Processando as notícias: retoques no jornalismo 4.88/5 (8)

Toda imagem digital deve passar por software antes que você a veja. Mas quando cada pixel é afetado, quem decide o que é real?

por Scott Alexander

O fotojornalismo na era digital é carregado de exposição ao risco. E isso traz questões sobre objetividade, verdade, ética e decepção em evidência. Enquanto a fotografia de notícias continua sendo vital para nossa compreensão de mundo, uma confusão tanto na consciência pública quanto entre os fotógrafos sobre o uso do Adobe Photoshop e outras ferramentas de edição de foto ameaçam corroer sua credibilidade e destruir seu poder de dar luz. Fotógrafos, editores de fotografia e outros defensores da fé fizeram disso sua missão para apoiar uma série de padrões jornalísticos em relação a processamento de imagem e manipulação. O problema é que nem todo mundo concorda sobre o que essas regras devem ser.

“Não acho que  que tenhamos realmente compreendido a escala da revolução digital”, diz o escritor/pesquisador David Campbell, secretário do Concurso World Press Photo. Ele aponta que toda imagem digital já feita foi processada, mesmo que o seu criador nunca tenha olhado sequer de relance para a ferramenta de clonagem. “Digital é fundamentalmente diferente de analógico porque não há imagem original”, diz Campbell. O arquivo RAW é apenas dados. Para ver uma imagem, precisa-se processar. A questão não é se poderia permitir processar, e sim se o processamento pode ser transparente e mostrar apenas como o processamento foi feito”

Campbell e o World Press Photo são partes particularmente interessadas nesta arena. Em 2013 Paul Hansen, ganhador do prêmio de Foto do Ano do World Press Photo em 2012, foi acusado de manipular o conteúdo de sua foto “Gaza Burial”. Embora a foto de Hansen tenha sido finalmente inocentada e o prêmio mantido, a controvérsia foi calorosa o suficiente e tocou tão profundamente na credibilidade básica do meio e do concurso que a organização autorizou Campbell a falar com quantos meios de comunicação quantos fossem possíveis e criar um melhor relatório de práticas em fotojornalismo e fotomanipulação (deve ser concluído neste outono [no hemisfério norte] mas não estava disponível a tempo útil de constar aqui).

Campbell diz que organizações de notícias e documentários construíram certo consenso sobre o que não é aceitável. “Alteração material da imagem, incluindo ou excluindo determinado item” parece ser um padrão que todos podem aceitar, como ilustrado pela história de Narciso Contreras, um excelente fotógrafo de conflitos que, enquanto trabalhava para a Associated Press, usou software para retirar a câmera de vídeo de um colega numa foto de um soldado de oposição na Síria, no meio de uma batalha. Quando ele chamou a atenção da AP para o incidente, os jornais eletrônicos condenaram severamente Contreras, afirmando que iriam remover seu trabalho de seus arquivos fotográficos públicos, incluindo as fotos que, juntamente com o trabalho de outros fotógrafos, ajudou a AP a levar em 2013 o prêmio Pulitzer [a foto e a história da polêmica estão aqui]. A história é de partir o coração — Contreras é um trabalhador árduo e talentoso fotógrafo que estava provavelmente trabalhando sob exprema pressão — mas ao final seu caso não era controverso. Há uma linha clara acerca de adição ou remoção de elementos, e Contreras muito claramente a ultrapassou.

Quando tratam-se das fronteiras mais sutis do pós-processamento, no entanto, encontra-se, surpreendentemente, pouco consenso na área da indústria. Campbell diz que um olhar para a época do laboratório para guiar-se fornece uma pequena luz. “As pessoas frequentemente dizem aceitar mudanças na mesma linha do que fariam no laboratório, mas este pensamento é falho”, ele afirma. “Você pode fazer o que quiser no laboratório, e as pessoas fizeram. Dificilmente isso pode ser a base do que é aceitável ou não.”

