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Descobrindo a Terceira Idade – parte 3 de 4 – Como desenvolver meu projeto 4.14/5 (7)

Olá a todos! Continuando a série de artigos sobre fotografia e terceira idade, hoje vou abordar um tema super interessante para quem está cheio de vontade para colocar o projeto em prática. Vamos falar sobre como montar um plano de aula, conteúdos, cronograma, metodologia.

É interessante que você leia os o último artigo publicado aqui no site DG. Depois, defina alguns pontos para que suas ideias fiquem mais claras:

Publico alvo: cidade, faixa etária, renda, nível de escolaridade;

Instituição que receberá o projeto: ONG, Universidade, centro cultural;

Proposta: o que você pretende alcançar com o projeto. Objetivos a serem alcançados, conteúdo a ser trabalhado;

Tempo destinado: quantas horas por semana você destinará ao planejamento de aulas, reuniões com coordenadores, aulas efetivas, mostras, exposições;

Remunerado ou não: se você adotara o projeto como voluntário ou não.

Com todos os pontos acima acertados e bem definidos, vamos para a parte mais interessante do artigo: como desenvolver o planejamento do projeto, conteúdo a ser ministrado, cronograma de aulas, estrutura necessária nas salas, dinâmica e metodologia.

Antes de começar, vale lembrar duas coisas: esta série de artigos não visa criar fórmulas, e todas as dicas aqui postadas são baseadas em experiências em um público específico, idade, cidade, renda.

Conteúdo

O conteúdo a ser ministrado depende, essencialmente, do seu objetivo com o projeto. Como estou fundamentando este artigo em minha experiência, vou colocar aqui para vocês o conteúdo com o qual trabalho.

Quando definimos um público alvo, entendo quais são suas necessidades e suas expectativas com seu projeto. Se eu entendo que é um projeto voltado à – terceira idade, classe média, portadores de câmera compacta e sem nenhum conhecimento na área da linguagem fotográfica digital, entendo alguns pontos importantes para o desenvolvimento da oficina:

– utilizam o curso como estímulo para sair de casa, conhecer outras pessoas e se socializarem – por isso a importância das aulas práticas, que falaremos mais adiante também;

– querem fotografar melhor as viagens, a família, e outros temas que remetam a laço afetivo e preservem a memória;

– interesse na técnica para que se tornem mais autônomos e não precisem mais da ajuda de outros para manusear o equipamento;

– dificuldade no aprendizado – mais detalhes em metodologia;

Diante estas constatações, planejei um conteúdo que estimulasse três grandes frentes:

1).  Desenvolvimento do olhar criativo: luz e composição como elementos fundamentais do processo criativo. A meta é fazer com que eles descondicionem o olhar, se permitindo a novas experiências sensoriais, repensando o conceito estético. Entender o processo da linguagem fotográfica em nível mais profundo, desenvolver senso crítico diante fotografias publicadas na mídia, e como imagens podem transmitir opiniões.

2). Conhecimento do equipamento e da técnica: nessa segunda parte, compreenderemos a linguagem da câmera, ou seja, como se dá a interação entre a terceira idade e seu equipamento fotográfico. Cabe lembrar que cada máquina se dialoga de uma determinada forma, pois cada equipamento tem seus botões que as diferenciam. Dessa forma, uso uma câmera modelo na abordagem teórica, mas sempre recorro a outros modelos usados pelos alunos em sala de aula. A idéia dessa segunda frente é permitir ao aluno o conhecimento do equipamento, dos modos automáticos – e qual a melhor maneira de usá-los, da qualidade e tamanho de imagem, uso do flash, fazer vídeos, transferir imagens para um computador, entre outros recursos. O aluno se torna assim mais independente ao se relacionar de forma efetiva com essa tecnologia.

3). Aplicação direcionada da fotografia: como sobrepor olhar e técnica de forma prática sobre um tema específico. Crianças, animais, paisagem, arquitetura, retrato, objetos estáticos, entre outros.

De forma mais clara e resumida, o planejamento inicial das minhas aulas é mais ou menos este:

Aula 1: Luz e Composição
Aula 2:
Conhecendo o equipamento e suas funções
Aula 3:
Técnicas fotográficas: como utilizar os recursos disponíveis
Aula 4:
Como fotografar pessoas, animais, objetos, arquitetura
Aula 5:
Descarregando e armazenando as fotografias
Aula 6:
Aula prática

Se alguém ainda tiver dúvidas quanto a conteúdo a ser trabalhado, me mandem um email em [email protected]. Tenho todo este planejamento detalhado e bem desenvolvido.

