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Publicar ou não?

Na semana passada, o embaixador dos Estados Unidos na Líbia, J. Christopher Stevens, e três funcionários também americanos morreram em um ataque ao consulado do país em Benghazi. Fotos de Stevens inconsciente pouco antes de morrer rodaram o mundo e gerou uma discussão interessante.

Em seu web site, o New York Times incluiu uma dessas imagens na galeria de fotos sobre o assunto. Em seguida, recebeu uma enxurrada de emails questionando sua relevância jornalística. Para muitos, publicá-la foi uma escolha de mal gosto. Uma das mensagens dizia: “Se fosse o seu amigo, ou seu familiar, como você se sentiria ao ver essas imagens?” As outras que acompanham os artigos ou aparecem em apresentações de slides são suficientes para dar ao leitor/espectador uma ideia clara do que aconteceu. Mostrando fotos identificáveis de pessoas mortas ou morrendo, e identificar as pessoas em si, é nojento e desnecessário.”

CLIQUE AQUI PARA VER A IMAGEM (13)

O embaixador dos Estados Unidos na Líbia, J. Christopher Stevens, inconsciente

No mesmo dia, a editora do jornal, Margaret Sullivan, se manifestou a respeito. Em seu artigo, Sullivan afirma que foi uma decisão difícil. O editor do web site e os principais editores do jornal se reuniram para discutir o assunto. Para eles, a foto é horrível, mas é notícia. O argumento é válido. “Nós não hesitamos em utilizar imagens de iraquianos, sírios e Kadafi mortos. Nós estamos em guerra há anos. Nós temos mostrados muitos corpos“. 

Imagino que ninguém quer ver um parente ou amigo nessa situação. Mas o leitor não reclamou ao ver Kadafi morto. Portanto, se a questão é a dignidade do ser humano, seja ele um ditador, uma criança ou um diplomata, deveria ser respeitada sob qualquer circunstância.

Primeira página do New York Times de 13 de setembro de 2012

O editor do web site diz acreditar que a foto chocou por se tratar de um americano, particularmente um diplomata americano. Me pergunto se o motivo é esse, ou se na verdade eles não querem que o inferno da guerra chegue tão perto. Enquanto os civis mortos são pessoas distantes fisicamente e culturalmente, aparentemente, não é um problema. Mas esse é outro assunto.

O caso todo me fez lembrar uma das últimas entrevistas de Marie Colvin, jornalista morta na Síria. Questionada sobre o uso de imagens de uma criança fatalmente ferida, Colvin diz: “Eu acredito que devem ser mostradas. Eu imagino que é até mais forte para o espectador, para quem não está aqui. Mas essa é a realidade. São 28 mil civis, homens, mulheres e crianças se escondendo, indefesos. Esse bebê é uma das crianças que são feridas todos os dias (…) E penso: o que está acontecendo e por que ninguém está impedindo esses assassinatos que estão acontecendo todos os dias em Homs (Siria)“.

Essa é a função do jornalismo. Levar a notícia e a realidade do que acontecendo até seu espectador. Isso é o básico. Se os leitores se incomodaram com o que viram, talvez não é para o jornal que deveriam mandar emails. A culpa não é do mensageiro.

Alguns jornais, como o The Washington Post e o The Wall Street Journal, optaram por não utilizar a foto em questão. No Brasil, foi publicada em diversos web sites de notícias e jornais.

No fim de seu artigo, Sullivan afirma que, apesar da decisão, não gostaria de vê-la na primeira página do New York Times. E no dia seguinte, foi o que aconteceu.

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Amanda Perobelli

Formada em jornalismo, começou a fotografar na faculdade e trabalha com fotojornalismo desde então. Trabalhou para jornais, revistas, e sites e em 2008 morou em Londres. Quando estava na terra da rainha, teve uma publicação na revista Millionaire de Toscana, Itália. Além do fotojornalismo, hoje também faz retratos.

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