por alfabetização visual em um corpo de trabalho. Os produtores precisam ser visualmente alfabetizados e a audiência necessita também ser visualmente letrada. A procura por esse feliz meio de alfabetização do criador para a audiência é uma preocupação em tempo integral que não acabará nunca. Entretanto, a busca por esse ideal é em si uma arte.”

Ponto-chave:

Quando comecei na fotografia, investi tempo demais pesquisando câmeras, objetivas e as melhores configurações técnicas a utilizar quando estivesse produzindo fotografia de rua. Não estava satisfeito com minhas imagens — e senti que eram meu equipamento e minhas habilidades técnicas que estavam prendendo-me.

Entretanto, com o tempo percebi que o problema era que eu estava emperrado sendo um “fotógrafo de mídia social”, o que significa que o propósito de minha fotografia era apenas obter um monte de “Favoritos” ou “Curtidas” em mídias sociais. Eu não tinha coisa alguma a dizer como fotógrafo, apenas tentava criar muitas imagens soltas, para satisfazer minha audiência nas redes sociais.

Cedo descobri que uma maneira melhor de descobrir minha voz como fotógrafo seria focar em projetos. Assim, pelos últimos 2-3 anos andei focado em projetos de longo prazo, nos quais tenho algo a dizer através de minha fotografia. Tento fazer afirmativas sociológicas, como através de meu projeto Suits, que desafia a noção de que a saúde traz felicidade para a vida de alguém. Também investi muito tempo subindo imagens para mídias sociais — para focar em meus projetos.

David Alan Harvey dá uma recomendação prática: procurar algo para dizer através de um projeto no qual você trabalhe. Um pré-requisito que ele tem é que um fotógrafo precisa ser “visualmente educado”. Significa que você necessita investir tempo estudando os mestres, os livros de fotografia de rua clássicos, e até artistas fora da fotografia. Pintura, ilustrações e História são aspectos cruciais na educação de um fotógrafo.

 

2. Estude os clássicos

Expandindo o ponto anterior, para tornar-se um grande fotógrafo você precisa estudar os clássicos. Você não tem como virar um grande pintor sem estudar Leonardo da Vinci, Michelangelo e Rafael. Não tem como tornar-se um grande músico sem estudar Mozart, Beethoven e Vivaldi. E não pode tornar-se um grande fotógrafo sem conhecer o trabalho de Henri Cartier-Bresson, André Kertész, e os mestres que vieram antes de nós.

David Alan Harvey é um grande defensor das mídias sociais na fotografia — mas também alerta que fotógrafos que conhecem apenas o Flickr não poderão nunca aspirar serem grandes artistas. Ele ressalta a importância de estudar os clássicos na fotografia:

“O lado técnico progrediu. Tecnicamente a fotografia moveu-nos além, no sentido de que a fotografia está agora disponível a todos. Isso infelizmente levou a uma diminuição na verdadeira educação fotográfica. Em minha geração a única forma de adentrar a fotografia era estudando os clássicos, por assim dizer. Vimos apenas os trabalhos dos mestres. Agora um fotógrafo jovem pode ingressar na fotografia através de um grupo no Flickr ou algo do tipo e seguir por um longo tempo sem realmente dominar o básico, em termos de quem fez o quê e quando.”

Harvey vai além, partilhando a importância de ter “pontos de referência” na fotografia, o calibre dos trabalhos feitos antes de nós com o qual podemos nos comparar:

“Eles podem perder completamente os pontos de referência. Eles não rejeitam os pontos de referência uma vez que os conhecem, mas os pontos não necessariamente são parte de seus léxicos.”

Enquanto David Alan Harvey encoraja a interação online, ele alerta-nos para sermos cautelosos quanto às imagens que consumimos:

“Por isso temos que ir simultaneamente além e aquém. Contudo, e mais direto ao ponto de sua pergunta, por causa da infinidade de atividades online, um fotógrafo pode assimilar tudo. Porém, necessitam escolher e selecionar sabiamente. Penso que editores e curadores estão frequentemente frustrados com muitos fotógrafos jovens, sem esses pontos de referência, que não têm ideia de onde encaixam-se seus trabalhos no quadro geral; o contexto histórico de seus trabalhos.”