Na verdade, a prevaricação analógica era comum. “Havia um antigo truque nos tempos dos jornais impressos para fotografar golfistas”, diz Ashley Gilbertson, fotojornalista da agência VII. “Você não poderia ter a bola de golfe bem em frente à sua objetiva, já que isso seria como ter o golfista batendo na bola diretamente em sua direção. Lembro de ouvir histórias voltando para casa de fotógrafos usando uma moeda de 20 cents como ferramenta de queima (burning tool) para fazer parecer-se com a bola entrando no quadro.” Mesmo abstendo-se de tal nível de manobras criativas no laboratório, Gilbertson nunca entendeu a atitude “está tudo bem na medida que você pode fazer o mesmo na câmera”, ele diz. “Isso significa que filmes com processamento cruzado e vazamentos de luz são todos OK, mas brincar com saturação no Photoshop não.” Entretanto Gilbertson diz que usou uma mão um tanto mais pesada em seus dias de laboratório, clareando e queimando significativamente para criar drama em suas fotografias. Agora, no entanto, “Tenho um toque bem mais leve porque nossa indústria passou a ter muito mais escrutínio do que nunca.”

Todos fotógrafos com quem falamos para este artigo referenciaram os perigos da erosão na confiança pública em imagens documentais. Stanley Greene, um fotojornalista e um dos fundadores do coletivo NOOR expôs isso claramente, dizendo que a fotomanipulação faz os fotojornalistas “irem por um mau caminho”, e que “somos os mensageiros, os buscadores das verdades, precisamos ser os únicos que mostram os cantos mais iluminados e negros do mundo. Quando os espectadores não podem mais confiar na foto ou no fotógrafo que a fez, não somos nada mais que embusteiros.”

Fred Ritchin, professor de fotografia e produção de imagem na Universidade de Nova York e autor de vários livros na áre a de jornalísmo sobre o futuro da produção de imagem, diz que a controvérsia faz com que os dias de hoje sejam “uma época difícil e dolorosa para ser um fotojornalista”, e que a falta de padrões entre as diferentes publicações tem potencial para criar um ambiente onde “as pessoas podem não acompanhar seriamente certos eventos ou coisas que estão ocorrendo pelo mundo.” E continua: “Se você vai a uma livraria e pede por não-ficção ou ficção, você sabe a diferença e o que você vai obter. Mas neste ponto não sabemos realmente o que é uma foto de ficção ou não-ficção.”

Culpar o Photoshop  pelo fato do fotojornalismo ser visto com suspeita é criar um padrão duplo, diz Ron Haviv, premiado fotógrafo de conflitos e cofundador da VII. Isso também revela uma desconfiança ingênua e equivocada. “Quando eu clico em película, escolho filme e filtros baseado no visual que quero apresentar no produto final.”, ele diz. A tradição do fotojornalismo sempre levou em conta o valor estético, quer façamos isso com um computador ou com escolhas de filmes, ou ainda no laboratório. Eu poderia escolher um determinado suporte de filme por querer cores impactantes, como nos cartuns. Mas se faço isso no computador, isso é visto como muito além da conta.”

Mas Haviv argumenta que a forte consciência do Photoshop entre as pessoas em geral é algo bom. “O público está por dentro, agora”, afirma. “Ninguém faz a mínima ideia do que os fotógrafos faziam no laboratório. Agora as pessoas estão tentando encontrar o ponto-limite entre o que é o que não é aceitável, porém isto é uma perseguição enganadora. Não estou mentindo para você, mas isto não é objetivo. Estou pedindo ao espectador que confie em mim, esta é uma representação honesta da realidade.”

(c) Yuri Kozyrev - Cairo, 11/fev/2011
(c) Yuri Kozyrev / NOOR — Cairo, 11/fev/2011

O fotojornalismo digital tem um ás na manga: dados. Toda foto digital deixa um rastro quando passa por uma câmera ou é processada por algum tipo de programa — essa é uma das diferenças definitivas entre o fotojornalismo analógico e o digital. Agora é incumbência dos fotógrafos certificarem-se de serem capazes de documentar precisamente o processo que eles passaram para chegar à versão final de qualquer foto que eles queiram consideradas documentárias. Campbell registra que a nomenclatura precisa também é muito importante ao designar o que foi feito em um arquivo. Ele diz: “Manipulação refere-se a mover os pixels atuais (com exceção da remoção de poeira do sensor), enquanto que ‘processamento’ é tudo que foi feito para transformar dados em uma imagem. A verificação, claro, é primordial para entender se qualquer uma dessas técnicas foi aplicada em primeiro lugar.”