Aula prática de fotografia no Jardim Botânico

Formato

É interessante distribuir esse conteúdo em aulas curtas, entre 50 a 1h30 de duração, uma ou duas vezes por semana – dependendo da disponibilidade dos alunos. Sugiro aulas de 1h30, que é o formato de aula que uso atualmente. Não é pouco tempo, nem muito. Dá tempo de apresentar o conteúdo teórico, exemplificar com recursos de diversos gêneros (vídeo, música, fotos, filme) sem que os alunos se cansem. Os idosos se cansam mais rápido que nós na absorção dos temas. Não é legal fazer com que eles fiquem sentados por muito tempo, muitos têm problemas de saúde, e estes incômodos podem interferir na qualidade e aproveitamento da oficina.

Diante essas três grandes frentes, é possível desenvolvê-las em 6 aulas de 1h30, em 10, em 12. Trabalhei estes temas tanto em oficinas rápidas, de 4 aulas, tanto em oficinas prolongadas, de até 16 aulas.  É claro que em oficinas com poucas horas, você acaba deixando de falar muita coisa, o que não é interessante. Mas tudo depende de como você irá abordar cada assunto, se irá passar trecho de filmes, vídeo, slides; se os alunos são participativos; se aquele assunto interessou mais que outros. Para quem ainda não tem idéia de quantas aulas ministrar, experimente este planejamento:

Cinco aulas teóricas
Uma aula prática
1h30 de duração
Uma vez por semana

Com essa primeira experiência, você entenderá com quem está trabalhando, entenderá se aquela turma grande, de 30 alunos, debate mais os assuntos que a turma pequena, de 15. Ou se a turma com mais mulheres esticam pra mais ou pra menos seu cronograma. Se a turma com homens debatem mais, exigem mais conhecimento de vocês. É interessante perceber tudo isso na prática.

Dinâmica/metodologia

Para dar aulas para um público tão específico, é preciso compreendê-los, antes de tudo. Entender com quem você irá trabalhar é compreender o outro: como pensa, como enxerga as coisas, como vive, como se relaciona, quais são seus medos, seus anseios. Enfim, como se estabelece diante o mundo. Se você realmente conseguir abrir o corpo e o coração para entendê-los, tudo ficará mais fácil. Intuitivamente, você passará a desenvolver uma oficina genuinamente voltada para a terceira idade. E isso acontece por um motivo: eles se vêem parte do processo, dentro do todo a ser construído. Ao se reconhecerem, se esforçam mais para permanecerem ali, e por isso o maior interesse, maior a participação, o ânimo com seu trabalho.

O ensino deve ser horizontal, permitindo a participação efetiva dos alunos na construção do saber – porque o conhecimento é inacabado, já diria Paulo Freire. O ensino horizontal é honesto, e toca não só aos alunos, bem como o professor também. Aliás, o professor-agente cultural deve ser o elo mais consciente da relação aluno-professor. O professor deve saber e adotar essa postura com os alunos, permitindo que o conhecimento caminhe por vias multidirecionais. O que isso significa? Permitir que o conhecimento não parta só de você mesmo, mas abrir espaço para outros alunos dedicados, que trazem material, outros temas, outros assuntos a ser desenvolvido em aula. Significa ouvir o que eles tem a dizer, deixar com que eles coloquem um pouco de si ali. É claro o tempo será um problema, sempre teremos tempo, cronograma, planejamento. O professor deve funcionar como um mediador, mas nunca como um opressor. Esqueçam o formato professor fala, aluno escuta. Esqueçam mesmo, não funciona, e nem é interessante para ambas as partes. Você ainda não sabe, mas irá aprender muitas coisas com eles, se você se permitir a isso. Esteja lá para aprender também!

Concluindo essa primeira idéia, é interessante haver participação efetiva dos alunos – estimular a participação na escolha dos temas, dos locais das aulas práticas, e assim por diante.

Outro ponto importante é: como apresentar este conteúdo. A terceira idade é uma geração que tem suas limitações, como as crianças no começo da aprendizagem. Eles precisam de carinho, atenção, paciência. Como a absorção desse conteúdo é mais lenta, utilizo muito da repetição das idéias, recursos audiovisuais e táteis. Vamos lá, vou explicar um por um:

A cada ideia concluída, repita de forma sucinta o tema abordado. Posso apenas repetir o conteúdo, ou apresentar fotos, vídeos ou outros recursos que irão te ajudar nisso.

Utilize slides com texto e foto. Textos curtos sobre o tema que está sendo visto, e fotos para exemplificar.

Utilize recursos audiovisuais. O youtube tem vídeos excelentes, que podem ajudar muito na fixação do conteúdo. Na aula sobre pixel e tamanho de imagem, por exemplo, utilizo um vídeo muito legal que encontrei por lá. Esse vídeo mostra um grupo de fotógrafos que registraram uma panorâmica da cidade de Budapeste, com excelente qualidade de imagem e impressão. O vídeo mostra como tudo isso é feito: a panorâmica, as aproximações, o detalhe da imagem. Com isso, toda a teoria apresentada na aula se torna mais real, mais palpável.