Ponto-chave:

Não acho que deveríamos a todo tempo compararmo-nos ao trabalho de fotógrafos que vieram antes de nós. Mas ao mesmo tempo, precisamos de um ponto de referência em termos de onde nosso trabalho situa-se num contexto histórico da fotografia. Penso que tanto maior seja o trabalho que apreciamos, maior pode ser a inspiração para criar grandes trabalhos. Se você olha apenas para fotografias de rua genéricas no Flickr, você será capaz de aspirar apenas a fazer fotografias de rua genéricas. Se você olha para o trabalho dos mestres, poderá aspirar à criação de trabalhos magistrais.

Então invista mais tempo procurando estudar os fotógrafos de rua clássicos — e os mestres que vieram antes de nós. Já escrevi muitos artigos (semelhantes a este) em minha série Learn from the Masters (trad.: “Aprenda com os Mestres”), a qual é um bom começo. Use-a como um ponto de partida.

Assim que encontrar um fotógrafo cujo trabalho realmente o inspire, compre todos seus livros que puder dar-se, pesquise-os, estude-os, leia entrevistas dele, e devore seu trabalho. Aprenda suas motivações e histórias de vida, e veja-os como conselheiros de seu próprio trabalho.

 

3. Canalize suas emoções

Uma das frases de David Alan Harvey que prendeu-se à minha cabeça por um longo tempo é:

“Não clique o que se parece. Clique o que se sente”

Penso que em fotografia de rua podemos ficar bastante presos ao lado visual das coisas. Queremos agradáveis composições, contrastes, luzes e planos. Entretanto, ao fim do dia, deveríamos focar na emoção que conseguimos criando uma imagem, e que tipo de emoção podemos transmitir para o espectador.

Quando perguntado como um fotógrafo pode começar a trabalhar em um projeto, Harvey sugere a um fotógrafo que apaixone-se por uma ideia ou conceito:

“Você sabe, então se não estou tipo apaixonado, não serei capaz de fazer qualquer coisa. Realmente nada. Posso ser um tipo de profissional, conheço bastante de fotografia profissional para ser um profissional. Necessito estar sentindo algo, e amor é uma ótima maneira de começar.”

Harvey prossegue, sobre a importância do amor em um projeto:

“O que sempre digo a meus alunos é que busquem por um projeto que amem. Algo com o que eles realmente se importem. Algo que conheçam. E use isso como uma plataforma para para desenvolver e evoluir uma história emergente.”

Ponto-chave:

Acho que é importante para nós sermos analíticos acerca de nossa fotografia, em termos de conceito, composição e como apresentamos nosso trabalho. Mas ao final do dia, eu sinto que as fotos e os projetos mais memoráveis que vi foram aqueles emocionais. A foto que te dá um soco bem no coração. Essas imagens são as que incorporam-se à sua mente e sua alma. Uma boa maneira que aprecio para editar minhas fotos é ver se ali tem algum impacto emocional nas fotos. Enquanto eu gosto de fotos com boas camadas, luz, cores e composição; minhas favoritas (ou aquelas que destacam-se) são aquelas que transpiram o máximo de emoção.

Então, quando estiver clicando por aí pelas ruas, clique com seu coração, não seus olhos.

 

4. Faça algo especial emergir de um momento comum

Uma das coisas mais difíceis para um fotógrafo de rua é criar algo especial a partir de momentos ordinários. E ainda mais difícil é fazê-lo em casa, onde tudo parece entediante, tão cotidiano, tão rotineiro. Mas empenhar-se arduamente em produzir bela arte de momentos comuns foi o que primeiramente inspirou David Alan Harvey a fotografar:

“Eu estudei pintura numa época anterior, então os impressionistas franceses foram realmente importantes para mim. Eles faziam coisas de pessoas normais, estavam vendo cenas medianas de rua e fazendo arte destacando-se disso. Então foi por isso que Henri Cartier-Bressan e Robert Frank me interessaram, porque eles estavam captando a vida cotidiana e fazendo arte extrapolando a vida cotidiana. E isso foi importante para mim, porque eles podiam captar o que quer que captassem agora mesmo, aqui mesmo, e fazer algo especial.”

