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Fotografia preto e branco em shows

A fotografia em preto e branco existe desde o início da fotografia tendo sido a fotografia monocromática a primeira forma conhecida em 1825, e em seguida em 1826 a primeira em preto e branco, ambas feitas pelo francês Joseph Nicéphore Niépce. No século 20 a fotografia colorida se popularizou, mas na maior parte do século a fotografia em preto e branco foi a mais utilizada, seja pela não existência de filmes coloridos sendo vendidos comercialmente, seja por ser a solução mais barata quando o colorido já existia para venda. Outra razão para a utilização da fotografia em preto e branco é a facilidade que um fotógrafo tem de revelar ele mesmo e obter o resultado que deseja nesse processo.

This photograph, the oldest known in the world, represent a Dutch engraving showing a man leading a horse. It was made by the French inventor Nicéphore Niépce in 1825.

Imagem obtida pela técnica de heliogravura por Niépce em 1825.

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Imagem considerada a primeira fotografia, feita por Niépce em 1826.

A citação de Ted Grant, além de poética, revela como a fotografia em preto e branco soluciona o problema do uso de muitas cores:

“When you photograph people in color, you photograph their clothes. But when you photograph people in Black and white, you photograph their souls!”.

Traduzindo livremente: “Quando você fotografa pessoas utilizando cores, você fotografa suas roupas. Mas quando você fotografa pessoas em Preto e Branco, você fotografa suas almas!”.

Uma das características de shows, sejam de dança ou musicais, é a utilização de iluminação artística multicolorida. Muitas vezes conseguimos fotos belíssimas mostrando justamente essas cores, porém na maioria das vezes ocorrem luzes no rosto ou pele do artista que não são realmente o desejado. Na realidade não só luzes com cores diferentes, como vermelho, azul, verde etc, geram fotos excelentes ou o problema indesejado. Luzes de temperaturas diferentes também ocasionam esse problema e mesmo hoje em dia existido balanço de branco automático o problema é de difícil solução.

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Espetáculo bem planejado onde as cores não incidem diretamente sobre o cantor facilitando a vida do fotógrafo.

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Outro espetáculo bem planejado onde as cores não incidem diretamente sobre os dançarinos facilitando a vida do fotógrafo.

O balanço de branco atual interpreta um instante anterior ao clique propriamente dito e em uma determinada área de medição. A luz pode ser alterada muito rapidamente em shows e em décimos de segundo a medição vai  toda por água abaixo. Outras áreas da foto também podem ter medições diferentes e a discrepância torna-se evidente. Mas essa é a descrição da pior  situação, pois as diferenças cromáticas podem resultar em uma bela fotografia. Se a foto não ficar boa, basta alterar o balanço de branco (se você estiver fotografando em RAW o resultado é bem melhor) posteriormente. Se ainda assim  não ficar como desejarmos,  podemos editar a parte com as cores que achamos estarem ruins e as escurecemos ou clareamos ou mudamos as cores nelas, utilizando recursos de edição digital. Mas, se mesmo assim não tivermos gostado do resultado, basta lembrarmos de Ted Grant e passar a foto para preto e branco e nos atermos aos contrastes e luminosidades. Podemos partir já para essa solução se não  quisermos perder muito tempo.

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Fotografia de um salão de baile onde a edição digital torna a imagem viável. Na fotografia analógica o recomendável seria fotografar em P&B. A cabeça do dançarino mostra diferença cromática para a pele normal, porém optei por não corrigir com pincel pois nesse caso a discrepância faz parte da fotografia propriamente dita. Gostei mais desse resultado do que a conversão em P&B.

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Nesta foto, optei pela edição P&B por razões estéticas, ao centro a original em RAW e na direita uma correção rápida de balanço de brancos mostrando que o rosto e um dos ombros do dançarino receberam outra iluminação e ficaram amarelados. Essa situação poderia ser corrigida, mas optei pelo P&B.

No tempo da fotografia analógica partir logo para a foto em preto e branco já era uma certeza de mais fotos sem problemas pois naquela época as soluções seriam bem mais difíceis que atualmente. Não existia  balanço automático, o balanço das temperaturas da luz era feito com filtros rosqueados na frente da lente, a maioria dos filmes eram balanceados para a luz do dia. Ou seja, qualquer que fosse a escolha de filme ou filtro era praticamente impossível trocar entre uma foto e outra em um  show. Daí a prevalência da fotografia P&B em show na era do filme.

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Nesta fotografia optei por dois cortes diferentes e num deles optei por P&B seguindo o senso comum de que fotografia artística de dança é em P&B.

Mas, o que a maioria não sabe é  que existia outra razão, em especial no que se refere a fotografia de dança. Todos sabemos que um show muitas vezes é escuro, em um show musical com cantor geralmente ele é bem iluminado e não se tem grandes problemas. Mas em dança uma determinada sequência e pose pode estar mal iluminada. Hoje temos isos altíssimos e utilizamos eles, mas no tempo do filme o iso, ou asa como se chamava, era 400 o normal e no máximo 800, isso para fotografias coloridas, aí é onde estava o pulo do gato dos filmes em P&B. Com eles se conseguia chegar em asas como 3200 por exemplo, o que era uma grande melhoria em relação ao filmes coloridos. Mas aí alguém diria que se o espetáculo fosse bem iluminado não seria necessário essa solução. Bem, fotografia de dança é bem diferente de fotografia de show musical nesse  detalhe. Na dança nós  precisamos de um mínimo de velocidade 1/200 para congelar um movimento e o ideal seria até mais rápido que isso. Daí a necessidade de lentes claras e isos altos. No tempo do filme já tínhamos lentes claras e a velocidade e abertura já era como hoje (de modo geral), então o gargalo era a asa/iso e o filme em preto e branco minimizava esse problema.

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Nesta foto a imagem do centro é a original e nota-se que existia muita iluminação vermelha com dançarinas utilizando o vermelho no figurino. A edição da esquerda é a que eu gosto, porém nela se perdem alguns minutos e em eventos com centenas de fotos isso faz diferença. Já a imagem da direita foi feita em segundos utilizando o Irfanview, que é um visualizador gratuito de imagens e que tem alguns ajustes básicos.

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Imagem com uma situação semelhante à anterior. A original está ao centro e o rosto recebeu uma iluminação colorida. Da direita a edição rápida em P&B pelo Irfanview e na esquerda a edição elaborada onde usei um pincel para modificar o balanço de branco apenas do rosto da dançarina. Novamente a solução rápida do P&B já seria bem aceitável.

Nas duas imagens anteriores, uma edição elaborada em P&B teria resultado ainda melhor que o do Irphanview o que demonstra como o P&B resolve rapidamente algumas situações. Se fosse no tempo da fotografia analógica, fotografar diretamente em P&B seria a solução ideal.

O que eu queria expor com este artigo era justamente a necessidade de utilização do filme preto e branco em shows para solucionar problemas técnicos e não simplesmente para ser mais “artístico” o resultado. Hoje não existe mais essa necessidade, salvo problemas insolúveis de balanço de branco e luzes coloridas. Possivelmente a visão artística atual do P&B em show decorre mais pelo costume de se ver foto em P&B da época do filme, que era feita para termos as soluções técnicas citadas.

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Marco Antonio Perna

Fotojornalista de dança desde 1997, publicando no portal dancadesalao.com e mídias especializadas em dança, para onde também escreve regularmente. Analista de Sistemas com mestrado com ênfase em processamento de imagens.

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