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Mikiko Hara (1967) e o “não olhar”decisivo…

Estava rascunhando a minha breve análise da obra de uma das grandes referências da fotografia japonesa – e mundial – Shômei Tomatsu (1930-2012) para ser publicada nesta coluna, quando, durante uma pausa, comecei a folhear o suplemento da revista Asahi Camera deste mês (abril) cujo o tema é sobre a cidade de Quioto e mais uma edição do seu festival de fotografia (Kyotographie 2017).

Para minha surpresa, inserido no suplemento, havia um belo encarte com fotografias coloridas em médio-formato (6×6), típicas memórias urbanas deslocadas (i.e snapshots) que emanavam um ar nostálgico, suave e distante. Fiquei admirado com as imagens… Tratava-se de uma série de fotografias com o título de CHANGE da fotógrafa japonesa Mikiko Hara. Ela é a mais recente ganhadora do Ihei Kimura Award um dos mais tradicionais e importantes  prêmios da fotografia no Japão.

Fazia um tempo que eu não ficava tão instigado pela obra de um(a) fotógrafo(a). Já havia lido (e visto) alguns trabalhos de Hara san, mas as imagens estavam isoladas e dentro de outros contextos. Desta vez vi o trabalho dela belamente impresso em uma série. Isso contribuiu decisivamente para o meu regozijo imagético. Sensação muito diferente – na minha  opinião – de ver as imagens de forma esparça em uma tela de computador. Para mim a sensação tátil potencializa a (boa) obra fotográfica. Sim, “old school” total…

Graduada em Literatura (Universidade de Keio) e em Fotografia (Faculdade de Fotografia de Tóquio) Hara san levou algum tempo para encontrar o seu “estilo” e pensou em desistir por várias vezes da fotografia. Foi em meados da década de 1990, após ter contato com a obra do fotógrafo norte-americano Garry Winogrand (1928-1984)  que se deu a “eureka” na sua forma de enxergar e lidar com o ato de fotografar. Segundo ela:

Garry Winogrand é um dos meus fotógrafos favoritos.Eu gosto dele porque vejo suas fotografias como sendo algo muito físico. Não tão compostas ou pensadas.  Ele não fotografa com a mente , mas por impulso.

Reconhecida como uma das grandes fotógrafas japonesas não só no Japão, mas no exterior, a obra de Hara san vem sendo exibida, discutida e premiada desde o início do milênio e faz parte de coleções permanentes no Paul Getty Museum, na Biblioteca Nacional da França e no Museu de Arte de São Francisco.

Nesta coluna gostaria de prestar minha reverência à fotógrafa a partir de três pontos referentes ao seu trabalho: a) o uso de uma única câmera (analógica); b) o não uso do viewfinder e c) o distaciamento/aproximação com os sujeitos fotografados (ou seriam “captados”?).

Após fazer experimentações usando câmeras digitais e analógicas, ela encontrou em uma clássica (e bela!) Zeiss Ikonta “folding” câmera dos anos 1930, sua fiel e inseparavável parceira desde meados da década de 1990. A câmera foi adaptada à uma lente Agfa Solinar de 75mm f/3.5, produzida entre as décadas de 1950-1960 para os modelos Super Isolette da empresa alemã Agfa. O interessante é que essa lente, como a maioria na época, foi projetada visando a fotografia em branco e preto, daí o médio-baixo contraste, mas extremamente nítida. Esse combo (Zeiss + Agfa) aliado ao tamanho 6×6 do negativo colorido (Kodak Portra 400) produz um belíssimo efeito vintage nas imagens, algo cinemático, nostálgico e com um ar de retratos de família. Detalhe técnico importante a ser ressaltado, pois acaba por criar uma primeira aproximação do nosso olhar na tentativa de decifrar (ou fruir?) o vocabulário estético da fotógrafa japonesa que em vários momentos trânsita entre o banal e o contemplativo. Sobre fotografar usando uma câmera analógica, Hara san faz a clássica observação de muitos dos amantes da fotografia em filme:

Com a fotografia digital, você fotografa e vê o resultado no mesmo momento. Se você não gostar, você pode apagar a imagem no mesmo instante. Mas com filme, leva um certo tempo para esperar, revelar e imprimir as imagens. Durante este tempo, seus sentimentos em relação a(s) imagem(ns) pode(m) mudar. Quando você passa um tempo com uma imagem, acaba criando uma forma de relação com ela. Com o tempo você poderá acabar gostando de uma imagem que você teria uma relação não muito clara no início.

No entanto, o que mais me intrigou, quando li sobre a técnica de fotografia urbana de  Hara san foi que ela não olha pelo viewfinder ao fotografar (!!), ou seja ela não faz o enquadramento da imagem com os olhos dela, mas com os olhos honestos (sic) da câmera… Ela fotografa posicionando a silenciosa Ikonta na linha do peito ( “from the hip”) e intuindo o enquandramento. Artíficio arriscado usado por muitos fotógrafos urbanos, geralmente iniciantes na arte, ou não, como no caso (extremo) do fotógrafo o norte-americano Mark Cohen e suas lendárias imagens em close-up e from the hip pelas ruas da Pensilvânia nas décadas de 1970 e 1980.

Ao não fazer uso do viewfinder, sempre fotografando “às cegas”- tentando ser o mais discreta possível – ela constrói um diálogo diferente com os seus objetos, misto de deferência e invasão (polida) do espaço do(s) sujeito(s) fotografado(s) à uma distância focal “segura” possibilitada pela lente de 75mm (e