Mesmo passados anos, essa fascinação pela beleza da criação através dos momentos comuns não escapou a David Alan Harvey:

“Eu ainda amo isso. Você pode pegar sua pequena câmera, captar uma situação ordinária, e fazer arte destacando-se disso. Ainda sou absolutamente fascinado por esse fenômeno.”

Ponto-chave:

Buscar beleza numa vida mundana rotineira é difícil. Constantemente eu também luto por isso comigo mesmo.

Atualmente moro aqui em Berkeley, na Califórnia, e é um lugar muito interessante (para alguém de fora). Mas, para mim, estou acostumado a isso. Entediado disso. Vejo as mesmas ruas todo dia. Preferia estar em San Francisco clicando fotografia de rua — porque soa muito mais interessante, excitante e romântico.

No entanto, eu apliquei essa metodologia a qual ajudou-me a buscar mais beleza em minha vida rotineira: imaginar se eu fosse um alienígena, e visitando minha vizinhança pela primeira vez.

Assim tento fazer-me um forasteiro em minha própria vizinhança. Pergunto-me o que aliens achariam de interessante em minha vizinhança, e clico isso. Termino fotografando um monte de placas, prédios, paisagens urbanas e pessoas interessantes e conheci pelo caminho.

Muitos de nós sofremos da síndrome “a grama do vizinho é mais verde”, com a qual sempre achamos que o lugar que vivemos é enfadonho. Mas conforme-se que onde quer que você viva, sempre vai existir um lugar mais atraente.

Por exemplo, eu tenho amigos que moram em Nova York que queriam estar em Paris. E tenho amigos em Paris que queriam estar em Tóquio. Tenho amigos em Tóquio que queriam estar em San Francisco. E pessoas de San Francisco que queriam estar em Nova York.

Então aprecie a vizinhança onde você mora, e use-a como ponto de partida. Se você vive numa vizinhança ou cidade que não tem muita gente, sem problemas. Estude o trabalho de William Eggleston e Lee Friedlander, que já viveram produzindo fotos em sua maioria de paisagens urbanas, sem pessoas. Se há vontade, há sempre uma maneira.

 

5. Crie sua própria música

É sempre importante para nós copiarmos os mestres antes de encontrarmos nossas próprias vozes. Por exemplo, os Beatles começaram como uma banda cover, tocando músicas de outros. Até na fotografia: David Alan Harvey foi muito inspirado por Henri Cartier-Bresson e Robert Frank, e começou seu trabalho em preto e branco.

Mas logo cedo Harvey percebeu que o preto e branco não era a maneira como ele via o mundo, e não era sua voz. Depois de mudar para o colorido, seu trabalho de fato deslanchou.

Alan Harvey dá um conselho prático sobre como tornar-se um grande fotógrafo: criar sua própria música (e não apenas copiar outros):

“Se você é qualquer tipo de artista, é como um compositor. Existem dois tipos de músicos: os que tocam canções de outras pessoas e os que escrevem as suas próprias músicas. Em fotografia se você quer alcançar os patamares mais elevados, você precisa escrever sua própria música. Precisa pensar suas ideias. Se você não tem coisa alguma na cabeça, necessita de algo desconfortável, e está tentando contar a história. Então você precisa de um ponto de vista, e algo sobre o que pensar. Isso não significa que o que você está pensando sobre aquilo ,é mais importante do que o que outras pessoas estão pensando. Se você tem uma ideia em sua cabeça, seja a migração da Espanha e de Portugal para as Américas, ou alguma coisa de revolução social, ou algo artístico, se você você tem isso em mente, quer ver no papel. Você apenas faz.”