“Profissionais estão caminhando para a necessidade de seus trabalhos tornarem-se verificáveis”, diz. “E verificação pode implicar que criadores de imagens tenham uma pista para que todos vejam. Você poderia ver todas mudanças no Photoshop, todas mudanças do Lightroom, assim como geolocalização da imagem e quem envolveu-se em sua criação. Quanto mais você deixa que os leitores vejam como uma linguiça é feita, mais confiança eles têm nela. Quanto mais verificável é uma imagem, mais autêntica ela será considerada.”

A questão de como tornar essa informação transparente não é de agora. Desde os tempos de 1994, Ritchin advogou pela adoção de um ícone que mostraria as imagens-base. Para fotos online, quando clicado o ícone listaria todos processamentos pelos quais a imagem passou.

Ainda assim, o debate sobre o quão longe é muito longe não deve desaparecer tão cedo. “Na NOOR temos um código de ética com o qual todos concordamos, um princípio que é sem adição, sem retirada”, afirma Evelien Kunst, diretor de gestão da NOOR. “Mas existem nuances que debatemos, e mesmo entre os fotógrafos da NOOR existem diferentes pontos de vista.” Se um coletivo fotográfico de 12 pessoas possui problemas na concordância de tais distinções, há alguma esperança quanto ao resto de nós?

De certa forma a verificação aprimorada na era digital pode, por fim, anular a necessidade de respostas universais. De fato, é possível que o legado confuso e obscuro do pós-processamento digital seja o maior presente que o fotojornalismo já tenha recebido. A briga por clareza em torno de nossas imagens documentais nos lembra que nenhum fotojornalista detém o monopólio da verdade, todos possuem um ponto-de-vista e uma estética. “Até mesmo não ter estética é uma estética”, diz Haviv.

O nascimento do Photoshop pode ter marcado a morte de nossa inocência fotográfica, mas a inocência é superestimada. Trinta anos atrás era fácil acreditar que fotografias eram representações reais da realidade. Mas sabemos agora que isso nunca foi o caso. Viver num mundo onde realidade é um conceito fluido pode parecer inconstante, mas se podemos confiar em nossos fotojornalistas e continuar sendo capazes de verificar seu trabalho, o fotojornalismo pode encontrar-se fora do abrigo de suas restrições prévias e capaz de explorar novas largas vias de expressão. Como Gilbertson colocou, “Dependendo do lado da cama em que acordei, posso pensar que uma forma de processar a foto é melhor que outra. Mas o conteúdo subjacente é o que não se altera.”

 

PONTOS-LIMITE

Um mapa de algumas diretrizes utilizadas por várias organizações de notícias, das minimalistas às mais complexas.

 

DO CÓDIGO DE ÉTICA DA ASSOCIAÇÃO DE FOTÓGRAFOS DE IMPRENSA AMERICANOS (National Press Photographers Association – NPPA) – www.nppa.org/code-of-ethic

A edição deve manter a integridade o conteúdo e o contexto das imagens fotográficas. Não manipule imagens ou adicione ou altere o som de forma alguma que possa enganar os espectadores ou deturpar os sujeitos.

 

TRECHO DOS  “NOVOS VALORES” DA ASSOCIATED PRESS (AP) – www.ap.org/company/news-values

O conteúdo de uma fotografia não deve ser alterado no Photoshop ou por quaisquer meios. Nenhum elemento deve ser adicionado digitalmente a ou subtraído de qualquer fotografia. Os rostos ou identidades de indivíduos não devem ser obscurecidas por Photoshop ou qualquer outra ferramenta de edição. Apenas retoque ou o uso da ferramenta de clonagem para eliminar poeira no sensor da câmera e riscos em negativos ou impressões escaneados são aceitáveis.

