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Uma câmera simples, uma ideia na cabeça

Atualmente vemos e vivemos uma supervalorização do equipamento em detrimento da criatividade ou do fotógrafo, e se tratando de pessoas que estão iniciando sua carreira no mundo da fotografia ou que são entusiastas ou que são o público comum, esse tipo de estima pelo equipamento é ainda maior. Vindo de um público comum, ou de quaisquer outros tipos de públicos citados acima, esta atitude e pensamento são até aceitáveis e compreensíveis; todavia vindo de um fotógrafo que se diz profissional, não.

Tenho visto e ouvido dezenas de discussões acerca de equipamentos, marcas, funções, preços, lojas de confiança, seguros, e claro, a guerra entre usuários Canon e Nikon. Há pouco tempo eu costumava me comover diante destas discussões, agora chego até a dar risada quando entro em grupos sobre fotografia e vejo tal tipo de discussão. Agora a minha reação é ser indiferente (a menos que a discussão tenha um tom de brincadeira!): tenho sempre uma postura e opinião oposta à esse tipo de discursso de fã boy e quando me perguntam “porque você comprou uma Nikon?” respondo “não sei, sempre gostei de Nikon e comprei mesmo sabendo da diferença dos preços dos equipamentos Nikon em relação aos da Canon” e finalizo com um “para mim ela tem atendido bem”.

Acho importante esclarecer que o meu equipamento me auxilia a externalizar a minha criatividade e não o oposto, da mesma forma que as pesquisas, estudos e inspiração do artista o fazem compor uma obra, não a obra que o compõe.

O que se precisa de fato entender é que discussões como esta não levam a absolutamente lugar algum e no fim Canon e Nikon continuarão suas vendas porque sempre haverá clientes. Desejo propor uma campanha: troque os momentos de discussão (excessiva) sobre suas ferramentas de trabalho por mais momentos em que você poderia estar treinando; ou indo pesquisar sobre aquele fotógrafo incrível que ganhou um prêmio por ter clicado no celular; ou buscando referências em sites de fotografia; ou saindo para clicar aquele evento cultural na sua cidade; ou assistindo a um bom filme que vai te inspirar nos próximos cliques; ou ainda poderia até ter participado de uma discussão saudável e esclarecedora sobre equipamentos, desde que não incentivando a continuação de preconceitos e reforçando esteriótipos de que quem faz o trabalho é o equipamento e não você.

Provando para mim mesma e para todos o quanto a marca não faz a menor diferença no meu trabalho e sim o motivo pelo qual eu desejo adquiri-lo e com qual finalidade desejo utilizá-lo, ainda essa semana, sob influência do tão esperado black friday, entrei no site da Canon, isso mesmo da Canon! para procurar modelos mais acessíveis e encontrei as Powershot: sem demora adquiri o modelo sx170 IS, uma compacta com alguns controles manuais. Coloquei em pauta para amigos num grupo que participo, anunciei o preço afim de alertá-los sobre a promoção caso houvesse interesse, e disse que havia ficado muito feliz pela aquisição simplesmente pelo fato de ultimamente ter tido vontade de sair na rua para fotografar.

Dessa maneira me dei conta de que estou trilhando o caminho de retorno pelo menos para a maioria dos “fotógrafos”: ao invés de adquirir mais uma DSLR adquiri uma Powershot da Canon (mesmo sendo a marca oposta à que uso normalmente e principalmente sendo uma câmera simples e sem tantos controles), e resolvi fotografar na rua, com um número limitado de cliques, como se eu estivesse usando uma analógica o que vai me permitir pensar melhor sobre o que irei clicar, como será o clique, a luz, o conceito, o enquadramento, o que desejo transmitir; desse modo poderei (acredito eu, simples iniciante) apurar meu olhar para as cenas que me rodeiam e ao mesmo tempo, extrair o sumo da minha criatividade e olhar, mesmo em situações onde o equipamento não me oferece total suporte para tal, me obrigando a superar essa limitação.