Continuando o ponto, Harvey passa a importância de buscar sua própria voz:

“Minha única sugestão para fotógrafos emergentes, ou fotógrafos que estejam mudando — os que querem fazer algo especial — é procurar sua própria voz, ter algo a dizer. Olhe bem fundo pra dentro de sua alma, e calcule uma maneira de dizer isso. E isso é a única coisa que faço com meus alunos.”

Ponto chave:

Todos nós precisamos um ponto de decolagem em nossa fotografia. Todos nós começamos copiando as fotografias dos mestres que vimos antes de nós. Mas há um determinado ponto em que precisamos parar de copiar a eles e suas músicas, e criar música para nós mesmos.

David Alan Harvey sugere-nos ter um ponto de vista único, e algo a dizer. Penso que uma das melhores formas de ter um ponto de vista único é usando nossas próprias experiências de vida para dizer algo através de nossa fotografia.

Por exemplo, se você é um pai de família, fotografe sua família. Você não precisa demitir-se do trabalho e ir fotografar no Brasil [nota, se você está no Brasil, leia “na Índia” ;)]. Se você é um professor, talvez arranjar maneiras de fotografar seus estudantes e fazer um projeto com isso. Se é um homem de negócios e odeia seu trabalho, talvez fotografe como se sente através de seu espaço de trabalho em suas imagens.

As melhores fotos que podemos criar são as pessoais, aquelas que vêm de suas próprias experiências de vida. Reflita sobre sua posição quanto à vida, como você vê o mundo e tente seguir e capturar isso — em sua própria visão.

 

6. Não preocupe-se com o meio

Em fotografia, somos frequentemente um punhado de nerds. Falamos sobre diferentes câmeras, objetivas, filmes, f-stops, técnicas de impressão, técnicas de pós-processamento etc. Mas David Alan Harvey não se importa muito com o meio pelo qual criamos imagens (seja digital ou filme).

O que mais importa para ele é a contação de história (storytelling)

“A nova tecnologia não me perturba nem um pouco. Uma figura é uma figura, seja em filme ou digital. Agora clico com filme em uma Mamiya 7, clico com filme médio formato Gosto disso. Faço minhas próprias impressões de quarto escuro em minha casa. Clico imagens coloridas com meu iPhone, e clico fotos coloridas com minha Leica. Então o meio não importa — há tanta discussão sobre que tipo de câmera, e filme versus digital. Não ligo muito, não penso muito nisso.”

Harvey continua, em outra entrevista:

“O básico é contar uma história, ou fazer uma representação. Então seja uma câmera digital ou analógica, não faz diferença pra mim”

Ponto-chave:

É fácil ficar “atolado” quanto a que câmera usar, que objetiva, tipo de filme, como tratar suas imagens, e quanto a usar filme ou digital. Eu mesmo pessoalmente andei fazendo malabarismos com isso. Há muitos dias em que amo clicar com filme, e outros em que quero deixar de gastar tanto dinheiro com filmes e revelação, e apenas clicar com digital.

Mas no final das contas, acho que o que David Alan Harvey ensinou-me foi para não ficar preocupado com esses detalhes, apenas focar em que tipo de história contar.

Uma coisa que me fascinou sobre o seu livro Based on a true story foi que ele clicou com uma série de diferentes câmeras, incluindo a Leica M9, um iPhone, a Panasonic GF-1 — a câmera que estivesse à mão na hora.

Pessoalmente não ponho fé no uso de muitas câmeras diferentes para um projeto, mas David Alan Harvey fez isto funcionar em seu livro. Eu teria que admitir também: algumas de suas fotos clicadas com o iPhone contra a Leica M9 são indistinguíveis na impressão final.

Então fiquemos todos sem muita preocupação quanto a que equipamento utilizamos para criar nossas imagens. Deixemo-nos focar na passagem de histórias significativas — sejam quais forem as ferramentas que decidamos usar.

 

7. Abrace as mídias sociais

David Alan Harvey é bastante prolífico no que tange à cena das mídias sociais. Ele é ativo no Facebook, no Instagram, no Twitter, no Tumblr, e através de sua revista online/impressa Burn Magazine [nota: links no fim do artigo].

