O Fotojornalismo e suas ligações com a foto documental 5/5 (1)

Neste artigo irei estabelecer uma diferenciação entre a fotografia documental e o fotojornalismo, visto que são separados por uma tênue linha que os conceitua. A acepção de fotojornalismo pelo autor Jorge Pedro Sousa define o termo em sentido lato e em sentido estrito. No sentido lato, o fotojornalismo é a “atividade de realização de fotografias informativas, interpretativas, documentais ou ilustrativas para a imprensa ou outros projetos editoriais ligados à produção de informação de atualidade”.

No sentido estrito, entretanto, o fotojornalismo é a atividade que visa informar, contextualizar, oferecer conhecimento, formar, esclarecer ou marcar pontos de vista através da fotografia de acontecimentos e da cobertura de assuntos de interesse jornalístico.  O fotojornalismo, em sentido exato, tem como meta transmitir informação de maneira objetiva e instantânea, diferenciando-se da fotografia documental, que tem como prioridade desenvolver um trabalho mais interpretativo e elaborado.

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A fotografia documental é um gênero fotográfico que engloba uma grande diversidade de propostas éticas e estéticas, constituindo uma verdadeira espiral de contradições e aderências sobre a sua prática, valores e propósitos. Temas sociais, impressões sobre o mundo, vida cotidiana, cenas de guerra, registros de viagens, os mais diferentes tipos de fotografias podem ser classificados como documentais. Alguns autores como Gisèle Freund consideram o caráter documental inato à fotografia, o que significa que toda foto pode ser considerada um documento e representação da estrutura social de uma época. Outros, como o português Jorge Pedro Sousa, apresentam o documentarismo social – que está relacionado diretamente a temas de caráter social – como a forma mais comum de fotodocumentarismo.

A fotografia documental atual possui, ainda, em suas veias, características da estrutura clássica do documentarismo, o qual fora solidificado nos anos 1930. Esse modelo foi esculpido no século XIX, com os primeiros documentaristas, a exemplo do escocês John Thomson (1837-1921), o dinamarquês Jacob Riis (1849-1914), a americana Margaret Sanger (1879-1966) e o alemão Heinrich Zille (1858- 1929), que se dedicaram de forma apaixonada à fotografia social. Nos anos 30, auge do modelo, os fotodocumentaristas procuravam se estabelecer sob o tripé: verdade, objetividade e credibilidade. Para o inglês Derrick Price  “o arquetípico projeto documental estava preocupado em chamar a atenção de um público para sujeitos particulares, frequentemente com uma visão de mudar a situação social ou política vigente”.

Desta maneira, podemos compreender que a fotografia documental se utiliza de técnicas e processos específicos, que têm como decorrência um material com características próprias. Incumbe ressaltar que este trabalho exige um prévio estudo do tema e também a criação de uma plataforma de abordagem, bem como pesquisas auxiliares.

Vale assegurar que para um enfoque documental do patrimônio é necessário que seja realizada uma avaliação precedente do mesmo, com o intuito de blindar nesta documentação todos os pormenores históricos, sociais, culturais e artísticos do bem, que fazem a caracterização da identidade dos indivíduos, bem como da nação e do povo que se vê refletido naquele patrimônio, a fim de que obtenha como resultado um trabalho documental de validade intemporal.

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Ao contrário do fotojornalismo diário, a fotografia documental produz de maneira mais impactante efeitos perceptivos que transcendem ao que é mostrado na imagem. Mencionando Sontag , “fotografar é atribuir importância” . Neste fato, podemos perceber que em muitos episódios o patrimônio carece desta importância atribuída por uma imagem. Compete aqui advertir acerca da subvalorização do patrimônio e sua consequente degradação através de fatores naturais, e a má conservação por parte da sociedade na qual se encontra inserido, gerando a necessidade de que tudo seja documentado para gerações vindouras.