Ajustes menores no Photoshop são aceitáveis. Isso inclui corte, clareamento e escurecimento, conversão para escala de cinzas e ajustes normais de tons e cores que devem limitar-se ao minimamente necessário para reprodução clara e precisa (análogo ao escurecimento e clareamento anteriormente utilizados no processamento de imagens em laboratório) e que restaurem a natureza autêntica da fotografia. Mudanças na densidade, no contraste, nas cores e nos níveis de saturação the alterem substancialmente a cena original não são aceitáveis. Fundos não devem ser borrados digitalmente ou eliminados por escurecimento ou tonalização agressiva. A remoção de olhos vermelhos de fotografias não é permitida.

 

DA POLÍTICA EDITORIAL DO GETTY IMAGES – www.gettyimages.com/corporate/editorialpolicy.aspx

Nós acreditamos que fotografias são a comunicação visual de uma história e devem ser mantidas sob níveis iguais de responsabilidade, consciência e integridade assim como as palavras escritas no jornalismo. Imagens ilustram e refletem os eventos de nosso mundo hoje e portanto possuem o dever de serem entregues ao cliente com precisão e imparcialidade.

 

DO GUIA RÁPIDO DE PADRÕES, PHOTOSHOP E LEGENDAS DA REUTERS – www.handbook.reuters.com

Alteração material de uma figura em Photoshop ou quaisquer outro programa de edição de imagem conduzem as regras de demissão: Sem adições ou subtrações à questão do sujeito da imagem original (assim como mudança do conteúdo original e a integridade jornalística de uma imagem); Sem pós-iluminação, escurecimento ou borrados excessivos (assim como enganar quem a vê encobrindo determinados elementos de uma imagem); Sem manipulações excessivas de cor (assim como alteração dramática das condições originais de iluminação de uma imagem).

Permitidos: corte, ajuste de níveis para limites do histograma, correções de cor menores, nitidez a 300%, 0.3, 0, uso cuidadoso da ferramenta de seleção detalhada (lasso tool), uso sutil da ferramenta de escurecimento, ajuste de altas-luzes e sombras, conta-gotas para checar/ajustar cinza.

Não Permitidos: adições ou subtrações à imagem, replicações & ferramenta de correção pontual (healing tool) (exceto poeira), aerógrafo, pincel, pintura, nitidez extra excessiva em área selecionada, iluminação/escurecimento em pós excessivos, mudança de tons de cor excessiva, níveis automáticos, borrados, ferramenta de apagamento, máscara rápida, nitidez extra aplicada em câmera, estilos de saturação em câmera.

 

DIRETRIZES PARA SUBMISSÃO DE FOTO DO WORLD PRESS PRESS PHOTO – www.worldpressphoto.org

O conteúdo das imagens não deve ser alterado. Apenas retoques em conformidade aos padrões aceitos atualmente pela indústria são permitidos.

 
via American Photo Magazine

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  • Olá. Essa temática é tão antiga quanto a fotografia. Antes de 1900 já havia artistas consagrados por conseguirem fazer fantásticas montagem com filmes de papel. Essas montagens escandalizaram na época, porque mostravam pessoas nuas juntas, mas na verdade foram fotografadas separadamente. A revelação das fotos de filme podiam ser deliberadamente modificadas durante a revelação, desde a mudança de cores, texturas, limpeza de parte da imagens até mesmo os cortes que mudam completamente a informação. Uma "fraude" comum era a montagem do cenário que se pretendia fotografar. A foto era legítima, mas a informação nela não. Quem melhor definiu a fotografia, para mim, foi Richard Avedan: "Todas as fotografias são verdadeiras. Mas nenhuma é verdade." Para concluir, a credibilidade não está na foto, no vídeo ou nos textos e sim em quem nos oferece a informação. Cada vez mais temos que selecionar o conteúdo que consumimos e principalmente sermos muito críticos com tudo. Esse tipo de atitude e cuidado certamente serão nosso desafio para o futuro.

    • Alexandre Maia

      Concordo, João, acho que cada vez mais temos que ser críticos, ficando de olho, como bem disse, em quem nos entrega. No final das contas essa frase de Avedon sintetiza de forma maestral a situação, mesmo nas circunstâncias atuais.

      Grato por seu comentário!

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