Arte e religião: o limite entre a expressão e a ofensa 3.5/5 (10)

A primeira coisa que devo dizer sobre este artigo é que ele pode não apresentar respostas a quem procura. Contudo, levanta perguntas que podem ser pertinentes e que são passíveis de discussão, podendo até mesmo estas causarem algum desconforto. Usarei a fotografia como exemplo não apenas por ser o meu trabalho, mas pela temática do site. Ainda assim, abordarei “arte” de forma genérica. Não cabe a mim trazer a discussão do que, de fato, é ou não é arte, tampouco discutir a diferenciação entre trabalhos fotográficos de arte e comerciais, pois não é a função deste artigo

Fazia algum tempo que a iconografia cristã (mais precisamente a católica) me fascinava. A despeito de não pertencer a esta vertente do Cristianismo, sempre tive uma forte atração por suas representações estéticas, desde pintura à arquitetura, de escultura a vestuários. Depois de algum tempo planejando, resolvi que faria um ensaio que envolvesse tanto o nu quanto a dita iconografia.

Sua temática envolveria religiosidade, e eu precisava de signos visuais facilmente identificáveis, que tivessem a ver com o cristianismo. O resultado está abaixo. Na maior parte das fotos, a ideia era passar uma sensação de contradição (a nudez e a sensualidade aliadas ao recato que os signos religiosos demonstram), e em outras, suscitar uma discussão sobre a supressão dos desejos e prazeres pelos dogmas e convenções religiosas, numa dialética entre a normatização coletiva e a individualidade. Nada que questionasse a fé de ninguém, mas que pudesse estabelecer conexão com discussões contemporâneas, mantendo a estética escolhida.

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Não cheguei a receber nenhum feedback negativo (muito pelo contrário), mas certamente era um risco a ser corrido. Torci o tempo inteiro para que as pessoas que acompanhavam meu trabalho de perto não tomassem como uma ofensa pessoal, porque nunca foi minha intenção. Mas não fazer atentaria contra minha vontade de me expressar dentro de meu espaço. A ideia de espaço retomarei a seguir.

A questão do uso de símbolos religiosos em relação com a nudez é motivo de polêmica antigo, cuja resolução talvez nunca seja alcançada, e há diversos casos que poderiam ser citados. Para ficar em um exemplo relativamente recente: em 2008, o ensaio da atriz Carol Castro para a revista Playboy foi responsável por uma polêmica relativa ao uso de um rosário para uma das fotos. A imagem foi acusada de ser “erotismo vulgar” pelo secretário de comunicação da Arquidiocese de São Paulo na época, enquanto Carol castro se defendeu dizendo que a escolha se devia pelo fato de a equipe ter decidido fazer o ensaio inspirado na obra Dona Flor e seus dois maridos, de Jorge Amado. A atriz, inclusive, interpretava Dona Flor no teatro na mesma época, e pediu desculpas por eventuais ofensas, mas isso não foi o bastante para que a Playboy fosse proibida pela Justiça de voltar a utilizar a foto novamente.

Poder-se ia dizer que a nudez e a sacralidade andaram de mãos dadas, já que tantas das obras mais famosas da arte europeia foram encomendadas pela Igreja e lá estão os corpos humanos tomados de nudez. A Vênus de Botticelli e o Adão de Michelangelo em A criação de Adão, são dois exemplos claros. Contudo, há de se levar em consideração que tais imagens são, como tudo na história, fruto de seu tempo (a ideia de algo ou alguém estar a frente de seu tempo é completamente rejeitada na História). Elas fazem parte do período conhecido como Renascimento; o que estava a renascer nada mais era que a arte da Antiguidade, que em muitos aspectos diferia enormemente das iluminuras medievais. O termo teria sido usado pela primeira vez por Giorgio Vasari no século XVI, mas sua popularização e consolidação na forma como conhecemos deu-se apenas no século XIX diante dos estudos do historiador Jacob Burckhardt com a publicação de A cultura do Renascimento na Itália. Logo, o uso dos corpos nus ou seminus, tal como na arte clássica, voltava a estar em voga.

Contudo, um ensaio de nu artístico com simbolismos religiosos certamente atende a funções diferentes. Portanto, uma comparação entre estes dois exemplos seria não apenas forçada, mas anacrônica, pois a forma como consumimos as imagens, como espectadores, é pautada tanto pelo contexto da imagem quanto o contexto temporal do indivíduo e a sociedade na qual ele vive.

Tais escolhas estão intrinsecamente atreladas aos parâmetros dos envolvidos. Enquanto para algumas pessoas o uso de iconografia visual que remete a sua religião é uma atitude que ataca sua sensibilidade, para outras é apenas um signo visual como qualquer outro. Em certos casos, o ponto sequer é a discussão entre arte e ofensa, mas entre a provocação e a ofensa. E a terminologia importa.

A provocação é um questionamento: ela põe o indivíduo, instituição, ideologia, etc, diante de seus próprios paradigmas, tentando causar uma reflexão que pode tanto enfraquecer quanto reforçar suas convicções. A ofensa é um ataque.