Lembrei-me ao adquirir esta Powershot atualmente da minha época de início da universidade, lá por volta de 2010, que foi quando adquiri a minha primeira câmera, uma compacta da Sony, foi também a época em que fiz uma conta no flickr e comecei a postar minhas primeiras imagens. Olhando meu rolo de câmera lá na minha conta esses dias encontrei algumas fotografias com esta Sony que não me permitia nada além do pensamento, controlar minimamente o ISO, modos de cena e de fazer o clique.

Foto clicada com uma Sony W215 compacta - 2011
     Foto clicada com uma Sony W215 compacta – 2011

Na época eu não entendia o quanto isso hoje iria me fazer crescer como fotógrafa e o quanto iria amadurecer o meu olhar e criticidade. Desejei voltar para aquele tempo e ter treinado mais, observado e absolvido muito mais do que simplesmente ter reclamado dos limites do meu equipamento.

Foto clicada com uma Sony W215 compacta - 2010
     Foto clicada com uma Sony W215 compacta – 2010

Não posso voltar no tempo mas desejo acompanhá-lo em busca dos meus melhores cliques, da criatividade, da luz, do enquadramento, do crescimento profissional sem minimizar o trabalho alheio nem as ferramentas alheias; acredito que nós só conseguimos isso por meio da simplicidade e a minha forma de retornar para essa simplicidade foi treinando com um equipamento mais simples, independente de marca.

Desejo que você também possa refletir e crescer e que eu tenha te ajudado um pouco a esclarecer dúvidas sobre essas questões tão simples mas ao mesmo tempo importantes que permeiam o universo do fotógrafo. Desejo que você possa usar tanto a sua vida útil quando a do seu equipamento e expor para o mundo o melhor de você.

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  • KLEBER SANTANA

    Caraaa… Parece até que li isso antes. Comprei aqui em Recife, a duas semanas, uma Samsung WB150f (usada) que tem alguns controles manuais, só para poder estar com ela em todos os lugares (cabe no bolso) e ao ver contrastes interessantes, poder captar. É verdade que existem as limitações do equipamento, mas estou aprendendo muito com a possibilidade de poder estar nesse imenso laboratório diário, que não seria possível com minha DSLR. Parabéns pelo artigo!!!

    • Já tive a WB150 e posso garantir que ela é excelente para aprender controles manuais, ela possui todos os controles necessários para depois ingressar em uma DSLR. Aproveite!

  • acvomotta

    Muito pertinente o assunto. Sempre olhei de lado para essa relação torta entre boas fotos e equipamentos avançados . Recentemente também acessei fotos antigas minhas, tiradas de celulares, câmeras compactas, etc. Encontrei inclusive uma, tirada com um celular em 2001 em Ipanema num fim de tarde de verão, no calçadão e fiquei até feliz com a lembrança que trouxe e a qualidade e beleza da imagem. A percepção humana sobre a iluminação, angulos, perspectivas, momentos, etc, sempre marcará as melhores fotos, mesmo numa HX1 Cybershot da Sony (lente fixa, superzoom) como a que eu tinha antes. Hoje uso uma HX400v da Sony e me atende muito bem (f2.8-7, lente Carl Zeiss,…) apesar de ver as torcidas de nariz quando estou fotografando em meio a outros fotógrafos com suas monstras profissionais…rs
    A minha expectativa é partir para uma full frame (seja Canon ou Nikon).
    Como você mencionou, não alimento as discussões de equipamento. Entro sempre com uma pergunta sobre exposição ou iluminação para quebrar o gelo do pessoal. Vamos trocar experiências e não farpas.
    *** Adorei o seu texto e a primeira foto monocromática que você mostrou.

  • Sivano Muniz

    Sou mais uma profissional com imagens claras e nítidas, preço não é problema o que importa é a qualidade da imagem e o momento. Não adianta vc ter o momento e não ter qualidade.

  • Bruno Matos

    Muito bom texto.Mais pessoas devem pensar assim

    • priscilatwo

      Obrigada Bruno! Abraços!

