O ISO e o Ganho nas câmeras digitais 4.67/5 (3)

No tempo do filme havia uma verdade inabalável, quanto maiores fossem os grãos de prata colocados no filme, maior seria sua sensibilidade à luz e menor seria sua qualidade de imagem, a recíproca era verdadeira, quanto menores os grãos, menor a sensibilidade à luz, mas maior a qualidade de imagem.

Isso é fácil de entender, um grão de prata pequeno é como um grafite fino para o desenhista, permite desenhar detalhes, já um grafite grosso ou o grão grosso da prata, não permite esse detalhamento. No entanto, é fácil perceber que um grão maior tem mais condições de reter luz do que um grão menor, daí o aumento da sensibilidade.

Como vocês podem ver a coisa era simples, grão grande, imagem granulada e facilidade com situações de pouca luz, eram os filmes de ISO 800, 1600 e 3200. Grão fino, imagem detalhada e sem grãos, mas pouca sensibilidade, eram os filmes de ISO 50, 100, 200.

Haviam truques de laboratório que permitiam usar um filme de ISO 400 e revelar de forma que ele funcionasse mais ou menos como um filme ISO 800 ou mais, era a puxada de filme. Hoje em dia pouca gente sequer sabe o que era isso, mas acreditem, existiu e era fácil de fazer. Uma concentração maior de um químico, ou deixar o químico agindo mais tempo sobre o filme já resolviam esse tipo de situação.

Nesse tempo, uma câmera fotográfica, uma filmadora como uma Super8, uma câmera de cinema Super35mm, todas trabalhavam da mesma forma, com filmes, e esses filmes tinham ISO (naquela época chamavam de ASA mas os valores eram os mesmos)

Hoje você pode apertar um botão, entrar em um menu e mudar lá a regulagem do ISO de 100 para 6400 de uma foto para outra sem problemas, com o filme você tinha que tirar um filme e colocar outro, agora não, aperta um botão.

Mas como é possível alterar a sensibilidade à luz se os pixels dentro da câmera são os mesmos? Se eles permanecem do mesmo tamanho, ficam no mesmo lugar e não recebem nenhum tratamento químico diferenciado, como é possível?

Na verdade o ISO de uma digital é fixo, e nem deveria chamar ISO. Ela tem uma determinada capacidade de absorver luz, que é convertida em um sinal elétrico, que é convertido em sinal digital, e teremos um arquivo com a imagem no final da linha, mas não estamos falando de ISO, de grãos de prata nem nada disso. Esse processo todo é feito de forma que o resultado final se assemelhe em luminosidade ao que existia em filme, daí a analogia com o ISO.

O uso do termo ISO para chamar a sensibilidade de câmeras fotográficas foi um erro dos fabricantes de câmeras. Isso foi feito para facilitar a vida de fotógrafos visto que eles estavam acostumados com filmes, mas é um erro.

No mundo do vídeo, lá nos anos 80, quando popularizaram as fitas VHS e Betamax, as câmeras de vídeo não tinham ISO, o vídeo virou digital, abandonou a película, as fitas são mídias digitais e naquela época entenderam que não havia paralelo entre filme e digital, em um meio digital o que havia era o sinal elétrico e o ganho.

As câmeras de vídeo, para aumentar a sensibilidade, tem um comando chamado ganho. O ganho é aplicado em decibel (dB), no caso +6dB equivale a aumentar 1 ponto no ISO, +12dB são 2 pontos e assim por diante. Existem valores intermediários, assim +3dB equivale a aumentar meio ponto de exposição.

Isso faz sentido pois o ganho é aplicado da mesma forma que o aumento do volume num equipamento de som: um amplificador de sinal. E o que foi colocado nas câmeras de vídeo é isso, um amplificador de sinal, daí pararam de usar o termo ISO e começaram a usar ganho.

Aí vem a fotografia digital, anos depois e deveria ter feito o mesmo, usar o termo ganho, em dB, pois o aumento do ISO nas digitais é um aumento de sinal elétrico feito por um amplificador, a sensibilidade da câmera digital é fixa, só trabalhamos o sinal o amplificando, dando ganho ao sinal, mas os fabricantes decidiram que iriam continuar chamando de ISO e disso tudo nasce uma grande confusão.

Hoje acontece com alguma frequência que cinegrafistas comprem câmeras fotográficas que tem capacidade de gravar vídeos, e não entendam direito o que é ISO, visto que em filmadoras esse termo sumiu há anos. Também acontece de fotógrafos se interessarem por vídeo e ao adquirirem filmadoras ficam sem entender o que é o ganho.

É possível colocar uma câmera ao lado da outra, com uma determinada iluminação, e ir regulando tudo até as imagens baterem em termos de luminosidade, aí, estando com mesmas aberturas de diafragma (ou íris como é chamado no mundo do vídeo), mesmo tempo de obturador, poderá ser descoberto qual o ISO equivalente de uma câmera de vídeo quando comparada a uma câmera fotográfica e assim saber que +6dB irá dobrar essa sensibilidade, e assim por diante.

