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Por que sou fotógrafo de famílias?

Quando estive na Alemanha, andando pelas livrarias de Berlin, um de meus achados foi um livro que contava um pouco da história de Heinrich Zille (1858-1929), cartunista, ilustrador e fotógrafo alemão, que registrou a vida de pessoas comuns nas ruas da Berlin do século XIX e XX.

Sempre gostei de desenho e cartuns, até arrisco alguns traços vez em quando, e isto me chamou atenção imediatamente no trabalho de Zille, que com belas ilustrações e cartuns retratava para os jornais da época, de forma um tanto quanto sarcástica, a realidade e especialmente a decadência existente em uma cidade que beirava o caos. E que, apesar de fazê-lo de forma quase sempre humorística, revelava uma situação calamitosa e desagradável às elites.

Ele mostrava a vida de mendigos muitas vezes incapacitados fisicamente, prostitutas que flanavam pelas ruas transmitindo tuberculose, e muitos trabalhadores que vinham das regiões rurais em busca de uma vida melhor na cidade grande, e se amontoavam em prédios, quase sempre com famílias inteiras, passando os dias e as noites nas ruas em busca de emprego, e na maioria das vezes carregando junto consigo seus filhos. Uma visão bastante crítica, e que, quando era retratada pelos jornais, não era admirada. Apesar de profissionalmente ser muito mais ilustrador e cartunista, do que fotógrafo, Zille trabalhou por 30 anos na Sociedade Fotográfica de Berlin, existindo uma forte polêmica sobre ele ser de fato fotógrafo, pois profissionalmente seu local de trabalho era o laboratório fotográfico, e as artes envolvidas na revelação de fotografias.

Não existem relatos que ele utilizasse uma câmera para registrar imagens, e apesar de terem sido encontrados em seus pertences mais de 100 fotografias, 400 negativos de vidro e alguns positivos de vidro, o maior motivador das dúvidas quanto a autoria de Zille, é que nenhuma câmera foi encontrada em suas coisas.

O fato é que Zille trabalhou no laboratório fotográfico do estúdio dos Fotógrafos August Gaul e August Heer, e existem indicações de que ele possa ter sido o responsável por registros de nu entre os anos de 1900 e 1903, e o ponto interessante é que estas fotos de nu, também contém registros documentais do que acontecia no estúdio, envolvendo os modelos e também outras pessoas enquanto faziam seus trabalhos, inclusive, ele próprio aparece em algumas imagens.

Apesar do talento e de seu olhar único, Zille obteve fama tardia. Ele mesmo não se considerava um artista, dizendo que não tinha talento algum, apenas trabalhava arduamente todos os dias, e era apenas isso.

Zille não era o queridinho das elites da época, apesar de transitar por seus meandros. Na verdade, os que valorizaram e reconheceram seu trabalho foram os que ele retratou de forma extremamente verdadeira, o povo das ruas, o proletariado comum. Reconhecido como percursor da fotografia e referência na Alemanha e outro países do mundo, podemos ver várias obras literárias dedicadas a ele, além de exposições, filmes e até um museu dedicado ao seu trabalho e vida, no bairro do Mitte em Berlin.

Iniciei o artigo com estas informações sobre a vida de Heinrich Zille, pois além de admirar sua obra e história de vida e dele ser um dos percursores da fotografia documental, atualmente, com a popularização deste gênero, muito tem se falado sobre o que é certo ou não neste estilo, principalmente no ramo da Fotografia Familiar.

Se conhecermos o trabalho do, para mim, fotógrafo, fica nítida a capacidade do olhar extremamente fotográfico de Zille, que registrava em suas ilustrações de forma magnificamente artística, documental e crítica a situação real da vida urbana da Berlin do século XIX e XX. E é este olhar que percebo fazer falta atualmente. Meu comentário não é uma crítica, mas sim uma reflexão sobre a capacidade de voltarmos a olhar a fotografia, seja de que seguimento for, como arte, e sim, também, principalmente como um trabalho, pois artistas trabalham, ao contrário do que muitos acreditam, risos à parte!

“Existe cliente sem fotógrafo de família, mas não existe fotógrafo de família sem cliente.”

É por isso, que hoje dedico grande parte de meu tempo à Fotografia de Família, seja ela documental ou não. Claro que por amar este estilo, tento sempre vender um trabalho que registra documentalmente os momentos de uma família, sejam eles uma viagem de férias com crianças ou sem, o aniversário da vozinha, os primeiros dias do bebezinho da família, o casal que decidiu casar no paraíso, longe de tudo lá em Fernando de Noronha. Não importa! Sempre apresento a beleza da Fotografia Documental para meus clientes. Mas, existem aqueles que preferem fotos em uma linha que eles já estão mais acostumados, posando para a câmera, olhando para lente. E isso nunca foi, nem será um problema!

Apesar de considerar a fotografia uma das mais belas artes, ela também é o meu sustento, é com ela que pago as contas e consigo viver fazendo o que amo. Por isso, costumo dizer, que precisamos trabalhar para nós sim, mas quem vem em primeiro lugar é sempre o nosso cliente. E para os que acham que saindo de algum trabalho ou profissão para exercer a fotografia, deixarão te ter patrão e viverão uma vida de sonhos, sem cobranças ou problemas, aliás, tudo coisa comum da vida de qualquer um que precise trabalhar. Sinto dizer que neste, e praticamente em qualquer outro negócio, nós vivemos para nossos clientes, e sim, eles são nossos patrões!

Talvez, existam aqueles que podem ser dar ao luxo de rejeitar trabalhos, simplesmente porque um cliente quer sair nas fotos de seu álbum sorrindo para a câmera ou fazendo poses. Mas com certeza estes fotógrafos não são maioria. E se você realmente quer viver de sua arte, precisará ser mais empresário do que artista, e aprender que o cliente é quem paga suas contas, seu equipamento novo, suas viagens, enfim, costumo dizer que, existe cliente sem fotógrafo de família, mas não existe fotógrafo de família sem cliente. Sendo assim, é preciso antes de tudo, aprender a lidar comercialmente com pessoas, pois neste negócio, eles são o insumo b