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 A Popularização da Fotografia 4.04/5 (26)

Um Estudo Sobre a Disseminação da Fotografia na Sociedade Contemporânea e Suas Consequências Para os Fotógrafos.

O desenvolvimento das mídias e a acelerada modernização dos processos de produção da imagem tornam cada vez mais abundantes o acervo de informações visuais presentes no cotidiano, porém, a sociedade mostra-se pouco apta para acompanhar tais avanços.

Essa enorme produção de informações visuais exige do receptor um grau de percepção e absorção cada vez mais apurado, entretanto, o que se encontra é um público receptor, por vezes, desavisado quanto ao potencial da linguagem visual, e que, por este motivo, não a trata com a devida atenção.

A fotografia é um dos meios de comunicação visual que alcança boa parcela da sociedade e que possui uma grande credibilidade junto à mesma, devido ao seu contexto histórico social. Em decorrência do forte desenvolvimento tecnológico alcançado pelas indústrias, a câmera fotográfica tornou-se um bem de consumo de relativa acessibilidade à população. Com custos reduzidos e com uma forma cada vez mais compacta, a câmera fotográfica é um objeto presente no cotidiano da sociedade, tendo deixado, há tempos, de ser item exclusivo de profissionais da área.

Se fotografias estão sendo produzidas a todo o momento, por pessoas de diferentes áreas de atuação, o que define, atualmente, um fotógrafo profissional? Quais os efeitos trazidos pela popularização da imagem fotográfica aos profissionais da área e suas produções? Qual a visão da sociedade sobre tal popularização? É em torno dessas questões que se desenvolveu a discussão do presente artigo, que objetiva produzir reflexões acerca da evolução da fotografia e seus efeitos.

Tem-se por objetivo com este estudo refletir sobre os efeitos da democratização/popularização da fotografia sobre os fotógrafos e para a sociedade como um todo; Analisar as consequências que a democratização/popularização da fotografia trouxe em relação à qualidade técnica e à estética da imagem fotográfica; Verificar o quanto o avanço tecnológico contribuiu para as transformações na vida profissional do fotógrafo e, consequentemente, para a sua produção.

Para alcançar os objetivos propostos foi necessário traçar um levantamento bibliográfico sobre o tema, assim como, realizar uma pesquisa de campo por meio da aplicação de dois questionários.

Foi realizado um levantamento bibliográfico objetivando relacionar os principais autores que contribuíram para o desenvolvimento da pesquisa na abordagem sobre os efeitos da democratização/ popularização da fotografia sobre os fotógrafos; as consequências que a democratização/popularização da fotografia trouxe para a qualidade técnica e estética da imagem fotográfica; e o quanto o avanço tecnológico contribuiu para as transformações na vida profissional do fotógrafo e, consequentemente, para a sua produção. Esse embasamento teórico foi desenvolvido de forma a explanar a evolução da fotografia e assuntos correlatos.

Para complementar o levantamento bibliográfico, foram realizadas pesquisas de campo, sendo utilizados dois questionários como instrumentos de pesquisa.

O primeiro questionário, de ordem qualitativa, é constituído por perguntas subjetivas e tem como público alvo aqueles que vivem da fotografia, conhecidos como fotógrafos profissionais. O segundo questionário é objetivo e busca atingir a sociedade como um todo, sem restrições de nível social ou acadêmico.

Os profissionais entrevistados correspondem às mais variadas áreas da fotografia, abrangendo os gêneros artísticos, fotojornalismo, documental, social, ambiental e comercial. As questões presentes nesse instrumento de pesquisa objetivaram analisar a opinião dos profissionais da área quanto às mudanças trazidas ao campo profissional em decorrência do avanço tecnológico. Buscou-se, também, compreender como os entrevistados encaram a crescente popularização do equipamento fotográfico e, consequentemente, da própria fotografia. Além disso, procurou-se analisar como é encarada pelos fotógrafos a disseminação da imagem fotográfica na sociedade contemporânea. O questionário foi encaminhado para 30 profissionais da área e obteve-se resposta de 15 deles. Nas citações das entrevistas, para que a privacidade dos entrevistados fosse mantida, os entrevistados foram enumerados, aleatoriamente, de 1 a 15.

Quanto ao questionário de múltipla escolha, de ordem quantitativa, o mesmo é voltado ao público geral (sem restrição de faixa etária, gênero, classe social ou escolaridade), esse foi desenvolvido de forma a buscar compreender a maneira como é vista a fotografia pela sociedade como um todo. Procurou-se, também, entender a função do fotógrafo de acordo com a opinião da sociedade, além de se investigar o grau de acessibilidade da fotografia no cenário contemporâneo. Para isso, foram entrevistadas 100 pessoas.