Quando perguntado sobre o papel das mídias sociais na fotografia, David Alan Harvey explica sua metodologia:

“As novas plataformas de mídias sociais e online eu as uso para criar um público, para, em primeiro lugar, ensinar; e, em segundo, para expor meu trabalho. Como em meu livro, que fiz no Rio de Janeiro, pus um ponto online de contribuição de US$ 1,99. Isso ajudou a financiar o projeto e vender o livro. Então estou bastante confortável com Twitter, Facebook, Tumblr e a era digital online.”

Ponto-chave:

Há muitos fotógrafos (especialmente entre os mais velhos) que são bastante desconfiados com mídia social, fotografia e mídia digitais. No entanto, David Alan Harvey abraçou isso tudo com carinho, e isso o ajudou a ganhar uma tremenda popularidade online. Através da Burn Magazine, ele está constantemente exibindo novos trabalhos de fotógrafos emergentes e compartilhando suas informações, conselhos e conhecimento com o restante do mundo.

Eu também tenho que agradecer às mídias sociais. Eu não poderia ensinar sobre fotografia de rua em workshops e escrever para meu blog por uma vida se não fossem as mídias sociais. Mas, ao mesmo tempo, sou atento às limitações das mídias sociais, em termos de publicação e compartilhamento de seu trabalho. Penso que mídia social é uma bela maneira de criar público para que apreciem seu trabalho e aprendam sobre ele — mas, com o fim de criar um corpo de trabalho forte, publicar um livro ajuda em grande parte.

Esta é minha próxima meta: publicar livros de fotografia de longo prazo. David Alan Harvey também trabalha ainda em direção a publicações de novos trabalhos impressos, sejam em forma de livro ou revista.

Recomendo fortemente a você que publique seu próprio trabalho em papel também. David Alan Harvey compartilhou um ponto fundamental que ele aprendeu com Constantine Manos (também da Magnum), que é: “Uma fotografia não existe até que esteja impressa.”

Com grandes serviços de impressão sob demanda como o Blurb e o Magcloud [que agora faz parte do Blurb] não há mais desculpas para não imprimir seu trabalho.

 

8. Compartilhe suas informações gratuitamente

Conheço um monte de fotógrafos e artistas que tratam suas informações e conhecimentos como um tesouro perdido. Acho que isso deve-se principalmente a insegurança, mas penso que isto fere a eles mesmos no longo caminho.

Fotógrafos como David Alan Harvey são bastante abertos e livres em relação a seu conhecimento e informação — e isto rendeu-lhe enormes dividendos (em construção de popularidade). Por que Harvey é tão aberto com sua sabedoria? Bom, ele sente que precisa dar retorno:

“Não senti qualquer necessidade de possuir segredos ou que eu poderia compartilhar informação com as pessoas sem sacrificar qualquer coisa. Porque sempre tive convicção de minha habilidade na minha própria fotografia. Minha mãe era uma professora. Se você é um sobrevivente nos primeiros anos de idade, você sente-se abençoado em tenra idade. Daí você tem energia para dar a outras pessoas, com certeza. De tal modo que ainda o faço — gasto um bocado de tempo com outros fotógrafos, particularmente com os mais novos que estão tentando trabalhar adiante. Então é isso que eu faço.”

Ponto-chave:

Pessoalmente, eu cresci numa situação similar à de David Alan Harvey: minha mãe era uma professora, e eu sentia-me abençoado em ter todo o suporte que tive ao crescer. Senti que eticamente eu precisava dar algo de volta por toda a ajuda que recebi.

Essa foi a intenção de começar este blog — manter informação e conhecimento sobre fotografia de rua abertos e gratuitos. Em meu post My vision of open source photography fiz uma promessa pessoal de nunca cobrar por informação no blog ou em vídeos. Desejo que a informação que compartilho aqui [no caso, lá] no blog seja facilmente acessível a todos.

