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Daido Moriyama e a cidade como palco de sonhos e ilusões

- Última Atualização a: 13/06/2016

“Nome: Hiromichi (aka Daido) Moriyama; Data de nascimento: 10 de outubro de 1938; Local: Ikeda shi, Osaka; Profissão: Fotógrafo em atividade; stray dog. Vive em Tóquio desde 1961.”

Para os admiradores da fotografia do pós-guerra no Japão Daido Moriyama, de forma sucinta, é uma verdadeira lenda viva. Principalmente para aqueles que são adeptos do universo da “street photography” menos bressoniano e mais transgressor. Moriyama san e suas imagens monocromáticas – na grande maioria – granuladas ao extremo, borradas, (des)carregadas de significados foram uma das minhas maiores descobertas em terras nipônicas. Claro que não é necessário vir ao Japão nem morar aqui, para descobrir esse ícone da fotografia contemporânea, aliás ele é mais conhecido e admirado fora de seu país de origem.

Trem
Osaka by Akiti Dezem 2013

A representatividade de sua obra (considerada por muitos críticos no âmbito do “ame-a ou deixe-a”) por si só já vale uma coluna, além disso, o “cara” nasceu aqui na terrinha, Osaka.

O que me fez aproximar-se da obra de Moriyama san e admirá-la foi o seu estilo (ou, para alguns, a “falta de”) em retratar o universo urbano nipônico, principalmente a área de Shinjuku em Tóquio, verdadeiro microcosmo de uma das faces do moderno ethos nipônico. Já estive duas vezes em Shinjuku e posso afirmar que não há nada comparável por estas bandas osaquenses. A celebridade desse pedaço da frenética  capital nipônica se deve à presença da maior e mais movimentada estação de metrô do mundo (com mais de 100 saídas!) – você pode encontrar um universo sui generis nas apinhadas ruas/ruelas ao redor desse espaço ultramovimentado. Daí (a quase) obviedade de Moriyama san ao escolher esse mosaico urbano para nele viver, perambular – frequentar o mesmo bar por mais de 50 anos… – e FOTOGRAFAR

Muito mais do que um  flaneur  urbano na concepção do historiador francês Michel De Certeau, que em seu ensaio “Walking in the city”(1988), propõe duas formas de experimentar/ a cidade: observando-a – como voyeur – ou caminhando por ela – em flanêrie. Enquanto a primeira requer distanciamento, a segunda requer uma verdadeira imersão, ação primordial, Moriyama san, vai além das duas (!). O próprio se considera um “cão vadio”, um maverick, deambulando pelas ruas com sua câmera inspirado pelo canône beatnik On the Road do escritor norte-americano Jack Kerouac. Na essência de suas imagens Moriyama é muito mais um espectador/observador do caos urbano (i.e. Japão 1960-70) do que um crítico social. Na sua concepção “não sabemos se estamos na cidade de sonho ou pesadelo”, por isso caberia à Fotografia “borrar as fronteiras entre a realidade e irrealidade, júbilo e angústia…” Aliás, para compreender melhor o olhar de Moriyama sobre o frenesi urbano, alimentado pelo “desejo e erotismo”, selecionei um trecho da obra de Kerouac que ouso dizer ecoa até hoje no espírito de Moriyama aos 78 anos de idade:

“Dean rubbed his hands over the wheel. “Now we’re going to get our kicks!” At dusk we were coming into the humming streets of New Orleans. “Oh, smell the people!” yelled Dean with his face out the window sniffing. “Ah! God! Life!”He swung around a trolley. “Yes!”He darted the car and looked in every direction for girls. “Look at her!” The air is so sweet in New Orleans it seemed to come in soft bandannas; and you could smell the river and really smell the people, and mud, and molasses, and every kind of tropical exhalation with your nose suddenly removed from the dry ices of a Northern winter.”

Peixes
Osaka by Akiti Dezem 2015

Tendo sua formação na área de fotografia e influenciado esteticamente, dentre outras, pela obra (genial) do fotógrafo norte-americano William Klein, o jovem Moriyama obteve projeção nacional no final dos anos de 1960 como fotógrafo free-lancer e um dos membros do manifesto PROVOKE (プロヴォーク), formado pelos escritores Koji Taki e Takahiro Okada e pelos fotógrafos vanguardistas japoneses Yutaka Nakahashi e Takuma Nakahira, que, ao publicarem uma revista fotográfica homônima, literalmente “provocaram” fissuras profundas na estética fotográfica nipônica em apenas três edições e uma coletânea em livro publicadas entre 1968-1970.

Entre os vários livros de fotografia de sua autoria, quero citar aqui três: a sua primeira obra publicada, Japan a photo theater (にっぽん劇場写真、editora Muromachi Shobo,1968), o icônico (caro e raro) Farewell Photography (写真よさようなら, da editora Shain Yoron sha, 1972) e uma obra mais contemporânea (e acessível) Osaka plus (editora Getsuyosha ltda., 2007). Acabei por comprar este último e, ao folheá-lo calmamente, consegui identificar alguns lugares de imediato, outros mais recônditos (“the dark sides of Japan”, como o jornal britânico Daily Telegraph definiu o gosto de Moriyama san) só fui descobrir graças às andanças fotográficas por Osaka com meus caríssimos amigos fotógrafos da “velha guarda” Maeda san e Minoru san, grandes admiradores da obra de Moriyama san desde os seus primeiros trabalhos e que me mostraram cada canto retratado pelo nosso ídolo.

Mãos
São Paulo by Akiti Dezem 2014

Moriyama san também passou um tempo flanando pela metrópole paulistana à convite da comissão do centenário da imigração Japonesa em 2008, e o produto da sua visita foi publicado no livro São Paulo (editora Kodansha, 2009). Interessante ver a metrópole paulistana sob a perspectiva do experiente fotógrafo nipônico, ou seja, monocromática, borrada, granulada, com snapshots contundentes e ângulos inusitados. No entanto é uma de suas obras “menos” admiráveis, na minha humilde opinião. A razão seria por que sou “nativo” de Sampa? E por isso meu olhar já esteja acostumado/viciado com o vai e vem da tresloucada e poluída ex- cidade da garoa? Preconceito?…

Em tempo: Ele também tem outras obras publicadas com trabalhos realizados fora do Japão, sobre Nova Iorque, Buenos Aires, Havaí entre outros.

Vida longa a Moriyama san!

Links:

  1. http://www.moriyamadaido.com/english/#
  2. http://www.artic.edu/aic/collections/exhibitions/Ryerson/Provoke/4
  3. http://www.timeout.com/london/popular-venues/william-klein-daido-moriyama
  4. http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2014/11/1540847-um-fotografo-japones-no-rastro-de-jack-kerouac.shtml

Bibliografia:

  • Kerouac, Jack. On the Road. Penguim Modern Classics (2004)
  • Certeau, Michel De. “Walking in the city” in: The Practice of Everyday Life. Berkeley; University of California Press (1988)

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Rogério Akiti Dezem

Natural de Osasco (SP) é historiador, professor universitário e, nos últimos quatro anos, fotógrafo urbano pelas ruas da Ásia. Meu motto é: “O prazer de fotografar é mais importante do que a precisão”. Meu site fotográfico: http://akitidezemphotowalker.zenfolio.com/ Em maio de 2015 publiquei pelo Blurb minha primeira monografia fotográfica: ECHOES (2012-2015).

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