Há outro ponto que julgo fundamental citado anteriormente, e que deve ser levado em conta nessa seleção terminológica: qual o espaço da provocação?

Recentemente um jovem chamado Yuri Tripodi adentrou a Catedral da Sé, em São Paulo, para realizar uma performance onde estaria praticamente nu, pretendendo questionar o padrão dos trajes para situações fúnebres. O incidente causou reações exacerbadas na internet, onde Yuri recebeu uma série de ofensas pela atitude.

Talvez o mesmo não tivesse ocorrido se a dita performance tivesse sido feita dentro de um espaço específico para apresentações artísticas, buscando uma linguagem visual que deixasse claros os objetivos dela, sem a necessidade do ambiente original; lá, os presentes têm ciência de que tipo de material que é apresentado. Temos também os espaços virtuais em caso de trabalho visual como pintura ou fotografia, como o portfolio pessoal do artista, página de Facebook, entre outros espaços abertos a esse tipo de prática, além de demais espaços públicos onde a inserção não seja feita dentro do espaço do “outro”. Realizar um performance em um local considerado sagrado para os fiéis de uma determinada religião invade um espaço inapropriado e abre precedentes para uma escalada de intolerância que, no mundo em que vivemos, é a última coisa que precisamos.

Para dar complexidade à questão do espaço, citemos o caso de um pastor da Virgínia, nos Estados Unidos, que faz suas pregações nu e incentiva os fiéis a também estarem nus, afirmando ser essa uma forma de igualar a todos na casa de Deus. Obviamente, a decisão levantou polêmica, mas estamos falando de um pastor, dentro do espaço de sua Igreja. Se quisermos definir uma relação de alteridade, o espaço do “outro” não foi invadido (ainda que não seja uma performance artística).

Há também quem afirme que a arte que se apropria de signos cristãos (mais predominantemente do catolicismo, por este ter uma iconografia muito rica e, para muitos, atraente além das crenças) para fins provocadores o faz apenas pela falta de medo de represália, e que o mesmo não acontece com, por exemplo, com quaisquer signos que possam ter relação com o Islamismo.

A afirmação de que a escolha dos elementos iconográficos cristãos, e não de outros, se dá apenas por medo me parece insuficiente. Ainda que alguns possam ter medo da intolerância de extremistas, temos que levar em conta que os costumes e os signos do islamismo são pouco conhecidos no Brasil. Além do mais, se a arte tiver um caráter de provocação, é compreensível que ela provoque o que tem maior evidência na questão, pois no caso das religiões, o cristianismo certamente é a que mais influenciou os costumes e a vivência cotidiana nas Américas, e a discussão sobre o quanto a religião deve atuar na vida civil é um debate efervescente em nosso país, principalmente após o crescimento da bancada evangélica no Congresso, das polêmicas envolvendo Marcos Feliciano, entre outros eventos.

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Por fim, há a questão do histórico do artista, que pode pesar na interpretação do espectador. Há quem faça de motor de seus trabalhos a provocação, polêmica e a excentricidade, como Trevor Brown e Joel Peter-Witkin, e nesse caso é muito mais fácil que a polêmica tome conta. Outros apenas optam por fazê-lo de forma muito tímida, e isso pode significar uma simples escolha estética, ao invés de uma necessidade em chocar e fazer da transgressão a marca de seu trabalho.

Termino este artigo me remetendo ao início: esta discussão mais levanta questões do que apresenta respostas. Estamos em um constante processo de disputa entre posicionamentos conservadores e progressistas em nossa sociedade, o que invariavelmente dificulta qualquer coisa próxima à unanimidade em uma questão como essa; no entanto, para todos aqueles que criam conteúdo artístico, ter no horizonte tais questões é importante. É um exercício de empatia humana pensar no potencial destrutivo que sua produção pode causar, e estar sempre disponível para apaziguar os ânimos e tentar estabelecer o diálogo com quem não compreende ou aceita sua proposta é algo válido. É fundamental estar preparado para a reação a um trabalho com potencial polêmico, por mais transgressor que seja o artista, pois ainda vivemos em sociedade, onde as tensões sociais existem e as escolhas possuem consequências.

Espero que, ao levantar essas questões, não tenha sido eu ofensivo através de palavras, e espero que todos os leitores que produzem material artístico possam refletir sobre o assunto e achar o seu caminho.

* Agradecimentos à Thays Tonin pelas excelentes discussões que muito contribuíram para a versão final deste artigo.

Agora que leu, avalie o artigo e deixe um comentário mais abaixo:

  • Ivani Medina

    Por que certa curiosidade histórica é encarada pela expectativa religiosa como uma cruel agressão a fé?
    “[…]. Porque não há coisa alguma escondida, que não venha a ser manifesta: nem coisa alguma feita em oculto, que não venha a ser pública”. (Marcos 4: 38-21)
    http://cafehistoria.ning.com/profiles/blogs/pague

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