Pessoalmente isso rendeu-me tremendamente. Quanto mais você dá, mais você recebe de volta.

Então, em sua fotografia, pense sobre como você pode compartilhar sua informação, sabedoria e guie outros fotógrafos. Compartilhe como você clica nas ruas, as configurações técnicas, os métodos que você usa na pós-produção ou como revela seus filmes. Passe adiante todos os seus segredos, e posso garantir que, a longo prazo isso vai ajudá-lo (e ao resto do mundo) imensamente.

 

9. Clique primeiro, foque depois

Um breve conselho que achei tremendamente prático e útil de David Alan Harvey foi: Clique primeiro, foque depois.

Acho que frequentemente nós nos pegamos configurando nossas câmeras quando estamos nas ruas, e daí perdemos o momento. E uma vez que o momento se foi, perdeu-se para sempre.

David Alan Harvey diz ser um fotógrafo bastante atécnico, e elabora esta ideia sobre apenas clicar (e não ficar preocupado demais com as coisas técnicas):

“Não ensino meus estudantes como usar a câmera, porque eu mal sei como usar a minha própria.

Por exemplo, há duas maneiras de aprender como tocar guitarra: você pode aprender cada acorde apropriadamente, ou você pode ouvir uma canção de que goste e apenas tocá-la. O mesmo com um piano, o mesmo com a fotografia. Você pode aprender tudo tecnicamente — esqueça isso. Busque algo em sua mente e tente dizê-lo. Você pode aprender a parte técnica depois. Como sempre digo: tire a foto primeiro, foque depois.”

Harvey divide uma história na qual viu uma grande oportunidade fotográfica antes de seus olhos — e simplesmente deu o clique instintivamente:

“Tive uma capa da National Geograhic em que captei a imagem primeiro, e foquei depois. Bom, eu vi um momento e apenas o cliquei. Eu poderia pensar ‘Sou um fotógrafo profissional, deveria ver se minha câmera está configurada direito’. O que aconteceu foi uma grande surpresa, e eu captei a maldita imagem de qualquer forma. Por sorte, estava em foco. Mas eu chequei o foco e o f-stop e expus depois.”

Ponto-chave:

Já perdi muitas oportunidades fotográficas em potencial porque estava estava imerso demais nas minhas configurações técnicas. Em minha DSLR costumo clicar totalmente no manual. O lado ruim disso é que sou um tanto esquecido e distraído. O que significa que eu cliquei externamente sob um sol brilhante e expus corretamente — mas esqueci de mudar minhas configurações ao entrar em ambiente interno. E subexpus totalmente minha foto e perdi a captura de um grande momento.

Isso foi um grande momento de aprendizado para mim. Desse ponto em diante, prometi-me que nunca mais iria perder outro grande momento fotográfico por causa de configurações técnicas. Comecei a clicar apenas no modo “P”, usar autofoco e ISO 1600. A partir desse momento, não perdi qualquer foto clicando com uma câmera digital. Claro que com minha Leica MP de filme clico tudo totalmente no manual (é a única opção que tenho). Mas quando estou clicando com a Ricoh GR ou a Fujifilm X-T1, só utilizo o modo “P”.

Fiquei bastante surpreso também quando ouvi que vários fotógrafos da Magnum (incluindo Eli Reed e Moises Saman) clicam apenas em modo “P” e Auto-ISO. Aparentemente Steve McCurry também clica em modo “P”.

Então e você acha que está perdendo um bocado de grandes momentos fotográficos porque está sempre às voltas com suas configurações, mande ver no modo “P”. Aumente seu ISO (recomendo 1600), daí você terá sempre a velocidade de obturador mais rápida possível (mesmo durante o dia). E a menos que você seja um fotógrafo de rua hardcore, use apenas foco automático — ele trabalha bem na maioria dos casos.

 

10. Foque no fundo

Uma coisa que torna grandioso o trabalho de David Alan Harvey são as camadas que ele cria em muitas de suas imagens. Suas imagens possuem grande profundidade — não é apenas o motivo principal no primeiro plano que é interessante, é frequente que a pessoa no fundo que torne o clique completo.