Outro ponto a mencionar é o ruído de imagem. Tendo clareza de que os pixels são de tamanho fixo dentro da câmera sabemos que o ISO ou a sensibilidade é fixa, o aumento de ISO ou de ganho, se dá por meios eletro-eletrônicos, e a qualidade desse processo determinará muito sobre a qualidade da imagem.

Um melhor processo eletro-eletrônico, além de melhores softwares internos para controlar todo o processamento e gravação dos arquivos determina mais a qualidade da imagem e menos ruído.

Hoje o processamento e a qualidade do trato dado ao sinal elétrico é mais importante do que o tamanho dos pixels e isso é provado por câmeras que tem cada vez mais megapixels, mas também tem menos ruído de imagem que suas gerações anteriores. Uma câmera atual na faixa dos 20 megapixels tem em ISO400 o ruído que uma câmera de 6 megapixels tinha em ISO100 há poucos anos, mesmo tendo pixels bem menores e em maior quantidade.

É por isso tudo que eu disse que era fácil no tempo do filme, hoje não temos como saber nada sobre toda essa engenharia aplicada sobre um sinal elétrico, como é esse processamento e o que a câmera faz dentro de si antes de gravar nossos arquivos.

No mundo da fotografia digital, nada é exatamente o que se imagina, nem o ISO.

Agora que leu, avalie o artigo e deixe um comentário mais abaixo:

  • Tambem recomendo o episodio 2 do Sangue Suor e Foto. Podcast sobre fotografia onde falam sobre ISO:
    http://www.sanguesuorefoto.com/2012/04/22/ssf-oo2

  • Junior-CPE

    Texto sobre matéria interessante e muito bem escrito, adorei.
    Nem imaginava que o nosso ISO não era um "ISO" propriamente dito.
    Dêem-me licença que vou ter que ir ali pedir desculpas pra minha EOS 300D, rs…

  • Ricardo Jorge

    Parabéns pelo texto. Há tempos que queira entender essa similaridade entre o ISO dos filmes e o que isso significava nas máquinas digitais.

  • Marcelo

    Tendo em vista que no artigo está dito que o "ISO"/sensibilidade da câmera digital é fixo, que a mudança de "ISO"/sensibilidade é uma mudança elétrica e que essa mudança gera os "ruídos", é certo pensar que o melhor "ISO"/senbilidade para fotografar é o "ISO"/senbilidade que é o fixo da câmera ? Se este pensamento estiver certo, como descobrir o valor deste "ISO"/senbilidade fixo ? Este "ISO"/senbilidade fixo também pode ser chamdo de "ISO"/senbilidade nativo da câmera ?
    Grato.

    • Armando Vernaglia Jr

      Olá Marcelo, em tese é isso mesmo, o ISO de projeto é o que terá melhor relação sinal/ruído. Na maioria das vezes, o ISO mais baixo da câmera é o seu padrão operacional. Isso nem sempre acontece em câmeras de vídeo, em muitas delas existem comandos de -6db e -3db, indicando que há regulagens negativas, ou seja, abaixo do piso de sensibilidade. Os fabricantes fazem isso por considerar que a câmera venderia mal se eles contassem a verdade sobre qual a sensibilidade mais baixa, pois os consumidores veriam que o desempenho do equipamento em situações de baixa luz não seria muito bom. Mas de forma geral, nas DSLR, o ISO mais baixo é o ISO de projeto, daí para frente é amplificação de sinal. Lógico que isso limitaria muito o uso do equipamento se só usássemos essa regulagem, o que temos é que ver até quando o ruído não é um problema e quando ele começa a ser. Por exemplo, nas EOS 5D MK II e EOS 7D, você quase não nota diferenças de ruído até ISO 400, são mínimas, mas daí em diante começa a ser mais perceptível, então temos que jogar com o que fazemos na exposição, nossa combinação de abertura, tempo e ISO para obter o melhor resultado.

  • Fernando

    concordo, a propaganda poderia estar abaixo do texto… uma imagem nesta posição geralmente refere-se ao texto..

  • Francisco Santos

    A matéria é muito boa, mas alguém tem que tirar esta propaganda de "crie seu próprio site" com esta pessoa mostrando a língua. Além de mau gosto é falta de educação e nós leitores não queremos isto.

    • Junior-CPE

      ah, essa nem me incomodou muito, a que enche o saco mesmo é essa da modelo fotografando, e que a cada segundo pisca o flash… putz, isso é horrivel quando se esta lendo o texto, rs…
      podiam pelo menos diminuir a velocidade das piscadas, né?

    • Armando Vernaglia Jr

      Devo dizer que concordo, na minha opinião a publicidade deveria estar na parte de baixo.

    • Armando Vernaglia Jr

      Obrigado! E devo dizer que concordo, na minha opinião a publicidade deveria estar na parte de baixo.

  • Muuuito legal a matéria! =D

    • Armando Vernaglia Jr

      Obrigado!

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