Tendo em mente que o foco dessa pesquisa é analisar os efeitos da popularização da fotografia, procurou-se descobrir qual o seu grau de acessibilidade na sociedade contemporânea. Para isso, buscou-se analisar, por meio do questionário objetivo, quantos entre os entrevistados possuem câmera fotográfica.

Possue Câmera Fotográfica

Como se pode observar 94% dos entrevistados possui câmera fotográfica, o que sustenta a teoria de que está ocorrendo certa popularização da fotografia. Uma vez analisado tal assunto, procurou-se compreender o quanto a evolução tecnológica contribuiu para que ocorresse tal popularização. Para isso, buscou-se saber quantos dos respondentes possuem câmera digital.

Quantos dos respondentes possuem câmera digital

Nota-se que a maior parte dos respondentes (74%) possui câmeras digitais. Dessa forma, observa-se certa “hegemonia” dos equipamentos digitais em relação aos analógicos, podendo-se, assim, afirmar que o advento do equipamento digital teve grande peso na popularização da fotografia. No entanto, deve-se notar, ainda, que há aqueles que possuem tanto o equipamento analógico quanto o digital, ou até mesmo, apenas o analógico. Sendo assim, pode-se cogitar que, da mesma forma como a pintura não se extinguiu com o advento da fotografia, é possível que a fotografia analógica coexista com os processos digitais.

Depois de observado que grande parte dos entrevistados tem acesso ao aparelho fotográfico, procurou-se compreender a visão dos respondentes quanto ao papel desempenhado pela fotografia na sociedade. As opiniões quanto ao assunto mostraram-se bastante divergentes.

As opiniões

Nota-se que grande parte das respostas voltou-se ao caráter de registro ou recordação/ memória, contrapondo-se a uma minoria que relaciona a fotografia a um meio de expressão de pensamentos. Tal fato traz à luz a questão de que a fotografia é ainda encarada, pela maior parte da sociedade, como depositária da função lhe foi concedida em seus primórdios, ou seja, a de retratação fidedigna do “mundo real”.

Também se buscou descobrir qual a opinião dos leigos entrevistados em relação à possibilidade da fotografia tornar-se obsoleta e, consequentemente, de ser substituída por outras mídias.

Opinião dos leigos entrevistados em relação à possibilidade da fotografia tornar-se obsoleta

Nesse caso, a maioria, ou seja, 80% considera que a fotografia não virá a ser substituída por outras mídias, o que contrasta com a opinião de alguns autores citados anteriormente.

Sabendo-se que a sociedade acredita ser a fotografia uma forma de comunicação visual relevante, que não vai ser extinta, buscou-se então compreender a visão que esta tem em relação à função do próprio fotógrafo.

A fotografia não virá a ser substituída por outras mídias

Ao contrário do que se esperava no início da presente pesquisa, grande parte dos leigos entrevistados (83%) considera o papel do fotógrafo de significativa importância, atribuindo-lhe a tarefa de informar, testemunhar, registrar e provocar, na sociedade, reflexões sobre o assunto fotografado. Essa atribuição confere ao autor das fotografias grande valor perante a sociedade, pois esse deixa de ser apenas alguém responsável por registros, para tornar-se influenciador de opiniões. O fotógrafo não é considerado, assim, apenas como o responsável pelo disparo do botão de uma câmera fotográfica.

Como foi mencionado anteriormente, este estudo buscou não restringir-se apenas à opinião da população leiga quanto ao processo evolutivo da fotografia, mas procurou refletir também sobre a visão dos profissionais da área.

Levando em conta o atual “fácil” acesso aos equipamentos fotográficos na sociedade, primeiramente, questionou-se a opinião dos fotógrafos acerca das diferenças entre os profissionais e os amadores em relação à fotografia. Constatou-se que, para eles, o maior fator de distinção entre o amador e o profissional é a exclusividade em relação à atividade fotográfica.

O papel do fotógrafo é significativamente importância

Sobre esse assunto, o entrevistado número 01 considera que fotógrafo profissional é aquele que sobrevive da atividade fotográfica. O entrevistado número 02 compartilha da mesma linha de pensamento, ao afirmar que o profissional vive da fotografia, e o amador fotografa simplesmente por prazer.

Em resposta ao questionário, contrariando o senso comum, o entrevistado número 03 defende que, por vezes, a produção fotográfica do amador pode superar a do profissional, em certos aspectos ao afirmar que a única diferença entre eles é que um vive, profissionalmente, da fotografia e o outro não. Muitas vezes, por não ter o compromisso de ter que vender a foto, o fotógrafo amador dá mais espaço para a experimentação, para ouvir suas convicções e pode desenvolver trabalhos mais conscientes, sem as “ditaduras do mercado profissional”. O entrevistado número 10 segue um raciocínio diferente do defendido pelos demais entrevistados, ao afirmar que não é a “quantidade de fotos” ou “quantos anos”, muito menos o “equipamento” que definem o profissional. Existem alguns detalhes que não se aprende em livros, quanto menos sozinho. É a troca de informações que pode acelerar a evolução da técnica e qualidade.

