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O que é ser autor?

Em tempos de práticas colaborativas, de equipes fotográficas assinando trabalhos profissionais ou mesmo artísticos sem colocar seus nomes mas sim com um logotipo que identifique um coletivo assim como se fosse uma marca de sabão ou refrigerante chega a ser estranho falar em autoria, mas é por isso mesmo que resolvi tratar deste tema.

Vejo com preocupação ou no mínimo com inquietação o surgimento de coletivos fotográficos nos quais os participantes optam por não terem seus nomes junto às obras, mas sim a marca ou nome do grupo, do conjunto.

Minha estranheza sobre isso se deve ao fato de que o mundo como conhecemos se deve aos autores, sujeitos individualistas que gravaram seus nomes na história, gente como Michelangelo, Da Vinci, Mozart, Beethoven, Bresson, Doisneau e outros. Até mesmo em áreas nas quais sabemos que há uma grande necessidade do trabalho coletivo, como no cinema, ainda assim temos Hitchcock, Kubrick, Chaplin e a lista segue infinitamente.

O que seria do mundo sem esses autores? O que seria das artes se durante a renascença Michelangelo e Da Vinci, entre outros do período, parassem de competir e passassem a colaborar criando um coletivo pictórico da época? Teríamos por certo grandes obras, mas não as mesmas que eles deixaram para a posteridade. Seriam geniais? Não temos como saber, mas sabemos que o individualismo dessas pessoas rendeu muito do que conhecemos por genialidade.

Posso citar mais nomes, de relance passam pela minha cabeça de Einstein a Niemeyer, de Van Gogh a Jorge Amado, é uma lista infinita de gênios, individuais, e autores.

É lógico que poderemos citar grandes parcerias, Toquinho e Vinícius para começar, irmãos Coen no cinema, irmãos Campana no design, ou quem sabe um coletivo com marca muito famosa, Beatles. Mas mesmo eles sendo famosos como banda nunca deixaram de existir individualmente como Lennon, McCartney, Harrison e Starr, marcaram com suas personalidades e assinaturas a história da música.

Com esse discurso não quero que fotógrafos sejam eremitas, muito pelo contrário, quero que cada vez mais haja colaboração, que haja projetos coletivos de exposições, livros, campanhas etc., mas o que não quero é ver gente talentosa deixando seu nome de lado em favor de um logotipo como se pessoas fossem sabão ou refrigerante.

Ser autor é colocar as suas referências, crenças, valores, gostos e preferências no trabalho, isso tudo é individual e não coletivo, o que faz com que a criação coletiva acabe pressupondo um resultado fruto do ponto comum entre os participantes, deixando de lado todo um oceano de especificidades individuais.

Lógico que ser autor traz um risco. O autor coloca para fora seus medos, angústias, lamentos, e também alegrias, preferências, esquisitices, insere tudo isso na obra, e ao assinar assume para a sociedade que aquilo tudo é fruto daquela pessoa, sem disfarces ou máscaras. Enquanto a coletividade abriga com maior proteção, permite dividir os fracassos e problemas para que ninguém carregue a carga sozinho, permite o esconder atrás do logotipo estilo marca de sabão.

Não ter um nome próprio e assinar como grupo para mim é assumir que é uma engrenagem substituível, sai um, entra outro, a equipe continua trabalhando como se fosse uma fábrica, como se arte pudesse sair de fábricas, eu sinceramente não acredito nessa possibilidade.

Posso estar sendo preconceituoso, mal informado, mas faço questão de assumir esse risco assinando esse artigo, assim como minhas fotografias, vídeos, projetos de consultoria, cursos e tudo mais que faço. E não deixo de ter uma equipe fabulosa ao meu lado em praticamente todos esses projetos e de creditá-los sempre pelo que fazem, mas sou autor do meu trabalho.

Reitero que apoio a colaboração, desde que cada um assine sua parte, desde que cada um corra seu risco, assim como fizeram os gênios que nos inspiram diariamente. Não se deve esconder sua alma e história atrás de um logotipo de refrigerante, é nisso que acredito.

E vocês, o que acham dessa onda coletiva colaborativa que muitas vezes apaga o indivíduo?

Nos vemos em breve,
[]’s

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