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Ansiedade Fotográfica

Iniciaria a partir deste mês uma série de artigos relacionados ao Direito de Imagem e Direito Autoral, mas, superstições a parte, achei que não seria bom iniciar esta série em um ano que já está terminando.

Por este motivo resolvi fugir um pouco do mundo jurídico para entrar no mundo dos devaneios filosóficos e abordar um tema que venho refletindo a algumas semanas:

Ansiedade Fotográfica

Vivemos num mundo pautado pelo excesso de informações: somos reféns das redes sociais, e-mails, sites de notícias, e ainda temos que conciliar tudo isso com nossa vida pessoal.

Num piscar de olhos as notícias mudam, as informações se tornam ultrapassadas e temos que aprender a lidar com esse fluxo contínuo e massivo que nos chega.

Queremos saber de tudo que está acontecendo no mundo, e queremos saber isso em tempo real, se possível que tenha lá uma câmera nos mostrando aquele fato importante que está acontecendo do outro lado do planeta.

Vivemos numa época em que, bem disse o filósofo Mario Sérgio Cortella, tudo é “fast”. O mundo moderno nos mostra que não temos “tempo a perder”, em outras palavras: o tempo urge e é preciso extrair o máximo dele. E é com esta filosofia, reforçada pelo tão falado “carpe diem” que atropelamos o tempo e criamos em nossa consciência um conceito de imediatismo.

A velocidade da informação atual, aliada com o desenvolvimento tecnológico avançado, gerou uma mudança de percepção que talvez seja mais visível para àqueles que acompanharam essa transição entre o mundo “analógico” e o mundo “digital”. Para os que nasceram e cresceram na era digital talvez toda essa celeuma que proponho não faça tanto sentido.

E talvez você esteja se perguntando agora: o que tudo isso tem a ver com a fotografia? Explicarei.

A fome voraz que temos hoje por informações e por avanço tecnológico fez com que nos tornássemos mais ansiosos. O imediatismo tomou conta dos nossos dias e queremos que tudo aconteça de maneira rápida, e isso acaba afetando a nossa maneira de pensar, agir e trabalhar.

Invariavelmente a fotografia foi atingida por essa ansiedade coletiva, e de várias formas, umas mais visíveis e outras mais intrínsecas, e denomino esse fenômeno de “ansiedade fotográfica”.

A mudança mais fácil de detectar é aquela imposta pela mudança dos equipamentos. Hoje as nossas máquinas são mais avançadas tecnologicamente e também são mais acessíveis. Isso fez com que uma grande legião de novos amantes e profissionais ingressassem nesta arte e também no mercado de trabalho.

Neste aspecto, o avanço tecnológico foi muito benéfico, pois está possibilitando que mais pessoas conheçam a fotografia e que se lapidem novos talentos.

O revés do mundo digital, para a fotografia, foi justamente o imediatismo que ele criou na cabeça dos fotógrafos. Queremos fazer a foto e já vê-la no visor de LCD (e ficamos nervosos se a foto demora alguns segundos para processar). Não deu certo? Não tem problema, temos poderosos softwares que podem corrigir as imperfeições. Ao descarregarmos as fotos para o computador também esperamos a mesma celeridade, e logo já estamos divulgando o trabalho recém realizado nas redes sociais, sites e blogs.

Não torço o nariz para os novos equipamentos, muito menos para as redes sociais, pois eu sou um consumidor assíduo dessas tecnologias. A minha crítica é quanto a este anseio que temos para que tudo aconteça de maneira rápida, para que tudo seja imediato.

O fotógrafo iniciante mal começa a fotografar e já vive a angústia por um novo equipamento, pelo melhor dos equipamentos. Estamos deixando de lado a essência da fotografia para discutirmos sobre máquinas, sobre novos lançamentos, sobre os novos recursos, mas estamos nos esquecendo de discutir sobre a luz, sobre a sombra, sobre a composição, sobre as nossas referências na fotografia, deixamos de tirar algumas horas na semana apenas para ver trabalhos de outros fotógrafos, por que estamos preocupados somente em divulgar o nosso trabalho. E por falar em trabalho, estamos querendo nos tornar uma referência dentro da fotografia muito rapidamente.

Hoje em dia tem se apertado muito o botão, mas e fotografado de verdade? Creio que o aprendizado hoje tem se dado muito mais pela repetição dos erros do que pela análise criteriosa daquilo que se fez. O que isso significa? Que a ansiedade fotográfica faz com que tiremos 10 vezes a mesma foto, para que depois possamos escolher uma (e se estiver imperfeita, basta corrigir), ao invés de fazermos somente uma! Uma vez apenas, se pensando antes de fazer a foto, tratando de corrigir os erros com os olhos e a cabeça, e não com o computador.

Essa não é uma crítica a quem está começando, ou àqueles que já estão no mercado, mas mal acostumados com essa condição do mundo moderno. É uma crítica coletiva e me incluo no meio dela, pois muitas vezes incorro no erro de pesquisar mais sobre um equipamento mais moderno que o meu, do que fazer uma pesquisa mais aprofundada sobre composição ou sobre novas tendências.

Proponho aqui que nos remetamos a um passado não muito distante, até uma época onde não existiam computadores, tablets, celulares, máquinas digitais. Imaginemos agora qual era a fonte em que os fotógrafos dessa época bebiam? Livros, publicações, aulas, palestras, troca de idéias com outros fotógrafos. Não é de se estranhar que os fotoclubes daquela época faziam muito mais sucesso do que hoje, pois era lá que os apaixonados pela arte podiam encontrar outros colegas e discutir sobre fotografia. Hoje nos encontramos em fóruns, grupos virtuais, comunidades, e acabamos nos esquecendo de sair para a rua (e como diria Eder Chiodetto em curadoria a Flavio Damm: “a fotografia está sempre lá, na rua), ver a luz, fotografar com os olhos, admirar as coisas tangíveis (e as intangíveis, quando a imaginação assim permitir).

Faço outra proposta: tentemos unir essa fantástica evolução tecnológica que temos hoje, esse vasto mundo de informação, esse acesso a trabalhos de outros talentosos fotógrafos (e o fácil acesso aos próprios artistas), com a maneira de aprender do passado. Vamos resgatar os velhos livros de fotografia, vamos comprar os novos livros de fotografia. Vamos discutir mais sobre a luz e menos sobre os novos lançamentos. Vamos fotografar mais, mas apertar menos o botão.

Vamos mudar a nossa maneira de pensar fotografia, resgatando a essência do passado, mas sem deixar de olhar para o futuro. Vamos deixar a ansiedade fotográfica de lado, e que possamos nos lembrar sempre daquilo que é verdadeiramente primordial.

“É impossível haver progresso sem mudanças, e quem não consegue mudar a si mesmo não muda coisa alguma.” (George Bernard Shaw)

Um abraço, um ótimo ano novo e bons clics a todos!

Diogo Ramos
Site: www.diogoramosfotografia.com.br
E-mail: [email protected]
Twitter: @diogoframos

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Diogo Ramos

Diogo Ramos, 26 anos, é fotografo e advogado, especialista em Direito de Imagem e Autoral. Desde criança esteve envolvido com a fotografia, vendo os trabalhos da coleção de seu pai. O interesse em fotografar surgiu somente após concluir a faculdade de direito, há dois anos atrás, quando realizou uma pesquisa sobre o Direito a Imagem e a Liberdade de Imprensa. A paixão pela fotografia foi tamanha que hoje se sente mais fotógrafo do que advogado, e exerce ambas as profissões conjuntamente.

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