Material impresso contendo os temas desenvolvidos é uma boa alternativa também. Isso deixa os alunos mais tranqüilos, acabam com aquela ansiedade deles anotarem tudo. Faça esquema, utilize gráficos, letras grandes, linguagem fácil.

Seja criativo, leve tudo que você tiver em casa para deixar a aula mais divertida. Nas aulas sobre luz, levo uma luminária e uma laranja para mostrar como a rotação da terra influencia na direção da luz. Leve fotos que você tiver em casa, faça com que eles revelem fotos e compartilhem com os colegas também. Lembre-se sempre de utilizar exemplos que incluam a realidade da terceira idade: um trecho de novela, uma fotografia que saiu no jornal, fotos de viagem. Enfim, sejam criativos.

Nem sempre você terá tempo de programar aulas práticas. Porém, nada impede de você fazer isso dentro da sala mesmo. Se você puder, peça uma sala bem iluminada com luz natural, com grandes janelas e portas.  Peça que eles façam exercícios práticos em casa também, e que tragam na próxima aula. Na faculdade em que ministro as aulas, há um jardim lindo que sempre usamos para nossas aulas práticas. Marque um encontro em outros locais, explore sua cidade. Eles adoram isso! E com certeza é a parte mais esperada do curso. Se você tiver tempo, marque estes encontros sempre – a cada três semanas de aula teórica, uma de prática em algum lugar assim.

Faça uma exposição dos trabalhos dos alunos toda vez que finalizo um curso. É lindo ver todos se ajudando para tirar as melhores fotos, escolher, revelar. Dá trabalho, mas o resultado fica maravilhoso. É uma maneira de reconhecer todo o esforço que eles tiveram durante o curso, e mostrar isso para outras pessoas. É uma maneira interessante também de divulgar seu trabalho para a comunidade.

Disponibilize a classe em semicírculos, que permitem maior autonomia do professor, além de permitir também que todos os alunos se vejam. Isso traz o aluno mais para a aula, permitindo a participação de todos.

Trabalhe com assistentes. Os idosos precisam de uma atenção maior que outros grupos específicos. Trabalhando com assistentes, é possível um trabalho mais próximo, suprindo as dúvidas individualmente. Eles só aprendem quando você mostra os botões os quais eles devem apertar. Lembrando que essa tecnologia não é dessa geração, há dificuldades nesse aprendizado. É freqüente a repetição das ações, das idéias, das técnicas; dependendo da quantidade de alunos, se torna impossível um professor só fazer o passo a passo individualmente com todos.

Se você leu até aqui, é porque realmente se interessa no assunto e está disposto a trabalhar com este público. Trabalhar com a terceira idade é mágico, é muito gratificante. Só não se esqueça que eles são muito carinhosos, sensíveis, e criarão laços afetivos muito estreitos com você. Não os decepcione!

Espero que este artigo tenha ajudado vocês de alguma forma. Qualquer dúvida, não hesitem em me escrever. Que a sementinha seja plantada, regada, colhida e semeada. Grande abraço a todos, e até a próxima!

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Paula Machado

Veio de longe, de terras vermelhas e quentes. Goiás, de tão pura e serena, a expeliu de seus ventos. Há quatro, Bauru acolhe seus ânimos, questionamentos e a vontade ansiosa de viver seus 22 anos. Jornalista, fotógrafa, neta de Maria Alice, tia de seis sobrinhos, irmã de outros quatro. Fotografa o tempo, o sorriso e o vento das crianças, dos lugares, dos instantes, da poesia. Trabalha desenvolvendo projetos culturais para a terceira idade e ministra aulas particulares de fotografia – na qual já lhe rendeu um lindo pé de acerola.

3 Comentários

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  • Oi Paula, bela materia. Como faço para receber a quarta parte e outros materiais?
    Quero trabalhar tambem com a 3ª idade
    Obrigado
    Dudu Tresca

  • Prezada Paula

    Prezada Paula
    Lí seus artigos. Gostei muito de seu trabalho. Pretendo montar um curso de iniciação à fotografia digital para grupos de terceira idade aquí em Recife. Pertencendo a essa faixa etária, admirei sua estratégia de compreensão e formas de desenvolver o trabalho com pessoas da terceira idade. Se possível gostaria de receber o detalhamento do conteúdo programático e outras informações que ajudasse a costruir a proposta . Como professor aposentado me dediquei como amador à atividade fotográfica. Estudando, como autodidata, comecei a ampliar os conhecimentos sobre o equipamento, técnicas e aspectos da composição. Sentir, então, a necessidade de divulgar os conhecimentos. A ideia é contrbuir para que essas pessoas se sintam perante novo desafio, iniciandos-se na prática fotográfica, porém de forma prazerosa.
    Parabéns.

    g

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