Numa palestra na Gulf Photo Plus 2014 em Dubai, ele mostrou algumas de suas famosas imagens, e compartilhou o conceito de como seus sujeitos no fundo estão com frequência estáticos. Uma vez que ele fotografa seus motivos no fundo, ele espera que algo mais interessante ocorra ali (como pessoas andando pela cena, e não sobrepondo-se). Isso é o que também torna grandioso o trabalho de fotógrafos como Alex Webb, as camadas que ele é capaz de criar em suas imagens.

Ponto-chave:

Penso que muitos fotógrafos iniciantes poderiam começar com modelos únicos, e trabalhar em direção a múltiplos modelos. Com os sujeitos únicos, existem menos variações para fotografar. Fotografar múltiplos modelos aumenta a complexidade e o caos — e torna mais difícil produzir uma boa imagem.

No entanto, à medida que você progride em sua fotografia de rua, considere mais seu pano de fundo. Não é suficiente ter simplesmente um assunto interessante no primeiro plano. Tente descobrir que elementos extras no fundo, ou a “cereja do bolo” que você pode adicionar à sua imagem.

 

Links adicionais:

David Alan Harvey (site pessoal)
Harvey nas redes sociais: Facebook / Twitter / Instagram / Tumblr
Burn Magazine, revista com curadoria de DAH
Trabalhos de Alex WebbWilliam Eggleston, Stephen Shore, Joel Sternfeld, Constantine Manos, William Eggleston, Lee FriedlanderEli Reed, Moises Saman
Livros: Tell it like it is (leitura online), Divided soul (comprar na Amazon), Based on true story (fotos online)
Sites para impressão sob demanda: Blurb, Magcloud
Artigos Lean from the Masters, de Eric Kim (em inglês)

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Já leu tudo? Pode avaliar, comentar aqui, ou já pular pra parte 2! ;)

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Alexandre Maia

Clico, viajo, olho, analiso, converso, e repito — em qualquer ordem!

Também estou no blog da D&M Photo.

15 Comentários

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  • Excelente texto Alexandre, tudo que estava nescecitando ler para refletir mais e organizar realmente as idéias, tenha uma boa continuação,muito obrigada.

    • O link da parte 2 está ao final, pode já acessá-la! ;)

      Quanto à autoria dos textos, fiz "apenas" a tradução — os originais são do Eric Kim, como anotei lá.

  • Muito inspirador seu texto, Alexandre….com a facilidade do acesso à informação muitas coisas de qualidade são encontradas facilmente(sua página é um grande exemplo disso), e muita coisa fútil também…são artigos como esse que nos fazem de fato enxergar a fotografia como arte. Parabéns!!!!

    • Não é meu, só lembrando, é do Eric Kim… eu "apenas" traduzi dois textos dele e os juntei (já que eram ambos sobre o mesmo fotógrafo)

      De qualquer forma, fico feliz de pode contribuir trazendo um escrito que considerou ótimo! =)

  • Sou fã do cara. Conheço bem seu trabalho. Sem dúvida, é um dos melhores Fotógrafos do Mundo. Também vejo desta forma, "… a fotografia acabou de nascer". O profissional que não souber lhe dar com pessoas, é melhor abandonar o barco ou a máquina.

    • De fato, Sérgio. Lidar com pessoas é absolutamente imprescindível, mesmo que você trabalhe fotografando animais, afinal você não vai vender suas imagens para golfinhos, por mais inteligentes que sejam…

  • Artigo muito interessante, Alexandre. Fotógrafos de rua são ousados e sempre tem muito a passar. Criar um projeto é BEM interessante, afinal estabelece uma sequencia de fotos e uma história endossando e impulsionando tudo. Gostei, vou focar nisso. Também acredito muito no livre transito da informação sobre fotografia, pintura e desenho (muito entrelaçados). Um dia, quando me considerar um bom fotógrafo, pretendo ensinar a arte da percepção fotográfica e disseminar a visão do fotógrafo.

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