  • Texto muito bom q reflete mto a realidade
    esses dias estava assistindo a alguns videos no you tube e num deles
    os fotógrafos que se diziam profissionais ficavam rindo de quem fotografava
    com uma canon t3 (iniciante) achei o fim @#¨@
    Também pensoe treino pra fazer uma fotografia mais com a minha personalidade
    até resgatei uma com filme pra ver se me inspiro a resgatar o q quero mostrar pro mundo. :) ;)

    Mônica

    • priscilatwo

      Exato Mônica, a gente precisa partir sempre da simplicidade pra começar a perceber quem nós somos e que tipo de fotografia queremos fazer.
      Abraço!

  • Milton Sérgio

    Muito bem colocado. Eu também uso Nikon, tenho duas por enquanto, rsrsrsrs. Mas saio pra rua com uma Canon SX160 IS. Como você disse, tem alguns controles manuais que dá pra fazer muita coisa boa. As pessoas quando me verem com ela na rua, ou em algum evento, acham que estou de brincadeira. Qualquer dia desses vou fazer um book só com ela, fazendo o flash embutido dela disparar os grandes. Só pra mostrar que a luz correta é muito mais importante que a câmera mais cara, seja de qual marca for. Como diz o Adriano Gonçalves: "Eu faço foto com qualquer câmera, mas não com qualquer luz".

    • priscilatwo

      Milton, vc tocou num ponto super forte que foi justamente no que eu toquei também: não é a câmera que nos domina, somos nós que a dominamos. No final o que vence é o nosso olhar. Também já passei pela experiência de fotografar parte de um evento com o celular, os olhares estranhos vieram e no momento eu cheguei a me abalar, mas depois refletindo me dei conta de que o meu olhar era o diferencial e tive a firmeza de continuar fazendo aquilo independente do olhar alheio. Acho importante que a gente se desprenda dos equipamentos especialmente em momentos de estudo, é assim que conseguiremos medir nossa real qualidade técnica e bagagem cultural.
      Grande abraço pra você e sucesso! =D

      • Aires

        Acho que sou um frustrado em fotografia, vejo as fotos de todo mundo bonitas, belas, nítidas, bem focadas mas as minhas acho as piores do mundo. Tenho um monte de câmeras, dessas "pebinhas" e até agora não encontrei nenhuma que me realizasse, vejo que sou um fracasso mesmo. Mas esse esclarecimento é muito importante, vou me engajar nesse ponto de vista.

        • priscilatwo

          poxa Aires, cara eu acho que realmente é legal que você comece a refletir mesmo, se engaje desse ponto de vista novo, porque eu vejo que fotografia é muito de prática, insistência, bagagem cultural, sensibilidade, ponto de vista. Acho que as câmeras nos ajudam a realizar isso, mas em primeiro lugar, a gente precisa saber onde queremos chegar com nosso estilo fotográfico e o que queremos dizer pro mundo.
          Sucesso pra vc! =D

  • michacsantos

    Tenho uma mirrorless Sony, e percebo os narizes virados quando saio pra fotografar com ela. Mas quando bate uma vontade de trocar, lembro da linda Rafaela Reis, que faz trabalhos lindos com sua T3i – e lembro que ela disse que não tinha como e não queria trocar de equipamento, mas poderia aprimorar o seu olhar, sempre!. Achei lindo aquilo. Também uso e acompanho muita gente boa no Instagram.

    • priscilatwo

      Pois é, eu acho que a gente não deve mesmo se preocupar com os narizes virados. Eles vão continuar se virando sempre, infelizmente o ser humano é assim. É importante sempre extrair o máximo do mínimo, pelo menos pra mim, isso funciona muito bem! Fico impressionada ao ver cliques incríveis com celulares ou câmeras mais simples, mais uma vez só reforça o meu pensamento: menos é mais! Abraço e sucesso! =D

  • Gerson

    Este verão vou partir para a prática inspirado por experiências como a sua, em mãos terei uma Olympus VR 320 descartada pelo antigo dono, um Galaxy Gran Prime e tripés. Cedo ou tarde investirei numa DSLR, mas antes quero ter a experiência de fazer o máximo uso do que se tem em mãos. Gostei muito da primeira foto!

    • priscilatwo

      Muito bom Gerson, acredito que são nessas situações que a gente consegue tirar realmente o sumo da nossa fotografia. Melhoramos bastante! Abraço e sucesso! =]

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