Os equipamentos fotográficos vêm evoluindo espantosamente nas últimas décadas. As câmeras digitais mostram-se cada vez mais compactas e com custos de produção reduzidos. Como consequência desse fenômeno, pode-se observar certa popularização da própria fotografia. Tendo isso em mente, objetivou-se considerar também o olhar do profissional quanto a esse fenômeno de popularização, cogitando-se a existência de certa banalização da fotografia. Os entrevistados mostram-se divididos, havendo grande controvérsia em relação ao assunto.

Fotógrafo profissional é aquele que sobrevive da atividade fotográfica

Ao contrário do que se pré-supunha, a forte popularização da fotografia e o seu acelerado nível de produção não são interpretados, pela maior parte dos profissionais entrevistados, como fatores que trouxeram a banalização da fotografia.

O entrevistado número 07 vê o fenômeno da popularização da fotografia como positivo: Quanto mais se popularizar, melhor, hoje se fotografam com câmeras compactas, celulares, webcams. Alimentar a prática da fotografia é criar motivação, cabe aos profissionais criar produtos e serviços para seduzir os anseios dos clientes. O entrevistado número 08 corrobora ao afirmar: Quanto mais pessoas fotografarem melhor, afinal é um modo de expressão. Em resposta ao questionário, o entrevistado número 06 afirmou que jamais a imagem será banalizada, popularizada sim. O entrevistado número 08 também considera a popularização da fotografia como um fenômeno positivo, chegando até a observar que com isso democratiza-se o discurso visual.

Já o entrevistado número 09 expressa uma visão diferente: Sim, ocorre uma banalização. O Facebook é um exemplo. Fotos péssimas e fora de foco. Este último é o princípio básico, informado em qualquer manual.  O respondente entrevistado número 04 também acredita que haja certa banalização da imagem fotográfica. Em relação a esse assunto, ele relata que a banalização está aí, hoje mesmo recebi uma resposta de uma agência dizendo que não faríamos mais o trabalho, pois o próprio cliente fez as fotos (que acredita serem boas) e assim desenvolverá as peças da campanha. Ainda sobre a banalização das fotografias, o entrevistado número 05 afirma: Acho sim que a imagem está banalizada. Mas acredito que a saturação vai atingir um teto e vai cansar. Hoje, o que se vê é um excesso de fotografias tratadas e manipuladas ao extremo. É um deslumbramento da tecnologia. Daqui a pouco, perde a graça, como brinquedo de criança.

Como questão final a ser analisada, levando-se em conta o contexto atual da “era da internet”, buscou-se analisar o posicionamento dos fotógrafos em relação aos inúmeros meios de veiculação da imagem presentes na mídia (fotologs, blogs, sites de banco de imagens etc.) e a facilidade de exposição das fotografias trazidas por esses meios de comunicação. Verificou-se que a maior parte dos entrevistados encara essa facilidade de exposição como uma mudança positiva.

Banalização da fotografia

Sobre esse assunto o entrevistado número 03 mostra-se otimista e afirma que:  Muita gente expõe, publica e mostra seus pensamentos, possibilitando uma troca de cultura e conhecimentos cada vez maior.

O entrevistado número 04 mostra que há tanto efeitos positivos quanto negativos em relação aos novos meios de exposição da fotografia. Para ele, o ponto positivo é visibilidade, estar disponível em todos os lugares, para todos. Porém existe a banalização. Estar em todos os lugares é relativo, pois que lugares são esses? Muitas vezes, é melhor estar em poucos, porém bons endereços. O entrevistado número 02 tece um comentário bastante interessante ao afirmar: Acho que é positiva pelo avanço técnico e pela praticidade em termos de criação e divulgação. Entretanto, fico imaginando como vamos, eventualmente, separar a boa fotografia da fotografia ruim, com uma produção tão grande e tão descartável, na maioria das vezes.

Por fim, em resposta à indagação em relação aos efeitos positivos ou negativos trazidos pela evolução tecnológica e popularização da imagem, o entrevistado número 06 responde à pergunta por meio de outra indagação: Daqui a cinquenta anos, como será a fotografia?