É imprescindível destacar que a fotografia documental já flui marcada como representante da verdade, ou seja, é a paladina da veracidade dos eventos, e ainda hoje seguramente labora como vigilante da autenticidade dos fatos. Como observa a pesquisadora espanhola Margarita Ledo, “a foto será sinônimo de imagem transparente, sem armadilha nem mentira, de imagem informativa, sobre fatos reconhecíveis e legíveis, entendíveis […]”

O instantâneo documental é, enfim, a documentação de um fato real por intermédio da imagem. Traz como objeto essencial a construção da realidade, se propõe a narrar a história por meio de uma sequência de imagens. Acena totalmente com algo palpável, de forma material, já existente, que se fixa com a finalidade de registrar e reproduzir com fidelidade a aparência. Para consolidar a confiança, para sustentar tal valor, apesar de não poder garanti-lo totalmente.

É através da fotografia documental que se apresentam os maiores relatos da história, laborando como uma máquina do tempo, com função testemunhal. É imperativo proferir que a foto documental não inventa e, por isso, desempenha um papel de documento. Documento este que deve ser preservado e valorizado como fonte de história, memória e cultura de um povo.

Fonte das Imagens: shutterstock.com

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  • Sergio

    Bom dia!
    Relacionado ao tema, preciso trabalhar a questão de "Quando a fotografia Jornalística se torna uma fotografia documental", poderiam me ajudar, por favor?

    Obrigado!

  • Kleberson Gomes

    Ótimo texto. Obrigado por compartilhar conhecimento!

  • Inocencio Samuel Gomes Rosario

    Boa noite amigos, amantes do fotojornalismo. sou um futuro jornalista e que gosto muito ter esta formação de fotojornalismo porque nela consigo exprimir os meus sentimentos, as minhas inspirações. tenho a certeza e a honra e o respeito de admitir que aquio tem os maestros nessas árias, quero saber quais são os segredos de uma boa foto? Quais são os segredo para um bom enquadramento? como enquadrar um plano em fotojornalismo ?

  • Bruno,
    Eu poderia seguir o caminho de Sontag ou mesmo me apoiar no referente de Barthes ao falar sobre a fotografia como documento , mas acho que temos que ir além do que já foi escrito e pensar, com todo respeito, por nós mesmo. Seu texto é exatamente isso: pensar por si mesmo. Na sua inferência, você produziu uma análise que mostra uma diferença entre duas modalidades da fotografia.
    Apesar de toda a simpatia pelo seu raciocínio, vou tomar a liberdade de dizer que não há diferença entre fotojornalismo e foto documental pelo simples caráter de documento que o jornal dá as fotos produzidas pelo repórter de imagem. Em um livre exemplo, as fotos da guerra do Vietnã produzidas para jornais e revistas é um documento histórico com a validade recebida pela credibilidade de onde foi publicada que se soma ao valor ético de quem a capturou.
    Bem, foi só um pensamento surgido devido ao seu texto., que é muito bom!.
    Parabéns e continue a escrever sobre fotografia e fotojornalismo porque nós precisamos.
    Abraços,
    Alan Marques

    • Bruno Lisita

      Ola Alan, primeiramente, obrigado pelo comentário. Entendo o que diz perfeitamente, sei que em alguns casos o fotojornalismo e a documental se entrelaçam. O caso citado das fotos do Vietnã é uma dessas "misturas".
      O que quero dizer é que regra geral, eles se separam no momento anterior a foto.
      A partir do momento em que há um estudo prévio sobre o que será registrado e como será registrado e com que finalidade, essa foto é documental. Por que ela carece desse fundamento para existir.
      Outra situação é a captura de um instante qualquer que somente mais tarde se torna importante, e de caráter documental. Que é o que ocorre no fotojornalismo em sua maioria.
      Concordo contigo que o importante é discutir para acrescentar. Esse texto foi retirado de um trabalho acadêmico que fiz, e não necessariamente irá refletir a realidade do trabalho de campo.
      Abraços
      Bruno

      • Eu achei sensacional o texto e como agrega à nossa profissão. Eu sou estudante de mestrado na UnB com meu problema de pesquisa no tema as mudanças conceituais do momento decisivo de Cartier-Bresson com a fotografia digital.
        Por isso e mais tudo isso que achei muito bom seu texto e sua reflexão.
        Grande abraço e, se precisar de algo, estou aqui na terrinha!

  • Cristiane Passos

    Importante contributo para a área da fotografia. Ótimo texto.

    • Bruno Lisita

      Obrigado pelo comentário Cristiane

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