O envolvimento do fotógrafo com o assunto fotografado é de grande relevância, pois, “se fotografar é conferir importância a algo que atrai nosso interesse, então o respeito pelo que fotografamos é compreensível e indispensável” (FELIZARDO in PERSCHIETTI, 2000, p.144), sendo assim, além de fotógrafo, deve-se ser também, um eterno estudioso acerca dos assuntos abordados nas produções fotográficas. Pode-se, então, cogitar que uma das diferenças entre o amador e o profissional reside em seu grau de consciência sobre o seu próprio trabalho.

O que difere um do outro, de qualquer forma, não exclui nenhuma das partes, seja amador ou profissional, o fotógrafo deve […] testemunhar, assistir, enxergar, divisar, distinguir, perceber, percorrer, encontrar, observar, deduzir, construir, imaginar, fantasiar, examinar, investigar, calcular, prever, ponderar, considerar, julgar, reconhecer, contemplar, mirar… (FIRMO in PERSCHIETTI, 2000, p.106).

Vejamos um exemplo:

Contextualizando os fragmentos na composição fotográfica.

A-Popularização-da-Fotografia

“Fiz esta foto para homenagear os amigos de profissão e os amantes da fotografia, no último dia 08 de janeiro – Dia do Fotógrafo. O livro “Tudo Sobre Fotografia” representa a dedicação aos estudos, o caminho para o conhecimento, que são ferramentas indispensáveis para um diferencial em nosso ofício. A rosa sobre o livro… Dar um botão de rosa de presente é ideal quando você quer demonstrar o seu carinho, seu amor de forma mais sutil. A cor azul da rosa… A rosa azul não existe naturalmente, sendo obtida por variações genéticas; é geralmente descrita na literatura como símbolo de amor e prosperidade aos que a procuram. Em algumas culturas, esta rosa tradicionalmente significa mistério ou a busca ou o alcance do impossível. Acredita-se que elas tragam ao dono juventude ou a realização de um desejo. Historicamente, o simbolismo vem do significado das rosas na “Linguagem das flores” comum na Era Vitoriana. Pertencente ao Reino Unido, foi o período do reinado da rainha Vitória, em meados do século XIX, de junho de 1837 a janeiro de 1901. Este foi um longo período de prosperidade e paz. É preciso vislumbrar sua foto antes de fazê-la”.

A evolução dos processos de produção da imagem fotográfica, principalmente após o advento da tecnologia digital, potencializou/catalisou a popularização da fotografia. Tal popularização, inevitavelmente, trouxe mudanças para os fotógrafos profissionais e suas produções, pois, em tempos em que praticamente todos têm acesso ao equipamento fotográfico, e, consequentemente, produzem fotografias, os profissionais tiveram que passar por certas adaptações. Porém, é igualmente importante pontuar que mudanças ocorrem também sobre o modo como a fotografia é vista e tratada pela sociedade.

Do ponto de vista daqueles que têm como ofício a fotografia, os assim “intitulados” fotógrafos profissionais, são divergentes as opiniões acerca dos efeitos trazidos pela popularização da mesma. Existe o pensamento de que a popularização trouxe fatores negativos, como a desvalorização do ofício e até mesmo da própria fotografia. No entanto, há também os que defendem a ideia de que essa popularização resultou numa crescente diversificação e na troca de informações no âmbito fotográfico, chegando até mesmo ser possível falar em democratização dessa linguagem visual. De qualquer forma, o que se observou ser largamente defendido é o fato de que, devido ao alargamento da produção da fotografia, seja por amadores ou profissionais, os fotógrafos devem elevar a qualidade de suas produções, não só no aspecto técnico, mas também no estético e conceitual, de modo que possam criar diferenciais e expressarem o real valor de suas imagens.

Por meio da pesquisa de campo realizada, foi possível observar que os leigos também têm conhecimento sobre a importância da fotografia, pois notou-se uma certa evolução sobre o modo como a sociedade a vê.

Acredita-se que a popularização dos aparatos fotográficos iniciou um novo processo que se traduz pela democratização da fotografia. Todos passam a ter a possibilidade e o direito de produzir imagens fotográficas, o que contribui para a diversificação das informações e dos discursos visuais, no entanto, é necessário não perder de vista o senso crítico e o apreço pelo desenvolvimento de produções inovadoras e relevantes, neste cenário de constantes transformações no âmbito da atividade fotográfica.

Um forte abraço e até a próxima.

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Karine Scarabelli

Iniciei meu trabalho como fotógrafa profissional em 2010, colaborando em coberturas fotográficas de eventos políticos na Câmara Municipal de Belo Horizonte | MG e escrevendo matérias didáticas para a revista Vitrine Gospel. Atualmente trabalho como fotógrafa de imprensa – BH Eventos: http://www.bheventos.com.br/ e em projetos pessoais: http://karinescarabelliftg.com/ Leciono também o Curso de Fotografia Digital Teórico e Prático: http://karinescarabelliftg.com/curso-de-fotografia/


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